Marcas de uma paixão em preto e branco: Histórias ou estórias? Quem sabe?

Imagem: Fred Ribeiro

 

 

Por: Max Pereira 
14/04/2020 – 07h00
Clique e siga nosso Instagram
Clique e siga nosso Twitter
Clique e siga nosso YouTube

Clique e siga nosso Facebook

Era uma manhã de quarta-feira. Não era a quarta-feira do Goulart. Mas não era uma manhã de quarta-feira como as outras.

Do outro lado do mundo o rival entrava em campo para disputar o título mundial interclubes, também conhecido, na época, como Copa Toyota, contra o Borussia Dortmund da Alemanha, então campeão europeu.

BH parou. De um lado os cruzeirenses, com o grito de campeão preso na garganta. De outro, a maioria alvinegra da cidade secando e até fazendo preces em alemão.

Ao final do jogo, com um 2 x 0 que não deixava dúvidas, o Borussia entrou para sempre nos corações atleticanos. Um foguetório varreu os céus deste que ficou ainda mais Belo do que nunca Horizonte.

Saí para um compromisso de trabalho. Um buzinaço infernal, para o qual contribuí como muito gosto, me acompanhou até o meu destino, o cruzamento das avenidas Afonso Pena e Contorno, Praça Milton Campos, onde tinha uma reunião de trabalho.

Deixei meu carro estacionado entre as árvores, próximo, na época, da sede regional da ANP, Agência Nacional do Petróleo. Ao atravessar a Afonso Pena em direção a então antiga sede da Embratel, assisti a uma das cenas mais lúdicas, emblemáticas e impressionantes de toda a minha vida. Uma demonstração de que, para a paixão atleticana não existe limites e, principalmente, barreiras.

 

 

No canteiro central, um senhor negro, de cerca de cinquenta e poucos anos, maltratado pela vida e, provavelmente morador de rua, bailava feliz, ora cantando o hino do Atlético, ora entoando o grito de Galo. A par da alegria estampada naquele rosto  coberto por uma barba crescida e suja, um sorriso de um gozo profundo revelava os poucos dentes enegrecidos que ele ainda tinha em sua boca.

E, se alguém ainda pudesse duvidar que aquele corpo já decrépito e, profundamente marcado por uma vida dura e difícil, era sacudido por um espírito atleticano, uma camisa preto e branca, velha e surrada, espancava qualquer teoria em contrário.

O sinal para os veículos fechou e engana-se quem pensa que ele passou a pedir esmolas ou a tentar vender alguma bala ou coisa que o valha. Ele apenas continuou sua dança que, de solitária, incrivelmente não tinha nada.

É que uma senhora, balzaquiana, aboletada ao volante de seu carro caríssimo, estava absolutamente igualada a ele pela mesma paixão. Ela abriu totalmente o vidro de sua janela e esticou os braços finos e elegantes, pontuados por um solitário que se destacava  em seu anular esquerdo.

Sorrindo e também bailando como podia, a madame também entoava o grito de Galôôoô.  E o que era impossível em condições normais de temperatura e pressão, aconteceu diante dos meus olhos. Aqueles dois seres, completamente diferentes, por alguns momentos que pareceram eternos, transpuseram todas as barreiras que a escala social lhes impunha e, acredite quem quiser, deram-se as mãos e bailaram juntos, cantando o hino mais lindo do mundo.

Aqueles dedos sujos, cujas pontas eram cobertas por unhas enormes e enegrecidas, apertaram e foram apertados por mãos finas, bem cuidadas, ensimesmadas por unhas bem tratadas e coloridas por um vermelho grená.

Eles eram do Clube Atlético Mineiro, como já denunciava o hino em sua primeira estrofe. E isso os fazia iguais. Eles eram atleticanos e isso bastava. Nada mais importava. Toda e qualquer diferença não tinha, naquele momento, nenhuma importância.

Se ainda estão vivos, nem um e nem o outro deve se lembrar dessa cena antológica que protagonizaram na manhã daquela quarta-feira. Certamente, quando o encanto alvinegro se quebrou, eles voltaram a ficar invisíveis e totalmente estranhos, um para o outro. Por um breve é mágico momento foram absolutamente iguais.

 

 

Os nomes utilizados a seguir são fictícios. As histórias e os fatos, quem saberia dizer?

Geraldinho era figura carimbada e obrigatória em todos os jogos do Atlético nesse mundão de meu Deus, aos quais assistia ao lado da Charanga, cujos músicos ele considerava uma extensão de sua família. E foi, segundo ele próprio gostava de contar, o nascimento de um filho que gerou mais uma marca indelével da paixão preto e branca.

Era uma manhã de um domingo de Galo como muitos outros. O Atlético de Reinaldo teria mais uma tarde de gala. O nosso herói, como sempre, almoçava cedo, bem antes do meio-dia. Afinal, como um ritual religioso e sagrado, ele só entrava no estádio com a Charanga que, sempre merecia dele toda a atenção e todo o carinho.

Mal, tinha dado a primeira garfada naquela macarronada, seu prato predileto, quando a sua mulher, grávida de 9 meses, lhe disse  “Hoje não tem Atlético. Hoje não tem Mineirão e nem Charanga”. “Que é isso, mulher? Ficou louca?, reagiu ele.

Ela, então, anuncia que a bolsa havia estourado e que já começava a sentir as primeiras contrações. “Calma, mulher. Está tudo sobre controle”, respondeu ele. Levantou-se calmamente. E, em seguida, fez dois telefonemas. Um para o médico da mulher avisando que esposa entrara em trabalho de parto e estava indo para a maternidade. O outro para um taxista amigo.

Sem acreditar no que estava acontecendo, a mulher se viu colocada em um Táxi e ouviu o marido dar instruções ao motorista. Estupefata, ainda recebeu um beijo na testa. “Depois do jogo chego lá e vejo como tudo aconteceu”, disse-lhe Geraldinho. “Perder o jogo do Galo é que eu não vou”, emendou.

Entre acompanhar o nascimento de um filho e ver um jogo do Atlético, Geraldinho não teve dúvidas. Escolheu o último. No mesmo momento em que ele entrava no Mineirão ao lado da Charanga, seu filho veio ao mundo. O Galo ganhou o jogo, o Rei fez três gols e o bebê ganhou o nome de Reinaldo.

O velho Paulão era radical em sua paixão pelo Atlético. Com vinte e poucos anos tomou uma resolução que respeitou a vida inteira. E olha que ele viveu mais de oitenta anos. Paulão prometeu a si mesmo nunca mais falar a palavra Cruzeiro. E cumpriu.

Quando cantava o hino nacional sempre inflava o peito para entoar, do seu jeito preto e branco e a plenos pulmões, aquela estrofe “maldita”, segundo ele. Enchia o peito e soltava: “A imagem do ATLÉTICO resplandece”.

E quando se referia à moeda da época, Cruzeiro, dizia “pratas”, “mirreis”, “pilas”. Em relação àquelas viagens turísticas em navios, os cruzeiros na sua boca eram ATLÉTICOS. Ah! “Barro Preto” era como chamava o rival.

Seu Antônio aboliu a cor azul de sua vida e de sua casa, onde eram proibidos coisas e roupas com esta cor. Nos dias de céu de brigadeiro, recusava-se a olhar para cima só para não ver o azul entre as nuvens brancas. Seus filhos não podiam estudar em escolas cujo uniforme era azul. E isso foi uma dificuldade, pois a maioria dos estabelecimentos de ensino adota essa cor.

E, pasmem, quando, assistiu pela vez primeira, uma televisão a cores e viu o fundo azul que, em dado momento, era gerado pelo canal sintonizado, partiu com furor para cima do aparelho e o destruiu.

Durante muito tempo só assistia os programas de sua preferência e os jogos do Galo em sua velha televisão preto e branca. Quando esta parou de funcionar e não havia mais possibilidade de conserto e, também, já não eram fabricados e nem mais se encontravam à venda aparelhos preto e branco, seu Antônio ficou sem ver TV, até que uma vitória consagradora do Atlético diante do Internacional em Porto Alegre, 4 x 0, o reconciliou com as imagens coloridas.

Seus filhos viam o jogo e quando eles comemoraram o primeiro gol do Atlético, Seu Antônio se deixou levar para frente do aparelho maldito e ali, hipnotizado pela atuação do time, finalmente capitulou.

Zé de Tal era um jovem anônimo e morador da periferia como muitos e muitos outros. Morava com a mãe em um barraco de uma comunidade como muitas outras. Jamais conheceu o pai e qualquer outro parente, seja materno, seja paterno. Com um padrinho, vítima de morte violenta e prematura, aprendeu a ser e o que é ser atleticano. 

A vida de Zé de Tal era da casa para o trabalho e do trabalho para casa. Cuidar da mãe fragilizada por uma doença crônica e devolver-lhe com juros todo o sacrifício feito por ela para criá-lo e educá-lo era a sua obsessão. O Atlético era a única exceção nos seus cuidados e amor e com as coisas do Galo ele dividia prazerosamente a sua atenção.

Era uma paixão que nem ele mesmo entendia. Os jogadores do Atlético eram, sem o saber, os irmãos que ele nunca teve. Mais que religião, o Galo era a seiva que lhe dava vitalidade e o fogo que lhe dava energia, força e a certeza de que valia pena viver.

Aquele foi um domingo diferente para o nosso Zé. Sua mãe havia falecido no dia anterior., um sábado frio e cinzento. Por volta das 10:00 horas ele chegou ao velho Cemitério acompanhando solitariamente o corpo de sua genitora. Não haveria velório. Aliás, não haveria ninguém para vela-lo. Ninguém para chorar a sua morte. Nem uma carpideira daria o ar de sua graça.

De posse de todos os documentos necessários, atestado de óbito e do direito a uma sepultura, Zé procura um dos coveiros e faz um pedido surpreendente.

“Trouxe o corpo de minha mãe. Está lá no necrotério. Vou te mostrar. Essas aqui são as flores que quero que vc coloque em cima do caixão dela e essa pequena coroa em cima do túmulo, sobre a terra mesmo”. 

“Mas por que isso tudo? Por que vc está me pedindo isso?”, pergunta, atônito, o coveiro que não estava entendo nada. “Vc não vai acompanhar o corpo de sua mãe até a cova?”

“Não. Não vou”. E o incrédulo coveiro escutou aquilo que jamais pensaria ouvir naquele momento: “Hoje tem jogo do Galo e é decisão. Não posso e não vou perder. Tudo o que podia ter feito pela minha mãe o fiz enquanto ela ainda era viva. Ela, esteja onde estiver, vai entender e me apoiar. Amanhã eu volto para visitar o seu túmulo”.

Deu uma gorjeta para o coveiro que ainda viu aquele homem, de palavras firmes e resolutas, se afastar um pouco, fazer suas orações e meditar por alguns minutos que pareceram uma eternidade, enquanto as lágrimas rolavam pela sua face.

Sem falar mais nada, Zé deixou o Cemitério. Às 16:00 horas, exatamente no mesmo momento em o corpo da sua mãe baixava à sepultura, Zé passava pelo emblemático Portão 12. Ah! Os jogos naquela época começam às 17:00 horas.

O time do Atlético pareceu entender a dor daquele atleticano solitário e os gols do Rei foram o único abraço, o único reconforto, que ele recebeu naquele dia. Os seus “irmãos” não o abandonaram. E ninguém entendeu porque aquele atleticano, vestido de preto e branco da cabeça aos pés, chorava e sorria, sorria e chorava.

Seu Coriolano, cansado de zoeiras e, do que chamava de “frescura” do pessoal do Barro Preto, proibiu cruzeirenses de frequentar a sua casa, fosse qual fosse a razão. “Não suporto essa gente”, não cansava de dizer. “Não quero papo com esse ‘bicho’”, repetia sempre.

E, para não ter que conviver com nenhum daqueles “seres”, seu Coriolano impôs aos filhos e filhas que, se porventura, namorassem algum cruzeirense, não os trouxessem para a casa. Não fazia questão nenhuma de conhecê-los.

Pérola, uma de suas filhas, uma linda morena, se enamorou de Olavinho, um cruzeirense de pai e mãe. O amor falou mais alto. Olavinho era o homem de sua vida. E a recíproca mais do que verdadeira. A mentira foi o caminho encontrado para que Olavinho frequentasse a sua casa.

E chegou o dia do primeiro super clássico que Olavinho assistiria junto ao sogro. O primeiro ataque azul que levou perigo ao gol atleticano quase pôs tudo a perder. Olavinho se levanta e quase gritou gol quando a bola passou rente à trave. Seu Coriolano olhou desconfiado para o namorado da filha, mas Olavinho conseguiu disfarçar, xingando o atacante do time da Toca e anda cobrando atenção da zaga alvinegra.

Quando o Atlético fez um gol, Olavinho se viu comemorando, abraçado ao futuro sogro. E, quando, o seu time empatou, o rapaz teve, em esforço sobre-humano, que se conter. Tudo pelo amor a Pérola.

O tempo passou, Pérola e Olavinho ficaram noivos. A uma semana do casamento, um jantar, unindo as famílias, na casa dos pais de Olavinho, fez a verdade vir à tona. Apesar de todos os cuidados de Olavinho, uma foto dele mais jovem, com a camisa do rival, ficou presa, esquecida, justamente na poltrona da varanda onde seu Coriolano se sentou para degustar aquele tradicional café sempre servido após as refeições.

Seu Coriolano fuzilou o futuro genro com olhos, não disse mais nenhuma palavra e se retirou. Sentia-se traído, enganado. Quando a filha chegou em casa anunciou que não iria ao casamento e que não a levaria até o altar para se casar com aquele “sujeito falso, mentiroso, safado”.

Pérola chorou a noite inteira. Sabia que nada no mundo demoveria seu pai daquela decisão. Como fazer o pai entender que só Olavinho a faria feliz. Que apenas o amor importava. A foto era antiga. E, também, pouco importava o fato de que, por amor a ela, Olavinho já tivesse se “atleticanizado”. 

O nosso empedernido atleticano adorava a filha e, embora estivesse sofrendo, não admitia entregá-la a um cruzeirense, ainda por cima, falso e mentiroso. Era demais, inaceitável.

Chegou o dia da cerimônia. Uma sombra de tristeza indisfarçável pairava no ar. Pérola, em um choro intermitente, borrou a maquiagem mais de uma vez. O irmão mais velho ficou com a missão de levá-la até o altar.

Todo o cerimonial do casamento havia sido organizado para ser uma surpresa para o velho atleticano. E, ironia, ele não veria.

Mas, Coriolano resolveu ver o casamento da filha escondido. Quando viu Olavinho passar por ele, vestido com uma camisa preto e branca por baixo do paletó, deu-se conta de sua intolerância. Foi correndo atrás do filho mais velho e pediu-lhe o paletó e a gravata. Pérola, chorou, agora de felicidade, quando viu o pai, também debulhado em lágrimas, se aproximar dela.

Ao som do hino do Atlético, eles entraram na igreja, inteiramente decorada em preto e branco. Ah! Os cruzeirenses continuaram mau vindos na casa de seu Coriolano. Disso, ele nunca abriu mão.

Bem antes da era de pontos corridos, houve um jogo do Brasileirão bem diferente para mim. Embora fosse uma partida decisiva para as pretensões do Atlético de passar para a fase seguinte, as oitavas de final, e o jogo fosse tenso e complicado com tantos outros arbitrados por verdadeiros sopradores de apito exalando, como sempre, uma má vontade absurda e inescondível em relação ao alvinegro das Alterosas, o que vivi nas arquibancadas foi absolutamente surreal.

Estava sozinho, i.e., sem me fazer acompanhar por nenhum conhecido. À minha volta só estranhos e, entre eles, um belo casal. A moça parecia ter sido esculpida a mão por um artista de raro talento. A morena de olhos castanhos bem claros e cabelos lisos e longos, havia chamado a atenção de tantos quantos estavam por ali desde que surgiu, bela e faceira, no túnel à minha direita, que dava acesso às arquibancadas. 

E, para a minha feliz surpresa, veio sentar-se exatamente ao meu lado. 

O adversário era o São Paulo, aquele mesmo que nos “roubará” o título de 77, mesmo tendo 12 pontos a menos que o Atlético na tabela. Um regulamento esdrúxulo e uma disputa de pênaltis bizarra e melancólica marcaram o fechamento de um campeonato que começou em um ano e terminou no outro, graças à desorganização e aos casuísmos tão comuns no futebol brasileiro daquela época. O que começou errado, só poderia acabar mal. Invicto, o Atlético amargou a perda do título.

Era a última rodada da fase de classificação e o tricolor paulista, mesmo não precisando do resultado, veio disposto a complicar a vida do Galo. Depois de um primeiro tempo duro e de poucas oportunidades para os dois times, nem mesmo a leve superioridade alvinegra conseguiu tranquilizar a massa. Minha bela vizinha de arquibancada roía as unhas e o tempo passava velozmente.

Aos vinte e sete minutos da etapa complementar veio o desafogo. Paulo Isidoro, o Moleque Travesso, colheu um chutaço de fora da área, à meia altura, no canto direito baixo do bom Valdir Pérez. Gol que fez a massa explodir e o Mineirão balançar.

E aí aconteceu: a bela moça, cujo nome nunca soube, me agarrou e me abraçou. Ficamos ali abraçados e, pulando juntos, talvez menos de um minuto ou pouco mais, mas um tempo que me pareceu eterno.

Quando me dei conta do perigo, pois estava abraçado e agarrado com a mulher do próximo com esse próximo mais próximo do que nunca, já era tarde. Preparei-me para morrer feliz (rs, rs, rs). Afinal, o Galo tinha feito um gol, a classificação estava chegando e eu ainda iria morrer abraçado a uma Deusa.

Ele, no entanto, nos abraçou fortemente e eu fiquei ainda mais agarrado à garota. Ficamos os três pulando juntos um tempo que não sei precisar. E, ele, bem mais alto que nós dois, ora beijava a cabeça da amada, ora incrivelmente beijava a minha cabeça. Ao final da nossa insólita comemoração, ainda ganhei da bela atleticana um beijo na face, sob o olhar sorridente e cúmplice do namorado.

Aquele foi o único gol do jogo. Pela emoção do jogo e pelo inusitado, valeu por mil. O curioso é que não conversamos nem antes e nem depois do gol. E nem nos despedimos ao final do jogo. O encanto da paixão é assim. Faz-se e desfaz-se. Dura segundos que parecem séculos. E a gente não esquece.

Ovídio era um Atlético daqueles cuja paixão recendia em qualquer ambiente e situação. Ovídio tinha, também, a fama de ser um homem bonito. E apaixonou-se perdidamente por Floripes, uma linda loura de olhos azuis, que já tinha sido Miss e também disputado um concurso de Glamour Girl. Faziam um casal belíssimo. Apaixonados, nunca se cansavam de fazer juras de amor.

Ovídio era daqueles atleticanos que não perdia nem disputas de palitinho se o Atlético estivesse envolvido. Presente em todos os jogos do Galo e em todos os eventos que envolvessem o clube, Ovídio era preto e branco na essência, na alma e no coração.

Floripes não era ligada no futebol. E isso não incomodava o seu apaixonado. Mas, a paixão desmedida de Ovídio pelo Atlético era alvo de fofocas e de provocações de suas amigas.

“Aposto que Ovídio gosta mais do Atlético do que de você”, cutucavam. “Tenho certeza de que, entre você o Atlético, ele escolhe o Galo”, provocavam.

Até que, cansada de tanto ouvir coisas desse tipo e decidida ela mesmo a descobrir o queera maior, se a paixão de Ovídio pelo Galo, se o amor que ele sentia por ela, Floripes fez ao namorado um pedido que mudaria a vida de ambos para sempre.

“Ovídio, você me ama?”, perguntou ela. “Claro, meu amor. Você duvida?”, respondeu ele, emendando outra pergunta sem, contudo, entender a razão daquela conversa. “Eu sou o maior amor da sua vida?”, insistiu ela. “Claro, meu amor. Nunca amei ninguém como amo você”, assegurou ele, dando-lhe um beijo.

Não satisfeita ainda, Floripes exigiu a prova final, aquela que, para Ovídio, teve o sabor de uma traição imperdoável, uma bofetada no rosto, uma agressão inaceitável:

“Então prove”, exigiu ela. “Como”, perguntou ele. “É simples. A partir de agora você vai passar a torcer pelo Cruzeiro. Vai vestir uma camisa azul com cinco estrelas. Se fizer isto por mim, e só se fizer isso, eu vou acreditar que vc me ama”, pediu ela. “Se não começar a torcer pelo Cruzeiro a partir de agora, estará tudo acabado entre nós”, reforçou a garota.

“Te esconjuro, Sai de retro Satanás”, gritou ele atarantado e desesperado. “Acabou. E nunca mais me procure e nem fale comigo”. Contam os amigos que Ovídio nunca mais falou com Floripes. Nunca admitiu uma reconciliação. E dizem que ele nunca mais foi o mesmo. Mas, se tornou a prova viva de que o atleticano pode mudar de tudo, de trabalho, de profissão, de religião, de mulher, mas nunca de time. Virar cruzeirense, então … Sai prá lá, Diabo.

Umas das formações históricas do Atlético começava assim: Kafunga, Murilo e Ramos. Murilo Silva, para os velhos atleticanos que o viram jogar, foi e é o melhor zagueiro da história do Atlético. Elegante, clássico, firme e soberano na área, o beque direito ou “stopper”, na nomenclatura inglesa, idioma daqueles que inventaram o esporte bretão, e como os zagueiros eram chamados naquela época, entrou para a história do clube do seu coração.

Murilo era irmão do jornalista e cronista atleticano, Jair Silva, responsável pela coluna mais lida na época entre os jornais que circulavam por estas Gerais.

“Oropa, França e Bahia”, nome burlesco da coluna, era uma coletânea de crônicas deliciosas desse escriba que fez muito sucesso e deixou, para sempre, o seu nome marcado no jornalismo mineiro.

Uma dessas crônicas conta a história que rememoro resumidamente a seguir.

SOLTA O HOME!!!

Era uma manhã de segunda-feira como outra qualquer, menos para o Doutor Delegado, cujos plantões nos dias seguintes à uma derrota do Atlético eram especialmente penosos e tensos.

As ocorrências do final de semana se amontoavam e o Doutor Delegado mergulhou no trabalho. Era a forma que ele utilizava quando o Atlético perdia um jogo, para esquecer a derrota e fazer o tempo passar mais rápido.

O plantão chegava ao fim e o Doutor Delegado não queria deixar nenhum caso sem solução. Tinha sido um dia duro, pesado. Já arrumava suas gavetas quando perguntou ao seu assistente se ainda havia alguma ocorrência pendente.

“Não Doutor, não tem nada importante”, respondeu o auxiliar. “Não te perguntei se era importante ou não. E quem deve achar se é importante ou não, sou eu, e não você. Qual é o caso?”, retrucou raivoso o Delegado.

“Já disse Doutor. Não é um caso que vale a pena perder tempo com ele”, insistiu o assistente. 

“Não quero saber qual é a sua opinião, rapaz. Não enrola, qual é o caso?”, respondeu o Delegado, cada vez mais irritado.

“Doutor, é apenas um vagabundo, safado, detido por vadiagem. Nem soube comprovar se tem trabalho fixo”, explicou o auxiliar.

“Mas ele não tinha nenhum documento consigo? Nada?”, perguntou o nosso Delegado.

“É Doutor, isso mesmo. Preso por vadiagem apenas. O vagabundo, o safado, Doutor, só tinha uma carteira do Atlético no bolso. Só isso. É um marginal”, detalhou o assistente.

Ao ouvir isso, o Doutor Delegado, lívido de raiva, gritou com o seu funcionário: “Vagabundo, safado e marginal é você. Ele é gente boa e decente. SOLTA O HOME!!!”

Afinal, o suposto meliante era atleticano e era só isso que importava para o Doutor Delegado. Reza a lenda que o tal assistente fora transferido e nunca mais trabalharam juntos.

Muitas vezes eu li e escutei que o Atleticano precisa ser estudado. E já o foi. Teses antropológicas, cujo tema central era o torcedor do Atlético e sua paixão ímpar,  já foram defendidas. Vale a pena pesquisar e ler.

Ao final desse texto quero render uma homenagem a alguns atleticanos emblemáticos e históricos que, ainda que possam não ter inspirado nenhuma dessas histórias, enquanto estiveram entre nós viveram suas vidas em preto e branco. Viveram o Atlético e nada mais importou.

Lambreta, folclórica moradora de rua, Sempre, torcedor símbolo do Atlético, Vitor Bastos e Júlio, o Mais Amigo, eternos comandantes da torcida e da Charanga do Galo, Capitão Estrela, Raimundo Suzano, Seu Raimundo Loyola, Dona Ifigênia, mãe do Marinho da Betânia, o velho Lindolfo, meu tio e padrinho, o velho e “pré-histórico” Kafunga, Gregório, eterno massagista, Thibau, o prefeito que não foi, Dionísio da PX Galo e Seu Bartô, filho e pai, Seu Izalino, o velho, Legume, Adelchi Ziller, o rábula atleticano, Walmir Pereira e Doutor Fábio Fonseca, eternos presidentes, Xico Antunes, Guará, o Perigo Louro, o craque Carlyle, o Trio Maldito, Said, Jairo e Mário de Castro, Carango, o lateral Campeão dos Campeões, meu velho velho pai que me legou o DNA alvinegro e o grande Roberto Drummond que, assim, sintetizou a alma atleticana:

“Se durante uma tempestade, houver uma camisa preto e branca, pendurada em um varal, o atleticano torce contra o vento”. E, esteja onde estiver, o escritor e jornalista atleticano já percebeu que o vento perdeu.

Ah! Os personagens das histórias contadas acima são fictícios e qualquer semelhança dos fatos com a realidade é coincidência. Ou, quem sabe, todos os fatos são apenas puras e verdadeiras marcas de uma paixão sem limites.