Ubaldo – Fugi para gravar meu nome

  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

 

 

Por: Betinho Marques 

 

“Tem nego Ubaldo aí, tem nego Ubaldo aí?!” Era assim que no meio do aperto ou marasmo a torcida do Galo provocava quem podia mudar a partida. Esta era uma das formas de fazer o Miquica enlouquecer a torcida do Galo nos anos 50.

Ubaldo Miranda, 87 anos, nascido na bela das belas, Divinópolis, fugiu de casa para fazer morada e história no Atlético. Vendedor de tudo, como disse por inúmeras vezes, vendia de pé-de-moleque a chouriço e linguiça. Estas eram apenas algumas especiarias dos irmãos Miranda que compunham em nove, um time de irmãos (6 moças e 3 rapazes).

Nascido em 19 de julho de 1931, Ubaldo “cascou fora” de casa para ir para o Galo. Foi encontrado em Lourdes onde morou, nas dependências do Estádio Antônio Carlos cerca de três meses depois. Desde cedo, já dizia: “Um dia, vou ser jogador profissional e vou ser falado por todo o mundo”. Quando partiu de Divinópolis, fez tudo em segredo. Juntou suas pequenas economias, arrumou sua mala e levou consigo uma carta do cartola identificado como Coimbra, do time local, o Internacional. A tal carta era endereçada a um meia do Galo, Paulo Cury, o mesmo que foi presidente do Galo entre 1995 e 1998.

 

Um novo perfil de artilheiro

Acostumado com atacantes refinados como Mário de Castro, pertencente ao Trio Maldito nos anos 20, encantada com Guará, o Perigo Loiro, Campeão dos Campeões em 37 e maior artilheiro dos clássicos contra o rival, ainda estava recente também a memória de Carlyle nos anos 40. O torcedor atleticano, na década de 50, acrescentou em sua identidade um novo ingrediente: a raça e a crença no impossível.

Relatado na história como um jogador hábil, porém, desengonçado, Ubaldo foi destaque em uma década histórica do Atlético que ainda não era o GALO. Isto mesmo! O Atlético era o maior campeão de Minas, mas por incrível que possa parecer, era obstinado pelo tão sonhado TRI. Por vezes, bateu na “trave”. O celeiro da época tinha ídolos imortais como: Cafunga, Mão de Onça, Haroldo, Zé do Monte, Vavá e Lucas Miranda. Destacar neste elenco não era fácil, mas Ubaldo era o homem da velocidade, do entusiasmo e dos gols espíritas. Miquica era o homem das bolas impossíveis, dos gols improváveis, assim conquistou a torcida.

 

Fora da Conquista do Gelo e o Tricampeão Improvável que virou Penta

Arte: Itacir Costa

Em função de uma convocação do Ministério da Defesa(Exército), Ubaldo ficou de fora da Excursão à Europa em 1950, o Campeonato do Gelo. Ricardo Diez, técnico do Atlético, lamentou que o futebol brasileiro e mundial perderia sem a presença do Mágico.

Em 1954, num campeonato no mínimo inusitado, o Cruzeiro havia vencido dois turnos e o Atlético um. Cada turno vencido equivalia a 10 pontos. Desta forma, o time do Barro Preto somava 20 pontos e os alvinegros 10. Para se sagrar campeão era preciso somar 25 pontos e cada vitória nas finais valiam 5 pontos, portanto, os azuis precisavam de apenas um triunfo.

Neste cenário, com muita confiança do rival e muita cautela dos atleticanos começou o primeiro embate, que segundo os cruzeirenses seria a primeira e última partida da final. No primeiro jogo, já no ano seguinte, o Atlético venceu por 2 x 0, com gols de Joel e Gastão no dia 17/04/1955. Na segunda partida em 21/04/1955, o Atlético foi supremo e Ubaldo o nome do jogo com dois gols. Joel completou o placar de 3 x 0. Com a vitória no segundo duelo, os clubes estavam empatados com 20 pontos.

Na terceira peleja, em 24/04/1955, os rivais empataram por 1×1. Mais uma vez, Ubaldo inaugurou a partida. Com o empate Atlético e Cruzeiro acumulavam 22,5 pontos. Haveria o quarto clássico, no dia 01/05/1955, dia do trabalhador. Se houvesse empate, o jogo iria para a prorrogação. Caso persistisse a igualdade os dois seriam declarados campeões. Porém, Ubaldo queria gravar seu nome na história do alvinegro. Foi dele o primeiro gol do jogo, aos 16 minutos do primeiro tempo. O tento, naquele momento, pela forma, pela valentia e pelo desejo de seus companheiros em conquistar o tão desejado TRI, propiciou um cenário que fez  surgir os primeiros gritos de Galo, ali no Independência.

Já no fim do jogo, aos 43 minutos, Joel fez o segundo gol e a cidade comemorou o título por vários dias. Os jornais diziam: “Enfim, o Atlético chega ao seu tricampeonato”. Ubaldo era dos mais festejados, o camisa 9 desencantou a maior torcida de Belo Horizonte, tudo era festa. Mais tarde, o agora GALO, pegaria gosto e chegaria na sequência ao seu pentacampeonato (52,53,54, 55 e 56). Ubaldo em 1956, estava no Bangu e não estava no quinto campeonato consecutivo.

Tomando refrigerante: Mauro Patrus, Amorim(fundo), Vavá, Lucas Miranda, Ubaldo e Sinval

Foi na ida para o Rio de Janeiro, que uma de suas filhas nasceu em terras cariocas. Vera Lúcia, uma das filhas muito presentes na vida do craque atleticano, foi “fabricada” nesta transferência. Por curiosidade, Vera recebeu o nome em função do trem de luxo que fora inaugurado em 29 de março de 1950, o Vera Cruz, que levava mineiros ao Rio de Janeiro. Miquica tem 4 filhos (Vera Lúcia, Ana Maria, Jaqueline e Júlio César). Ubaldo foi casado por 36 anos com Anísia Pontes, sua linda esposa, como conta a própria filha Vera:

 

“Meu pai era cheiroso e arrumado e minha mãe era linda demais. O negão não era bobo mesmo.”

 

Miquica voltou em 58 para ser carregado pela Massa

Após bons momentos no clube carioca, atuando ao lado de Zizinho, a torcida desejava a volta do homem dos gols espíritas, sem ângulo, das arrancadas e do vigor de um obstinado atacante. Miquica voltou em 1958 para conquistar seu último título com a camisa atleticana. Foi decisivo nas finais de 1958, sendo dele o gol no primeiro jogo por 1×0 contra o América. Seu companheiro Alvinho fez o 1×0 na segunda partida. Estava ali, fechada mais uma cicatriz, já que, em 48 o América havia vencido o campeonato que tirou o tão desejado tri de forma bastante contestada, mas isso contamos em outra oportunidade. A torcida levou Miquica nos ombros do Indepa ao centro de BH para mais uma das longas festas atleticanas.

As contusões graves nos joelhos fizeram a carreira de Ubaldo diminuir seus picos. Após uma contusão num jogo contra o Bahia em 1959, seu futebol não foi mais o mesmo. Jogou pouco tempo em clubes do interior de Minas, como Villa Nova, URT, jogou mais uma vez no Galo em 1961 e parou definitivamente em 1962.

“Fiz 135 gols só jogando aos domingos, se jogasse nos tempos de hoje teria feito mais de 1000”

 

Gratidão ao Atlético e a Alexandre Kalil

Após uma vida de Atlético, a gratidão de Ubaldo é toda ao Atlético. “Foi o Atlético que me acolheu, foi o Atlético que fez quem eu sou. O Atlético recebia os negros. Eu fugi de casa e após três meses meus pais me acharam lá no Antônio Carlos, morei ali no Estadinho”.

Ubaldo é aposentado do estado, participou como encarregado na construção do estádio Mineirão, coordenou gandulas e coleciona histórias. Hoje, mora sozinho, muito bem assistido pelos filhos, em especial pela Vera Lúcia, que semanalmente “fiscaliza” os hábitos do serelepe Ubaldo. Morador do bairro Alípio de Melo, o Negão passou há pouco tempo por dificuldades financeiras e de saúde. Porém, segundo conta Vera, Kalil foi quem o amparou, e através dele, mais uma vez, o Atlético ajudou na recuperação do seu pai. No desespero após uma pneumonia, ela procurou ajuda e resume da seguinte forma, sua gratidão ao atual executivo da Prefeitura de Belo Horizonte:

“Para o Kalil, se preciso for, pelo carinho e por tudo que fez ao cuidar do meu pai, inclusive me xingar preocupado, eu daria um órgão meu para salvar a vida dele. Acho que isto resume tudo”

 

“Tem nego Ubaldo aí, tem nego Ubaldo aí?!” Foi assim, várias vezes, carregado do Indepa ao centro de Belô que a torcida apaixonada sempre reverenciou quem por este manto sangrou. Fugitivo de Divinópolis, nunca esqueceu de lá. Morou debaixo das arquibancadas do Estadinho com uns trocados das suas economias, conquistou o que queria, o povo!

Ubaldo está vivo e imortalizado no coração da Massa pelos dribles não convencionais e por fazer possível o que não podia ser. Devoto de São Judas, talvez, a fé explique Ubaldo, que veio do nada para o tudo, e talvez, também explique o Galo aos mais novos.

O Fala Galo, agradece ao Mestre dos gols espíritas pela construção do atleticanismo que é simplesmente, deixar todo o povo participar!

Ao atleticano que hoje grita Galo, ao entusiasta que é apaixonado por esse manto preto e branco, ao “maluco” que estuda formas de entender quem fez isto acontecer:

Hoje é dia de memória, hoje é dia de história! Ubaldo vive!

 

Ficha Técnica:

Nome: Ubaldo Miranda

Nascimento: 19/07/1931

Local: Divinópolis

Jogos pelo Galo: 274

Gols: 135

Vitórias: 151

Empates: 59

Derrotas: 64

Títulos: Campeonato Mineiro em 1950, 1952, 1953, 1954, 1955 e 1958

Observação:

8º maior artilheiro da história do Atlético

Recebeu a Medalha da Inconfidência

Recebeu o Mérito Atleticano em 2017

Galo de Prata – Maior Honraria do Atlético

Prêmios: Artilheiro do Campeonato Mineiro em 1953 e 1958

 

 

Galo, som, sol e sal é fundamental!

 

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS
Instagram: instagram.com.br/falagalo13
Facebook: facebook.com.br/falagalo13
Twitter: twitter.com.br/falagalo13
Youtube: youtube.com.br/falagalo13

 

 

6 comentários em “Ubaldo – Fugi para gravar meu nome

  • 11 de junho de 2019 em 08:59
    Permalink

    Parabéns pela crônica! Deu vontade de ter vivido um tempo em que nem era nascido. Que a vontade de vencer, a garra, e a crença no impossível tornem possível as conquistas, como o Ubaldo mostrou!

    Resposta
  • 11 de junho de 2019 em 09:40
    Permalink

    Sensacional! Parabéns pela singeleza e docilidade, Betinho. Esse é – de longe – o MELHOR texto que já li nesse blog.
    Mestre Ubaldo merece toda a nossa reverência. *Aplausos

    Resposta
  • 11 de junho de 2019 em 10:20
    Permalink

    Betinho, li sua crônica sobre o Ubaldo. Excelente. Vc me remeteu aos meus primeiros anos de galista.

    Depois de ver Tomazinho, camisa 10, balançar as redes e fazer o Galo ganhar por 2 x 0 de um adversário cujo nome nem mais lembro no velho estádio Antônio Carlos, o meu debu aos 6 anos de idade em jogos do Atlético, vi Ubaldo, ao vivo e a cores, fazer um de seus antológicos gols espíritas em uma goleada aplicada pelo Galo no América por 4 x 1. Um dos primeiros clássicos que curti ao vivo no velho Horto.

    Vi também, por mais de uma vez, a massa passar carregando o Miquica dos gols impossíveis pela av. Silviano Brandão em direção à Praça 7.

    Mas, foi no velho Cine Brasil, na mesma Praça Sete, que vivi um dos momentos mágicos graças a Ubaldo.

    Minha saudosa mãe me levou para ver um filme do Mazaroppi.

    Naquela época, antes da exibição do filme, o Canal 100 era a atração esperada e obrigatória.

    Ubaldo já estava naquela época no Bangu do RJ. Convocado para a seleção carioca que faria um jogo amistoso na Argentina contra a seleção de Buenos Aires, o Miquica brilhou e levou os cariocas a uma vitória emblemática.

    O fone era de péssima qualidade. Mal dava para se ver os jogadores e os lances. Mas, quando a voz potente do narrador do Canal 100 anunciou o primeiro gol do Ubaldo, o cinema explodiu.

    No neguem ficou sentado. Aos gritos de Galo, a massa pulou e comemorou. Gente que não se conhecia se abraçava e chorava. E o grito de “tem nêgo Ubaldo aí, era ouvido fora do cinema.

    Parabéns, Betinho.

    Resposta
  • 11 de junho de 2019 em 10:46
    Permalink

    ERA O IDOLO DO MEU SAUDOSO PAI.GRANDE TEXTO,DEVEMOS HOMENAGEAR NOSSOS IDOLOS EM VIDA.E PARABENS AO KALLIL.

    Resposta
  • 11 de junho de 2019 em 15:00
    Permalink

    Segundo o meu pai, um americano que detesta o Atlético, hoje com 91 anos, esse foi o nosso time-base na conquista do tricampeonato em 1954: Sinval, Afonso e Osvaldo; Mexicano, Zé do Monte e Haroldo; Lucas, Ubaldo, Joel, Gastão (ou Tomazinho) e Amorim. O velho diz que nunca esquecerá esses nomes que tantas vezes o fizeram chorar de raiva, especialmente o “Miquica”, pelos inúmeros gols espíritas que ele fazia. Naturalmente, todas as vitórias sobre o Coelho eram roubadas por árbitros como Luiz Guarda; Cidinho “Bola Nossa” e Joaquim “Cocó”. Abraços!!!

    Resposta
  • 11 de junho de 2019 em 18:45
    Permalink

    Boa noite amigos do Galo. Pegando uma carona na sua crônica, para pedir a Diretoria de NOSSO GALO, que dê oportunidades reais aos garotos das categorias de base, não tenho certeza, mas pelas pesquisas que fiz, o CAM é o único time da serie A do Brasileiro que não tem nenhum jogador da base no seu elenco principal. Não sei porque, mas no CAM ficou mais difícil para quem vem da base, o garoto entra por alguns minutos, joga bem, mas inexplicavelmente não em oportunidade real. Posso citar como exemplo o Bruninho e o Alerrandro, nos poucos minutos que entram jogam bem, mas nem assim têm oportunidade, porque? Hoje mesmo estão contratando um jogador, meio campo do Guarany do Paraguai, mas o Bruninho, cria da casa, não tem oportunidade.

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *