Tempos pandêmicos, problemas endêmicos. Anos atípicos, um Galo bem típico…

Foto: Flickr oficial do Atlético

 

Por Max Pereira (@pretono46871088 @MaxGuaramax2012)

De vez em quando eclode um debate aqui, outro ali, onde o tema é um só: A pandemia mudou o mundo e as pessoas? Defensores ardorosos do sim, do mudou sim, e do não, do não mudou, se digladiam, se agridem e se arvoram donos absolutos da verdade. E, sem querer esgrimir com quem quer que seja, eu digo que o processo natural de evolução e de mudança do planeta e dos homens se modificou sensivelmente com o advento da pandemia.

Não há como negar que 2020 foi um ano atípico e que 2021 não vai ser muito diferente. E não há como não reconhecer que o mundo e todo e qualquer ser humano, negacionista ou não, estejam, de fato, sendo afetados. E, com o futebol e com o Atlético não está sendo diferente.

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O futebol é hoje um negócio sistêmico e multibilionário e nele interagem e interferem diversos atores com níveis de poder, influência, expectativa e interesses diferenciados. Tão logo o vírus foi se espalhando as atividades e as competições foram interrompidas.

A expectativa inicial era de que a pandemia fosse rapidamente controlada ou que surgisse em pouco tempo uma vacina salvadora. Como não aconteceu nenhuma coisa e nem outra, o desconhecimento dos cientistas sobre o vírus foi ficando patente e a vacina se transformou em um belo sonho de um verão distante, as entidades, os clubes e outros atores do circo do futebol, premidos pelas quedas crescentes de receita e aumentos incontroláveis de despesas, começaram a formatar protocolos para obter do poder publico a autorização para que as atividades e as competições fossem reiniciadas com os cuidados sanitários orientados pelas autoridades sanitárias e médicas.

Férias antecipadas, calendário confuso e apertado, quebra do ritmo de treinamento, surto de Covid, chegadas e saídas de jogadores, elenco enxuto e desequilibrado física e emocionalmente e o desejo obsessivo de Sampaoli de modificar abrupta e radicalmente a cultura futebolística do clube foram os principais fatores que se conjugaram para fazer o time do Atlético oscilar e, por fim, abdicar do titulo máximo do futebol, brasileiro nesse complicado 2020.

Como em qualquer empresa ou organização a chegada de novos jogadores, estrangeiros ou não, muda os paradigmas de um clube. E a cultura organizacional certamente é afetada, seja para o bem, seja para o mal. No caso do Atlético a contratação de uma comissão técnica estrangeira inegavelmente balançou ainda mais as estruturas do clube.

Falou-se muito em criar, com Sampaoli, um jeito Atlético de jogar. A menina dos olhos de Junior Chávare, ex-diretor da base, era exatamente o Projeto DNA do Galo. Para muitos cultura e identidade são uma coisa só. Assim, se a cultura muda, o clube perde sua identidade. Daí, não é de se estranhar ver vários atleticanos temerem que o Atlético deixasse de ser Atlético. “Ah! Esse time do Sampaoli não é o meu Atlético!” “Devolvam o meu Atlético!”, foram algumas das mensagens que varreram as redes sociais.

Fala-se muito, também, de um tal projeto que estaria transformando o Atlético em uma potência do esporte no Brasil e no mundo. E para fazer surgir esse novo Atlético, a bordo de uma gestão moderna, profissional e transparente, clube empresa ou não, seria necessário conspurcar a sua identidade? Para se tornar o Atlético que o Sampaoli queria, que muitos atleticanos sonharam e os mecenas estão prometendo, seria preciso deixar de ser Atlético?

Confuso? Então, de outra forma: para que o Atlético dos nossos sonhos e dos desejos dos investidores se tornasse realidade teríamos que “matar” este Atlético que todos conhecemos e amamos? De certa forma, sim. É que para fazer com que esse nosso Atlético, tal e qual uma Fênix, ressurja das cinzas pujante, vencedor e campeão, é preciso cuidar para que nesse processo, a sua essência, aquela do Galo Forte Vingador, seja, mais que preservada, revigorada e prevalente.

O saudoso Belchior teria dito em uma de suas canções que o passado é uma roupa que não nos serve mais. Sim, o passado não volta mais e ainda que a vida se mova em ciclos que muitas vezes parecem repetitivos, o amanhã é sempre diferente do hoje que, por sua vez, também nunca reproduz o ontem. O passado, entretanto, nos lega experiência, conhecimento e a possiblidade de percorrer caminhos novos e de evoluir.

Assim, é só conhecendo a sua historia e tendo consciência de sua essência e de sua identidade é que o Atlético deverá percorrer o caminho que o levará à tão famosa e falada mudança de patamar. E não confundir tradição com conceitos e métodos ultrapassados e cartoriais. Aquela é a raiz da identidade, estes são o mofo que tem que ser removido.

Nestes tempos pandêmicos um Atlético prenhe de problemas endêmicos flertou com o titulo máximo. Nestes anos atípicos um Atlético bem típico busca seu caminho, quebra a “Cuca” e inspira em sua torcida sentimentos controversos. Mas afinal, a tradição do Galo é nadar, nadar, e morrer na praia?

O grande desafio do Atlético se quiser mesmo se tornar um time do mundo de uma vez por todas é romper definitivamente com o anteontem futebol clube que está sempre o impedindo de dar o passo final. É eliminar o fungo encrustado em seu organismo que mina suas resistências, o enfraquece e o deixa impotente diante dos adversários nos momentos cruciais e decisivos.

A bem da verdade e da justiça, erros à parte e que existiram de montão, as oscilações do time de Sampaoli apenas reproduziram momentos vividos com outros treinadores onde seus times, sacudidos pelos abalos sísmicos que, entra ano e sai ano, insistem em sacudir a Cidade do Galo e antes a Vila Olímpica, apenas flertavam com o titulo do Brasileirão e acabavam ficando sentados à beira do caminho catando os cacos que sobraram e lambendo as suas feridas.

Cornetas á parte, mesmo porque eles sempre existirão e, cá entre nós, futebol sem eles não tem graça nenhuma, no momento em que escrevo este artigo, tudo indica que o Atlético já escolheu o seu novo treinador mostrando para muitos que a passagem do argentino deixou traumas no clube e que, para o comando atleticano, a experiência de 2013 pode ser revivida.

Se as cartas assim já foram distribuídas e as apostas foram feitas, é de se esperar que o comando atleticano e o grupo gestor (mecenas) tenham cacife, saibam blefar na hora certa e tenham muitos ases na manga, porque os tempos não serão fáceis.

Do lado fora do tabuleiro onde as decisões são tomadas, cabe à massa, enquanto ainda não volta a estagiar nas arquibancadas, vigiar e cobrar para que não mais nos “roubem” o nosso futebol, não mais nos atropelem antes de cruzarmos a linha de chegada e que os “intelectualoides” do futebol não mais contaminem o nosso time.