Protagonista ou coadjuvante? Ser ou não ser campeão e vencedor. Eis a questão!

**IMAGEM: BRUNO CANTINI

 

 

Por: Max Pereira / Revisado: Ruth Martins
17/03/2020 – 10h27
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Quem acompanha esta coluna ou os meus perfis nas redes sociais já percebeu que eu não faço e nem reproduzo quaisquer especulações, seja de contratações, de fatos ou daquelas “notícias” que costumeiramente pululam aqui e ali, quase sempre em busca de audiência, de cliques, de notoriedade ou de algum “furo”.

Sempre deixei isso para os “chutoristas” de plantão que, com um furor cada vez mais incontrolável, continuam destilando seus venenos e espalhando suas “verdades” em total desserviço ao Atlético, pouco se lixando se suas práticas “jornalísticas” causam, quase sempre, prejuízos irreparáveis ao clube.

As chegadas de Sampaoli e Alexandre Mattos mudam radicalmente o cenário do clube que, obviamente, fica mais exposto a esse tipo de “noticiário” e se torna personagem obrigatório dos programas esportivos, manchetes, jornais, blogs e comentários dos mais diversos segmentos da mídia convencional.

O Atlético, que sempre foi notícia, vendeu jornais, alavancou audiência de rádio/TV e também é um fenômeno quando o assunto é retorno publicitário, agora, mais do que nunca, pode reprisar aquele breve período em que Ronaldinho Gaúcho desfilou o seu talento com o manto preto e branco e levou o Atlético, não só aos melhores momentos de sua história, como à conquista de seu maior título até então.

E os momentos que se desenham podem, se tudo for bem conduzido e cuidado, serem tão felizes quanto e, principalmente, bem mais duradouros e profícuos. Mas, óbvio, as simples contratações destes dois profissionais em si nada significam e nada produzirão de positivo para o clube se o Atlético não parar de errar. E Sette Câmara tem errado demais.

Aliás, esse primeiro mandato do presidente tem sido marcado por uma sucessão de erros e um enxugar de gelo constantes e, ao mesmo tempo, graças a uma cizânia na base de sustentação política do presidente, marcado também por uma tentativa de dar ao clube um ar de profissionalização que contrasta com o estilo feudal de governança e de fazer política que impera há anos no Atlético.

Não é difícil imaginar que o racha político, cada vez mais visível e não desmentível, obriga o presidente a se descolar de quem agora não é mais aliado. Isso significa buscar formulações de gestão fora da zona de influência dos antigos correligionários e também em posições chave com colaboradores de sua confiança.

Sem tomar posição, devo dizer também que o presidente e seus pares se obrigam a zelar para que os entraves políticos não contaminem e nem prejudiquem o futebol do clube.

Nesse contexto político interno, e considerando o cenário atual do futebol brasileiro, o sucesso de Sampaoli e de Mattos vai depender de Sette Câmara e seus pares entenderem o quão é importante mudar, de uma vez por todas, as concepções e os métodos de governança e trato do futebol, tornando o clube transparente, sustentável e superavitário.

Ou seja, seria pueril demais imaginar que as simples contratações de Alexandre Mattos e de Sampaoli têm o condão de fazer o Atlético, dentro de alguns anos, um dos três clubes mais ricos do país. Sem trabalho, planejamento e boa governança, nenhum profissional é garantia de nada.

É condição “sine qua non” para crescer e obter resultados que se pense grande e haja investimento. Para que haja uma colheita auspiciosa é necessário que haja antes o cultivo e os cuidados com a plantação para que nenhuma praga a destrua.

No futebol não é diferente. Contratação de profissionais de ponta, como Sampaoli e Mattos, pode ser e é, em termos econômicos, uma ótima sacada. Não vejo como os salários de ambos possam, em si, quebrar o clube.

Matematicamente, então, é mais que improvável. Mas, o contrário, i.e., o Atlético falir o trabalho de ambos é muito mais fácil. E, aí, o prejuízo seria inevitável e catastrófico.

Por isso, mesmo aprovando essas contratações, continuo dizendo que permaneço bastante preocupado com as finanças do clube.

Em recente declaração Sette Câmara disse que o Atlético não fará loucuras no mercado em razão dessa nova era do clube com Sampaoli e Alexandre Mattos. Mas, apenas falar não é suficiente.

E o que significa não fazer loucuras? Primeiro, não significa não contratar jogadores de ponta e, sim, não fazer quaisquer contratações sem planejamento financeiro e empurrar dívidas para o futuro.

Segundo, significa não fazer contratações sem observar o perfil do atleta e à revelia da análise de mercado e de retorno do negócio. E, por último, não trazer jogadores sem o cuidado com a montagem e o equilíbrio do elenco, erros que o Atlético vem incorrendo com frequência indesejável nos últimos anos e bastante comuns na história do clube.

Vaticínios apocalípticos alardeiam, aqui e ali, que Sérgio Sette Câmara trocou o discurso de austeridade pelo populismo e vai estourar as contas do Atlético em 2020. Uma das vozes que tem se notabilizado no jornalismo esportivo na análise das gestões e das contas dos clubes brasileiros, o jornalista Rodrigo Capelo escreveu um artigo a respeito das contas do Atlético que provocou reações antagônicas no seio da massa.

Enquanto muitos se deixaram levar pelo pessimismo, outros tantos reagiram ironicamente, sacando que a mídia do eixo Rio-São Paulo na verdade não estaria preocupada com os gastos do Atlético e sim falando em razão de uma incontrolável dor de cotovelo.

Admito que o fato de o Atlético ter contratado Sampaoli, um dos maiores técnicos do continente, possa ter causado despeito e/ou medo de que o gigante adormecido desperte de vez e se torne um protagonista do futebol mais que temível, conforme já detalhei no artigo “Salve Jorge!!! Sampaoli, ame-o e deixe-o trabalhar”.

Mais importante do que divagar a esmo sobre o futuro do Atlético, é fundamental tratar das coisas do clube de modo a não só fiscalizar com eficiência e sagacidade os atos da diretoria, como também a agir e se posicionar para garantir que o comboio atleticano não saia dos trilhos.

Saber filtrar as informações, separando o joio do trigo, i.e., o que é fake do que é verdadeiro, se vacinar em relação às especulações, sejam quais forem, e não contribuir e nem alimentar as ondas e os ataques que os inimigos do Atlético corriqueiramente desferem contra o clube, é o que se espera de um torcedor minimamente comprometido com o futuro do Galo.

É importante atentar para o fato de que, para fazer frente às demandas do futebol dos tempos atuais, o Atlético precisa se estruturar para tal, ou seja, passar por uma profunda reformulação de conceitos e métodos de gestão, aprender a se blindar e a proteger as suas informações estratégicas.

Profissionalismo e transparência, é o binômio que deve nortear esse Atlético campeão e vencedor dos sonhos de seu torcedor.

Não é exagero afirmar que o futebol, que sempre foi pouco ortodoxo nos seus bastidores, está, por diversas razões, chegando a um limite extremamente perigoso.

Alguns clubes chafurdam em dívidas impagáveis, outros poucos buscam soluções próprias de governança moderna e profissional, alguns outros apostam em parcerias de futuro incerto com empresas, enquanto o Flamengo se destaca como um nababo no futebol brasileiro.

A exceção do rubro-negro carioca, os demais clubes chamados grandes do futebol brasileiro se contorcem em seus problemas. Dívidas, má gestão e política interna em constante ebulição, respondem, em graus diferentes, pelas tormentas de cada um. Grêmio e Internacional vêm, cada qual à sua maneira, se reestruturando.

Palmeiras e Corinthians têm, teoricamente, condições para, junto com o Urubu, liderarem o futebol brasileiro. Têm camisa, tradição, receita, mas falta-lhes gestão e sobra-lhes crises políticas e gastos mal planejados. O Bahia é o grande exemplo de gestão moderna, profissional e transparente, mas o salto definitivo para a glória ainda vai demandar muito trabalho e persistência no caminho que começou a percorrer.

Vários são os clubes pequenos e médios no Brasil que, ao longo dos anos, desapareceram ou deixaram de disputar esta ou aquela competição por não terem mais como se sustentar no esporte.

Em Minas, o último caso é o do Patrocinense que já comunicou à FMF que, em razão de dificuldades financeiras intransponíveis, não vai mais disputar a série D do Brasileirão neste ano de 2020.

Tudo isso reforça a necessidade de o Atlético se preparar para enfrentar os desafios que, certamente, surgirão em seu caminho.

Para pretender disputar a hegemonia do futebol brasileiro com o Flamengo, o Atlético tem, antes, que se estruturar. O que vem acontecendo com o clube carioca deve servir de alerta e de inspiração para o comando atleticano.

 

Por exemplo, a notícia de que o rubro-negro carioca tem negociações adiantadas simplesmente com a Amazon para o seu patrocínio master deve preocupar e fazer refletir qualquer dirigente de outro clube brasileiro.

A Amazon, se não for a marca mais valiosa do mundo, é uma das mais poderosas empresas do planeta, além de ser comandada pelo homem mais rico do mundo, Jeff Bezos.

Seja a Amazon, seja outro parceiro, o certo é que o Flamengo ameaça se descolar de uma maneira quase irreversível dos demais clubes brasileiros, sem exceção.

O que seria inicialmente a “espanholização” do futebol brasileiro, com o Flamengo e mais um (Corinthians? Palmeiras?) no topo, e se alternando na conquista dos títulos, pode passar a ser algo muito muito pior e de difícil reversão. Nesse cenário, caso não se prepare para essa nova realidade, o Atlético seria apenas e, quando muito, um mero coadjuvante.

Esse fenômeno já acontece no futebol europeu, onde algumas associações e clubes-empresas exitosos convivem com vários outros clubes, também associações e/ou clubes-empresas, que vivem seus dramas financeiros. E, não raro, acontecem falências ou insolvências, conforme a natureza jurídica da agremiação.

PSG, na França, e Bayern de Munique, na Alemanha, já disputam, há algum tempo, um campeonato nacional de um clube só. Na Itália, a Juventus de Turin vem se descolando gradativa e perigosamente dos outros clubes, enquanto Barcelona e Real Madrid comandam o futebol espanhol e dividem os títulos naquele país.

Como será o futebol brasileiro daqui a alguns anos ainda é uma incógnita. Tendo em vista tudo o que já foi dito e, considerando a grave crise econômica de proporções planetárias e de prognóstico nebuloso, o que se desenha, entretanto, está a exigir do Atlético e de qualquer outro clube que almeje o protagonismo no futebol brasileiro, muita atenção e soluções no trato do futebol que misturem ousadia, austeridade, criatividade, responsabilidade, parcimônia, planejamento, investimento e métodos de gestão diferenciados.

Protagonista ou coadjuvante? Ser ou não ser vencedor e campeão, eis a questão shakespeariana que traça o roteiro atleticano daqui para frente.

Se será mais um drama à moda do famoso teatrólogo inglês ou um épico vitorioso, vai depender da produção (trabalho, planejamento, etc.), da direção (diretoria, comissão técnica e staff), dos atores (jogadores) e da interação com a plateia (torcida).

Ser ou não ser protagonista, eis a questão!!!