A bola pune e os Deuses do futebol quando estão zangados, então... - FalaGalo

A bola pune e os Deuses do futebol quando estão zangados, então…

 

 

 

Max Pereira
Do Fala Galo
18/12/2019 – 06h
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Causa e efeito. Errou? E aí?

Não. Não estou falando de erros como aquele erro grosseiro de Vagner Mancini ao sacar Cazares, o melhor jogador do Atlético em campo, desarticulando por completo o time atleticano que perdeu a lucidez, a fluidez e, principalmente, o passe limpo e transcendente, a assistência precisa e a transição envolvente que o futebol e o talento do equatoriano são capazes de produzir.

Estou falando de erros que geram outros erros. E ainda que seja imperioso agir ou reagir, ou mesmo não partir para a ação, o risco de uma decisão errada está sempre presente. A vida é feita de escolhas. Naquele jogo, por exemplo, era absolutamente necessário mexer na equipe, mas a desastrosa escolha de Mancini ceifou todas as possibilidades de vitória do Atlético. Mais, levou o time a uma derrota antes improvável e perfeitamente evitável.

O erro de Mancini tem raiz em outros erros e são esses que merecem toda a nossa atenção.

2019 chega ao fim com o Atlético buscando um novo treinador e, claro, os tais reforços pontuais. E, como não poderia ser diferente, os nomes especulados quase sempre nunca agradam a sua torcida. Via de regra, ninguém serve, nem para jogar no Galo, nem para comandar o time.

Quem vier, seja para calçar chuteiras, seja para dirigir o elenco, já chegará, como sempre, enfrentando uma desconfiança descomunal, sem direito de errar e, independente de qual seja a escolha da diretoria, as reclamações e o prazo de validade com a torcida sempre vêm junto.

São tantas as especulações sobre quem vai ser o técnico do Galo, sempre oriundas das tais fontes “fidedignas”, e tantos são os arroubos de indignação, raiva e reprovação que, ainda que chegue alguém cujo nome não tenha sido ventilado por ninguém, a pressão sobre esse profissional será insuportável. O novo técnico do Atlético já chegará com um desafio imediato: o de completar uma temporada no comando do clube, façanha que seus antecessores mais recentes não conseguiram.

Cadê o técnico? É a pergunta que mais se ouve e se vê por aí. No país de mais de 100 milhões de técnicos, cada qual, de acordo com a sua régua, exige a contratação de um treinador, claro, minimamente qualificado. Eu também, porém…

“Vão acabar subindo o Zago”, vaticina um galista raivoso, “Thiago Neves poderia ser um bom técnico!”, sugere um debochado torcedor do Palmeiras, “Recontrata Vagner Mancini antes que ele arrume outro emprego”, recomenda outro bonachão.

Miguel Ángel Ramirez/ Beccacece/ Juan Carlos Osório/ Cuca/ Luxemburgo/ Heinze/ Ceni/ Daniel Garnero/ Pekerman/ Diego Alonso/ Enderson Moreira/ Antônio Carlos Zago (que não é o Zago, técnico do time de transição)/ Jubero/ Carille/ Mano e Lisca, entre treinadores brasileiros e estrangeiros, são alguns dos nomes que vêm sendo jogados ao vento. Até o veterano Givanildo foi lembrado. E, claro, Sampaoli. Uma panacéia.

“Luxa não?”, gritaram muitos atleticanos, tão logo a mídia especulou sobre um possível interesse do Atlético. “Descartada a contratação de Sampaoli. Preferido do Conselho, Vanderlei Luxemburgo ganha força no Palmeiras”, diz a imprensa paulista. “Nãaaaao!!! Vem, Luxa!!!”, se desesperam vários galistas diante da possibilidade do veterano e polêmico treinador acertar com o Porco. Seria cômico, se não fosse trágico.

E não é que Luxemburgo está de volta à velha academia de futebol?

Alguém duvida que se a contratação de Sampaoli for confirmada muita gente vai dizer que é um treinador caro? Se Luxemburgo tivesse vindo, diriam que ele é ultrapassado. Se Cuca for o escolhido, que é traidor. E Osório? Não serve. É estrangeiro e, por isso, dificilmente vai se adaptar. Ah! Carille é retranqueiro. Desse jeito, quem seria o treinador ideal para o Atlético?

Jürgen Klopp, um dos mais importantes treinadores do futebol europeu da atualidade, hoje à frente do Liverpool, falando sobre liderança, diz reconhecer a importância de quem trabalha com ele e de deixar essas pessoas crescerem, com a confiança de não se sentirem ameaçadas. “Tem que saber gerir e confiar nos companheiros, não achar que sabe tudo”, diz ele.

Klopp, ao meu ver, nos mostra um dos mais importantes requisitos para um profissional em cuja atividade é essencial saber comandar e liderar. Já vi treinadores, dentro e fora do Atlético, não obstante mostrarem ter excelentes e múltiplos recursos táticos, se perderem e ferirem de morte o seu trabalho, graças a um indomável espírito desagregador, a uma incontrolável vaidade e a uma irritante teimosia.

Avessa a uma análise mais rebuscada, a massa atleticana grita a sua preferência, quase sempre sem se preocupar com o perfil de treinador mais indicado para o estilo de jogo de que gosta ou que prefere ver no Atlético.

E, muito menos, pouco ou nada importa para muitos se o técnico de sua predileção possui limitações na capacidade de liderar. Para estes torcedores, o jogador nada mais é que um monte de músculos e ossos, obrigado a correr os 90 minutos rendendo o máximo, sem direitos, sem vontade própria e sem sentimentos. E se tem um salário alto, então…

Para alguns torcedores, se o Atlético não contratar bons jogadores, não adianta um bom treinador, porque quem quer que seja ele, não vai ficar e não vai deixar saudade.

Para outros, o comando atleticano não tem o mínimo de sintonia com a torcida, levando esta a crer que tudo que dá para fazer de errado a direção faz, parecendo até ser algo proposital.

Impressiona como entre os jornalistas, raros são os que falam e defendem a ideia de uma comissão técnica estruturada e de que o profissional que deve ser escolhido para comandá-la, e ao elenco, deve ser um líder capacitado, que tenha como característica fundamental a capacidade de enxergar o TODO, i.e., que tenha conceitos, metodologias e seja capaz de tirar o máximo de sua equipe de trabalho.

Entre os torcedores verifica-se uma tendência de apoiar a contratação de determinados técnicos estrangeiros simplesmente porque acham que a grande maioria dos técnicos brasileiros são certeza de fracasso. Em geral, esse tipo de torcedor não tem certeza de que os gringos são de fato bons, mas concedem a eles o benefício da dúvida.

Todo final de temporada é marcado por chegadas e saídas que requerem planejamento. E o momento atual do Atlético exige cuidados bastante peculiares e imprescindíveis para que o clube, em 2020, não mergulhe em uma crise sem precedentes na sua história.

Nunca é demais lembrar que 2019 foi um ano de altos e baixos, mais baixos do que altos, e que a situação do clube é delicada. A derrocada do rival deve permanecer viva nas mentes atleticanas.

As palavras de um cruzeirense devem soar para os atleticanos como um chamado à razão: “O Cruzeiro está completamente parado em termos de administração… Não há ainda nenhum planejamento para 2020… É um verdadeiro descontrole… O assunto lá é só política… Que vergonha… É a luta pelo poder, pelo prejuízo do clube e enriquecimento de muitos, da diretoria e funcionários…”.

Sem dar muitos detalhes, ao anunciar a saída de Vagner Mancini o presidente Sette Câmara deu a entender que buscaria no mercado um técnico moderno e inovador. Menos mal. Não é muito difícil perceber que a lista de sugestões da torcida, e também das contratações anunciadas como certas por alguns jornalistas e blogueiros, são prenhes de nomes que fogem dessas características.

Não sei se ficarei alegre ou triste com a escolha do comando do Atlético. Técnico faz a diferença, porém, sem planejamento ninguém faz milagre.

Sei apenas que o Atlético não pode embarcar em nenhuma aventura. Loucura deixa com o outro lado da lagoa. Dentre os treinadores especulados, Sampaoli, o preferido de todos, é caro e demanda um planejamento específico para trazê-lo, com investimento de algum parceiro ou investidor. Sem isso, nenhuma possibilidade de se concretizar.

Em relação ao elenco, o disse me disse não é menor e nem mais razoável. Tem sempre alguém divulgando uma notícia “séria”, de “fonte” de dentro do clube e ligada à diretoria, segundo a qual o sonho do comando atleticano é fazer deste ou daquele jogador moeda de troca, vender Guga e talvez mais alguém, se livrar do Pastor e de Bolt, faturar alguma grana para realizar pagamentos, etc.. Até aí nada de estranho. Mas, só alimentam especulações e colocam os jogadores citados, tanto para sair quanto para chegar, na linha de tiro da torcida.

Vejam essa pérola do Rodrigo Raynner, que exemplifica com maestria o que é dito aqui neste ensaio:

“BMG levando o Luan pro Corinthians e, pra nós, trouxe o Chará!”

“Nada a favor do BMG, mas se fosse o contrário, neguim tb reclamaria. O Chará, fora daqui, seria considerado craque. E o Luan no Atlético, uma contratação errada.”

“Pq aqui ninguém rende!”

Verdade verdadeira. Ou como diria o grande Geraldo Magela, o Ceguinho, jogar no Atlético “é muito difici”!

Por outro lado, a contratação de qualquer jogador não envolve apenas a sua condição técnica. O jornalista Rodrigo Capelo ironiza o fato de ver a torcida corintiana comemorar as contratações do Corinthians com dinheiro do patrocinador, o BMG.

E emenda em seu perfil no Twitter, com absoluta razão: “Podem xingar, vou alertar mesmo assim: ou é empréstimo (com juros etc); ou os jogadores pertencerão ao Coimbra; ou, acho que não, é antecipação de patrocínio. De qualquer jeito: dinheiro não cai do céu!”

Betinho Marques, aqui do Fala Galo, nos lembra em suas redes sociais que a “curva ABC ou gráfico de Pareto(80/20) do futebol, hoje, diz que cerca de 80% das receitas de um clube estão no exaustivo TTP(Transmissão de TV + Transferência de atletas, as vendas + Patrocínios). 20% dos itens respondem por 80% da receita.”

Ou seja, bilheteria e sócio torcedor não são a fatia mais significativa das receitas dos clubes brasileiros.

Não é difícil de perceber, pois, que a contratação de qualquer atleta envolve uma engenharia de cuidados, sob o risco de o clube se endividar temerariamente e entrar em um caminho sem volta.

Antes de exigir ou apenas sugerir a contratação deste ou daquele treinador, deste ou daquele jogador, prefiro cobrar de Sette Câmara e de seus pares, a partir de um perfil de time e de um plano de governança, um projeto de futebol que, óbvio, contenha um planejamento de um elenco minimamente equilibrado. A definição do treinador vem depois.

A contratação da Ernst Young é um alento em si. Mas, os resultados dessa parceria demandam tempo e trabalho. E é assunto para outro artigo.

Por ora, espero que a diretoria do Atlético jamais esqueça que, havendo erros, A BOLA PUNE. E OS DEUSES DO FUTEBOL QUANDO ESTÃO ZANGADOS, ENTÃO…

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