Que deuses somos nós?

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Por: Silas Gouveia 

 

Frequentemente viemos aqui para destilar toda a nossa “sabedoria” sobre os diversos temas relacionados ao futebol, finanças e administração de clube. Falamos sempre com muita convicção e com alguma maestria. Invocamos números e estatísticas, por vezes assustadoras e precisas. Criticamos “A”, “B” ou “C” sem nenhum remorso e com a mais completa certeza de que estamos corretos e todos os demais, inclusive e principalmente os criticados, estão errados. “Não sabem de nada”. “Não deviam nem estar onde estão”. Temos conosco todas as argumentações e estudos necessários para crucificar quem esteja de plantão. Afinal, somos os deuses virtuais, dos teclados, ou da TV!

A Tv e mais ainda a internet deram voz a todos para que propaguem suas verdades absolutas, suas retóricas incontestes, suas versões cada vez mais sectárias das coisas. O sim e o não. A verdade e a mentira. O certo e o errado. O eu contra o ele. O Deus e os mortais. É mais ou menos assim que vivemos os dias de hoje, quem discordar de alguém passa logo a ser inimigo. Não há sequer adversário, o binarismo é a religião mais propagada e mais facilmente aceita. A época do 0-1 dominou o mundo!

Lastimável vermos colegas ou profissionais do ramo da imprensa adotarem a verborragia fraudulenta diariamente. Suas falas ou discursos devem ser aceitos como Bíblia, não ousem discordar. Tudo o que falam, ou falamos, será sempre o correto. E se por acaso não acertarem, não deve ser visto como erro de quem falou, mas sim atos do acaso ou do imprevisto, principalmente se pudermos repassar este erro a um descompasso de um guru estrangeiro. Nestes casos, errar é humano.

Fato é que para todos nós que, profissional ou corriqueiramente, desfrutamos da honra de escrever textos ou gravar programas sobre times ou sobre o futebol de uma forma geral, temos sempre um pouco de deuses do Olimpo.

Estamos sempre certos, não erramos, apenas não acertamos de vez em quando, mesmo que em muitas das vezes sequer tenhamos pisado em um gramado de futebol profissionalmente. Administrado sequer uma micro ou pequena empresa. Estudado algum curso de técnico de futebol. Não nos faz falta, somos deuses! Não há motivos para nos penitenciar, pois isso é coisa dos mortais que imploram por clemência quando percebem que eles sim possam estar errados em suas visões apaixonadas pelo time do coração.

O dirigente de futebol deve sofrer tanto ou mais que todos nós quando percebe que seu planejamento foi jogado no lixo. O jogador de futebol muitas vezes deve chorar em casa pelo erro cometido, pelo lance infeliz, pelo gol perdido ou entregue, pelo título que deixou escapar. O técnico, provavelmente, lamenta a substituição malfeita, a escalação equivocada, a chance de se consagrar. Mas os deuses das críticas nunca perdem sua divindade e sua maestria. Por vezes já me deparei com colegas torcendo para o insucesso de seu time do coração (ainda não alcancei este nível de divindade), só para poder destilar sua sabedoria e arrogância com frases como “tá vendo? Eu sabia! Eu avisei!”. Isso é o que mais se ouve ou se lê por aí. Nada nos tira do Olimpo, nada pode nos afetar! Somos imunes a tudo, superiores a todos!

E o torcedor, aquele que sofre mais que qualquer dirigente, jogador, treinador ou comentarista. Aquele que ama seu clube e o futebol em geral acima de tudo, se vê entre a cruz e a espada. Precisa desafogar suas frustrações em não ver seu time campeão há muito tempo, não quer saber se o craque furou no lance decisivo por conta de uma contratura de sua musculatura, exigida ao extremo durante toda a partida. O torcedor quer raça, do time todo, o tempo todo. Quer que a diretoria compre sempre os melhores e mais caros jogadores. Quer que seu time vença, até contra o mais forte de todos os adversários. Afinal, seu time é a extensão de seu corpo, é a continuidade de seus desejos, é o sucesso que ele próprio não consegue ter, é a fortaleza que ele nunca conseguiu erguer, sequer em casa. O torcedor, na verdade, talvez seja o único correto em tudo o que vimos acontecer diariamente no futebol.

Entre o Olimpo e o plano dos mortais há um abismo colossal, mas as vitrines do universo virtual desnudam tudo, de forma a transformar o mais complexo no simples. O papel dos deuses é sempre tornar macia a cama dura dos mortais, transformar a água em vinho, multiplicar o pão, trazer a todos o peixe indivisível. “Panis et circense”, isso nunca foi tão atual. E por vezes me sinto envergonhado por pelo menos galgar o mínimo degrau do Olimpo. Escrever ou falar sobre a paixão de muitos requer não somente conhecimento, mas principalmente, muito respeito e humildade.

Não somos nada! Passamos longe de sermos  considerados deuses. Enfileiramos asneiras diárias sobre os mais variados temas, imaginando sempre que fomos cirúrgicos, que acertamos na mosca, que demos uma aula de competência. Imaginamos que não erramos nunca e que os jogadores, técnicos e dirigentes são os piores seres vivos do planeta! Que representamos milhares ou milhões de “sem vozes”, quando na verdade representamos apenas a nós mesmos, os pseudos-deuses do Olimpo, com nossa cegueira seletiva. Quanta arrogância destilamos em nosso dia-a-dia.

Fiz questão de escrever sempre na primeira pessoa do plural, pois não posso me excluir de nada do que disse. Tenho sempre de me colocar como um privilegiado por estar na condição de analista ou escritor de assuntos do futebol. Tento sempre estudar sobre qualquer assunto que me meta, ou comente. Tento ser o mais imparcial possível, ser diplomático em minhas críticas, mas não há como negar que não tenho o mínimo de vivência do dia-a-dia dos atletas, dos treinadores, dos dirigentes. Analiso e faço minhas colocações sobre o ocorrido, os números frios, as escolhas malfeitas, mas nunca sobre o momento exclusivo e acalorado de uma decisão. Quer seja ela na finalização de um lance, na interceptação de uma jogada, numa defesa de uma bola difícil, numa escalação ou substituição de um jogo, na contratação de um atleta, ou no planejamento de um ano de seu clube.

Hoje tento fazer aqui um “mea culpa”. O dedo em riste dá lugar à mão à palmatória e às mãos elevadas aos céus, peço perdão pelas críticas exacerbadas e julgamentos precoces. Quero tentar deixar a paixão se entrosar com a razão, para não perder o carinho nem o senso crítico e tentar ao menos não ser sempre o Deus de tudo, o profeta do acontecido ou o cavaleiro do apocalipse. Quero apenas ser um comentarista fiel, um observador privilegiado, um crítico construtivo. Quero ser a ponte onde tantos constroem muros.

E se você não concorda com nada do que foi escrito, se tem uma opinião diferente, ou se quer apenas fazer sua crítica, antecipadamente peço sinceras e humildes desculpas. Você muito provavelmente tem toda razão.

Afinal, que deuses somos nós, para termos sempre a última palavra?

 

Revisado por: Jéssica Silva.

Angel Baldo

Mineiro de nascença, Paulista de criação! Fanático pelo Galo e pelo Fala Galo! Apaixonado pela minha família e Deus, o resto é mimimi!

4 comentários em “Que deuses somos nós?

  • 11 de maio de 2019 em 06:49
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    Bom dia massa. respeito seu comentário mais eu não misturo religião com futebol. só sei que nosso amado CAM está na mão de amadores e ex jogadores que andam a mamar no galo. desde de 2015 estamos na lama. já estamos quase no meio do ano e não temos um treinador,lateral esquerdo, goleiro,camisa 10 e 9.chegou um diretor de futebol que até hoje não mostrou porque veio. aliás se não chegar um treinador que põe estas panelas no banco de reservas vamos ser chacota no Brasil em 2019.amanhã contra o Palmeiras eles estão de volta os pipoqueiros pastor pipoqueiro. cachazares. fabio Santos, Victor frangueiro. Elias. Adilson,etc.chega destas barcas no galo. vai galoooooooo.

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    • 11 de maio de 2019 em 07:33
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      Bom dia! Texto subiu errado, já está sendo trocado! Em 20 min o texto certo estará no ar.

      Peço desculpas.

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      • 11 de maio de 2019 em 15:56
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        “*deuses*”? Enistein explica! ‘Tudo aquilo que o homem ignora não existe para ele. Por isso o universo de cada um se resume ao tamanho do seu saber.’
        O que quer dizer que desde que discutiram se a roda deveria ser redonda ou oval houve divergências e coube a cada um interpretar qual seria melhor, se hoje a roda tem a forma que tem,alguém na discussão tinha razão. Desculpe,mas sem discussão, ninguém jamais terá razão.SAN

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