Turnover

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Os profissionais de gestão de pessoas sempre se preocupam quando ouvem a palavra turnover. No português, isso é chamado de rotatividade e mostra a movimentação de empregados – contratações e demissões, além de servir como termômetro para avaliar como estão as coisas na empresa.

No caso do Atlético, a rotatividade de técnicos é para deixar qualquer gestor de pessoas com o cabelo em pé.

É possível, mas raro, o turnover mostrar algo bom. Por exemplo: a empresa está crescendo muito e precisa de muitas contratações. O indicador de turnover é alto, mas tem uma causa boa. Via de regra, o turnover mostra que há problemas naquele ambiente, mostra a rotatividade, quando a contratação é feita para substituir pessoas que saíram ou até a diminuição no quadro de pessoal. A grande questão é porque as pessoas saem. Se pedem para sair, encontraram algo melhor, estão insatisfeitas com o trabalho atual. Se são desligadas, estão inadequadas ao cargo ou não tem um desempenho satisfatório. Em qualquer dos casos, é um sintoma e é necessário que se descubra a causa do problema.

Há um verdadeiro tabu ao falar de demissão. Afinal, quando você contrata alguém é quase como um casamento. Você espera que aquela pessoa seja perfeita e que fique ali eternamente. Mas não é uma ciência exata e, à medida em que vai se relacionando, vai descobrindo coisas que não sabia antes e pode até acontecer de não ser bem aquilo que se esperava. Daí uma alternativa pode ser a separação – ou, no caso, a demissão. Mas diferente do casamento, a escolha de uma pessoa para sua organização é feita por um profissional que deve ser qualificado para fazer esta seleção com base em critérios técnicos, o mais objetivo possível, considerando as funções e tarefas que aquela pessoa vai realizar. Até acontece, mas não deveria, de ver gente escolhendo com base no QI, na empatia, nos sentimentos, na paixão… Acontece que se você escolhe e contrata mal, a chance de ter que demitir fica maior. E aí, finalmente, podemos ver o que acontece no Galo.

De 2008 para cá, entre efetivos e interinos, já são 20 técnicos. VINTE!!!! São 16 diferentes nomes: Alexandre Tadeu, Celso Roth, Cuca, Diego Aguirre, Diogo Giacomini, Dorival Jr., Leão, Geninho, Levir Culpi, Marcelo Oliveira, Oswaldo de Oliveira, Paulo Autuori, Roger Machado, Rogério Micale, Thiago Larghi, Vanderlei Luxemburgo.

A primeira pergunta que fica é: o que há de comum entre eles?

Não é preciso fazer uma análise aprofundada. Não há qualquer característica comum entre eles. Idade, formação, experiência, estudos, boleiragem, conquistas, estilo de jogo, forma de se relacionar com o elenco ou com a imprensa… NADA! São perfis absolutamente diferentes. Isso só mostra que quem contrata não faz a menor ideia do que está procurando, e o que é pior: no mesmo período, tivemos diversos diretores de futebol e mesmo o saudoso Maluf teve alta rotatividade de técnicos.

A exceção foi Cuca. E vamos nos lembrar que o ex-presidente Kalil já declarou em diversas oportunidades que seu filho sugeriu a contratação do Cuca porque o técnico havia passado pelo nosso rival e nos vencido várias vezes. Assim, achava que era quem mais conhecia do Galo. É esse o critério para contratação no Atlético?

Os 20 técnicos que passaram por aqui nesse período duraram, em média, 6 meses. É óbvio que considerar os técnicos interinos faz com que a média pareça menor. Excluindo os interinos são 16 técnicos, com permanência média próxima de 9 meses. Somente em 2012 e 2013 tivemos um mesmo técnico por todo o ano – não por acaso, Cuca, que faz a média de permanência parecer maior. Houve troca em todos os demais anos. Pode acontecer uma troca em um período curto porque a contratação se mostrou um erro? Sim, acontece. Não deveria, mas acontece. Mas acontece uma vez ou outra. Não pode virar rotina como está sendo no Atlético.

Os estudiosos de gestão dizem que um novo gerente precisará de aproximadamente 6 meses para se adaptar ao cargo e começar a implementar suas ideias, e o técnico de futebol é um gerente. É um responsável por uma equipe que, normalmente, passa de 50 pessoas, entre jogadores e profissionais da comissão técnica. É improvável que uma pessoa implemente uma filosofia de trabalho em 6 ou 9 meses. Se considerar que o clube não tem clareza do que quer, não tem uma estrutura de jogo ou uma filosofia de trabalho definida, aí fica humanamente impossível ter resultados em tão pouco tempo. É IMPOSSÍVEL!

Essa falta de orientação que deixa a coisa mais maluca. Os técnicos que estiveram por aqui já tentaram implementar diversos estilos de jogo. Apareceram alguns que tentaram um modelo de jogo mais cadenciado, com trocas de passes, posse de bola e paciência. Outros, com um jogo mais incisivo, chutões (ou lançamentos), rapidez e intensidade. O “Galo Doido” virou referência não porque o modelo era mais adequado ou mesmo escolhido intencionalmente. Virou referência porque ganhamos títulos. Mas é importante lembrar que existia ali um quarteto no ataque com Jô, Bernard, Tardelli e um Mago Ronaldinho Gaúcho. As peças eram excepcionais e isso nos levou ao título. Se além das peças tivéssemos um modelo de jogo melhor estruturado, o sofrimento seria muito menor, os resultados seriam mais fáceis e, provavelmente, chegaríamos a mais títulos.

Qual o modelo de jogo do Galo? A questão não é o modelo de um técnico ou outro, é do clube. O contrato é que deve ter um modelo e contratar técnicos adequados à aquela filosofia.

O correto não é trazer o técnico e obrigar o clube a se adaptar a cada louco que aparecer. E nem estou falando de um tiki-taka do Barcelona. Se você observa a história dos clubes, consegue observar facilmente que cada um tem a sua cultura e que isso é representado em campo. Alguns clubes são marcados pela técnica, passes precisos, toque de bola. No nosso caso, o Atlético é um time de garra, intensidade, ofensivo, incisivo, que pressiona e tem transições rápidas. Isso não é “Galo Doido”, desembestado, é Galo bastante racional, lógico, planejado, organizado e adequado à cultura do clube e ao desejo da Massa.

Nos últimos anos somos reféns do que cada técnico deseja implementar e como não sabemos escolher os técnicos, a cada dia vivemos com uma forma de jogar diferente. Os jogadores devem ficar enlouquecidos e vários são “queimados” nesse processo.

Chegamos, então, ao desempenho. Podemos avaliar pelos títulos, critério que colocaria Cuca e Levir Culpe em evidência porque ganharam. Mas outros levaram o time a boas colocações, inclusive vice-campeonatos e nós nem valorizamos. Também dá para avaliar pelo estilo de jogo, o que é bem subjetivo, gostar ou não gostar. Houveram times que jogavam bonito, mas como não ganharam nada, nós não gostamos. Em outros, com o estilo bem “Galo Doido” era uma correria louca, às vezes sem sentido. Estes foram vencedores e passam a ser admirados. Se considerarmos os resultados em campo (vitórias, empates e derrotas), o pior desempenho no período foi alcançado por um interino, Diogo Giacomini, que só entrou em roubadas. Foram 7 jogos, com 2 vitórias, 1 empate e 4 derrotas, em um aproveitamento de 33%. Surpreendentemente, o melhor desempenho foi de Emerson Leão, com 73% de aproveitamento, tendo 14 vitórias, 4 empates e 3 derrotas, em 21 jogos. É bom salientar que o aproveitamento pode variar bastante em função dos adversários. Ou seja, quem dirige o time no Campeonato Mineiro tem (até por obrigação) melhores resultados que em uma Copa do Brasil ou Copa Libertadores, onde se encontram adversários mais qualificados.

Tirando estes extremos, o desempenho dos técnicos é bastante próximo. Dos 16 técnicos que passaram por aqui, 12 tiveram aproveitamento bem próximos de 50% a 60%. Isso prova que a troca de técnicos tem feito pouca diferença, já que o aproveitamento varia pouco.

Mas existe uma máxima em gestão de pessoas que diz que se contrata pelas competências técnicas e se demite pelo comportamento.

E é isso que está pegando no momento do Galo. As principais queixas da Massa não estão apenas no desempenho – e estamos todos “P da vida” com as duas derrotas na Libertadores. O que mais tem incomodado é o comportamento patético de um treinador birrento que se coloca como mais importante, inteligente ou conhecedor que qualquer outra pessoa. A falta de humildade para reconhecer que o que está sendo feito não está dando resultados. O que incomoda é o “burro” (como ele mesmo se denominou) empacar e não aceitar que certos atletas estão com desempenho inferior ao de outros do elenco, a incoerência entre discurso por números e a realidade na qual os números são horríveis, a arrogância no trato com quem questiona. E mesmo com tudo isso, não vejo que a resposta aos problemas esteja na demissão do atual treinador.

Enfim, a infinita troca de técnicos no Atlético é o resultado de problemas muito maiores. E isso precisa ser discutido e mudado, solucionando definitivamente tais questões.

A diretoria precisa assumir suas responsabilidades em relação ao que vem acontecendo. Precisa ter clareza do que quer e definir qual o modelo e a estrutura de jogo do clube, para só então decidir quais peças irão compor o grupo, do técnico aos atletas.

Turnover se reduz solucionando as causas, não com mais rotatividade.

Por: Prof Denilson Rocha
Revisado: Jéssica Silva

Angel Baldo

Mineiro de nascença, Paulista de criação! Fanático pelo Galo e pelo Fala Galo! Apaixonado pela minha família e Deus, o resto é mimimi!

Um comentário em “Turnover

  • 17 de março de 2019 em 23:51
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    Muito bacana a reflexão.

    O Galo realmente precisa repensar todo o modelo de contratações que tem sido feito, tanto pra técnicos quanto para jogadores. Se tivessem um objetivo claro a ser seguido, com certeza teríamos menos demissões e mais títulos.

    Saudações Atleticanas!

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