Provocações e reflexões. Dúvidas e incertezas…

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Por Max Pereira (@pretono46871088 @MaxGuaramax2012)

Aprendi com o velho Abujamra o quão deliciosa, libertadora e iluminadora é a provocação e o quanto é provocadora a arte de duvidar. Para quem não se lembra, Antônio Abujamra foi um dos maiores atores, dramaturgos e diretores do teatro brasileiro. Abu, como era chamado pelos amigos e colegas, também era filósofo e apresentador. Mestre na arte de provocar, o grande e saudoso teatrólogo marcou profundamente meu aprendizado e me ensinou o divino exercício da dúvida, a melhor forma de aprender e evoluir que existe. Ao duvidar, você se obriga a refletir, a checar novas possibilidades, a diversificar e a ampliar o seu conhecimento, a buscar novas informações e, principalmente, a se abrir mais e mais para o novo e a sair de sua zona de conforto.

Tem gente que só enxerga a árvore e não a floresta. E, mais do que enxergar a floresta, é preciso nela se embrenhar e conhecer os seus mistérios. É necessário ir além do óbvio e do tátil. É preciso caminhar nas sombras para enxergar a luz. E, finalmente, entender que resgatar o lúdico é mergulhar na essência da própria vida.

Nestes tempos pandêmicos, atípicos e de muita reflexão e, em meio a um turbilhão de acontecimentos infaustos e de prognósticos incertos, de muitas dúvidas e de poucas certezas, de vez em quando eclode um debate aqui, outro ali, onde o tema é um só: a pandemia mudou o mundo e as pessoas? Defensores ardorosos do sim, do mudou sim, e do não, do não mudou, se digladiam, se agridem e se arvoram donos absolutos da verdade. E, sem querer esgrimir com quem quer que seja, eu digo que o processo natural de evolução e de mudança do planeta e dos homens se modificou sensivelmente com o advento da pandemia.

Não há como negar que 2020 foi um ano atípico e que 2021 não está sendo muito diferente. E não há como não reconhecer que o mundo e todo e qualquer ser humano, negacionista ou não, estejam, de fato, sendo afetados. E, com o futebol e com o Atlético não está sendo diferente. A verdade é que 2021 não é apenas mais um ano difícil e fora do padrão. É um ano que, dentro e fora do campo, vem desafiando de modo especial a habilidade dos dirigentes e dos investidores do clube.

Buscando driblar as “notícias” e o tédio do isolamento, me vejo sempre imaginando o Atlético em campo, seja nas próximas fases da Libertadores, seja no campeonato brasileiro e na Copa do Brasil que já estão batendo à porta do clube. O jogo sempre começa em meu imaginário da mesma forma e o que eu vejo sempre é um filme já visto e rodado à exaustão: um Atlético em crise, pressionado, proibido de errar e de perder, desajustado tática, física e mentalmente e com os problemas naturais e recorrentes de sua debilidade histórica no jogo de bastidores. O eterno pesadelo em preto e branco.

Não por acaso, mesmo o time tendo confirmado com méritos o primeiro lugar na classificação geral na fase de grupos da Libertadores, ter se sagrado campeão minério mais uma vez e mostrado que está em franca evolução, ainda não consigo enxergar o Atlético entre os quatro maiores favoritos ao título da competição mais importante da América.

No artigo, “GALO 2021, UM AMONTOADO DE SONHOS, DE DESAFIOS E, AO QUE PARECE, DE MAIS PESADELOS”, publicado em 13 de março deste ano aqui no Fala Galo, e que arrancou reações dispares dos leitores, escrevi que “nada do que se fizer trará os resultados esperados enquanto o clube permanecer mergulhado no seu, já crônico, inferno astral”. E concluí: “Afinal, tudo não é difícil para o Atlético e tudo se justifica, não é mesmo? ”.

Inquieto e reflexivo, provoco-me e pergunto a mim mesmo por que o Atlético não me inspira confiança? Por que duvido tanto da sua capacidade competitiva nas fases mais agudas e decisivas das competições? Por que tantas dúvidas e incertezas?

A irregularidade crônica do time, responderiam alguns. A necessidade de fazer ajustes e confirmar a transição de modelos táticos durante competições de características diferentes, coisa do tipo trocar o pneu furado com o carro em movimento, diriam outros. Ah! Seria a instabilidade emocional do treinador, alimentada pela intolerância de parte da torcida, afirmariam aqueles outros. Certamente, a razão da desconfiança estaria apoiada na percepção de que vários jogadores que lá estão não tem perfil e, muito menos, futebol para jogar no Atlético, garantiriam os caçadores de bruxas. Tudo isso junto e misturado, gritariam os incendiários.

Para mim falta aquele olhar de águia nos jogadores, aquele espirito competitivo, enquanto time, que vejo com mais regularidade em outras equipes, aquela imposição, seja pelo talento, a exemplo do Flamengo, seja pela força mental e personalista, como se vê no São Paulo, no Palmeiras, no River Plate e até no Internacional. Nestes dois jogos contra o América, por exemplo, o Atlético jogou muito mal, desarticulado taticamente, sem inspiração enquanto time, além de ter escancarado os seus desequilíbrios físicos e emocionais.

Por isso e por outras razões o Atlético, por meio de seu treinador, já anunciou que, tão logo o clube finalizasse a sua participação na fase de grupos da Libertadores ele e o Departamento de Futebol, se reuniriam par avaliar o elenco, algo a meu ver sempre natural e necessário que, porém, deve ser feito sempre sem alarde e sem provocar especulações desnecessárias e nocivas, tradicionalmente exploradas de forma panfletária pela mídia convencional e pelas redes sociais. Da mesa forma, canais atleticanos sempre repercutem a intenção da diretoria e dos gestores de qualificarem mais e mais o elenco.

Mas, atenção: quanto mais o Atlético qualificar o seu elenco mais conflito de egos existirá e mais sujeito a chuvas e trovoadas o clube ficará. O que aconteceu com Sampaoli, principalmente após o surto de pandemia que grassou no clube e, mais recentemente com Cuca, já ocorreu inúmeras outras vezes na história do Glorioso e vai se repetir desafiando a habilidade dos técnicos e dos dirigentes ao longo dos tempos. Problemas entre treinadores e jogadores, treinadores e dirigentes, jogadores e diretores dos clubes são recorrentes, até certo ponto naturais, inevitáveis, enfim, fazem parte do dia a dia de qualquer agremiação. E, em elencos estelares, o ambiente geralmente é muito mais explosivo que o normal.

Apesar das oscilações decorrentes dos ainda insuperáveis desajustes táticos e dos recorrentes desequilíbrios físicos e de postura, o time mostra que está adquirindo uma agradável consistência defensiva e que, do meio campo pra frente, tem um potencial gigantesco. Os números dos últimos jogos, independentemente da competição, indicam isso. E, se a bem da verdade é preciso reconhecer que nem se monta e nem se ajusta um time de um dia para outro, também é preciso perceber que, embora campeão mineiro e até então líder geral na fase de grupos da Libertadores, Cuca e o próprio Atlético estão sentados sobre um barril de pólvora.

Ainda que os fatores apontados acima estejam, em alguma medida, na raiz de minhas desconfianças, não dá para desconsiderar as demandas e os cuidados que o futebol de hoje impõe a quem pretender, mais que disputar uma competição, vencê-la e colecionar títulos. Aqui falo dos bastidores, do extracampo e das relações do clube com este universo complexo e perverso que se tornou o futebol atual.

Será coincidência, por exemplo, o único jogador do Atlético dependurado (Allan) receber cartão amarelo e ficar de fora do primeiro jogo das oitavas da Libertadores? Seria se ele tivesse feito por merecer. Erro da arbitragem ou má-fé? Seja uma coisa ou outra, é fundamental que o Atlético aja nos bastidores. Não é porque o time jogou bem, fez a sua superioridade técnica individual e coletiva se refletir no placar, mostrou evolução e garantiu o primeiro lugar na classificação geral da Libertadores na fase de grupos que os erros da arbitragem a seu desfavor devam ser naturalizados e menosprezados.

E olha que, não obstante não tenham sido suficientes para mudar o resultado e a história do jogo, o fato é que existiram outros erros além do cartão dado de forma absurda para Allan, como por exemplo, o gol mal anulado no primeiro tempo, ao ser anotado impedimento inexistente de Nacho Fernandes. Quem cala consente. E o Atlético tem que agir nos bastidores, se impor politicamente e se fazer respeitar. Depois do leite derramado de nada adiantará reclamar. Só ganha campeonato quem vence o jogo dos bastidores. O que aconteceu diante do La Guaira pode se repetir mais à frente contra adversários mais qualificados e em decisões mais equilibradas e ser fatal.

Mas, agir nos bastidores não deve ser algo restrito apenas à arbitragem. O Atlético não pode se descurar tanto de coisas que acontecem ao redor de seu próprio umbigo, quanto em relação a fatos que podem debilitar o rendimento e o crescimento do time nas competições.

Na sua própria cozinha um acontecimento poderia ter-se desdobrado em um drama nada inédito da vida do clube: um novo surto de Covid. É que os jogadores do Galo fizeram festa particular após título do Campeonato Mineiro, com a presença de familiares e amigos, conforme fartamente noticiado por vários veículos da imprensa. Uma lamentável quebra de protocolo sanitário que poderia gerar um problema insanável. Falha de comando? Surto de irresponsabilidade?

Ah! Isso é matéria daqueles segmentos da imprensa que sempre querem derrubar o Atlético e plantar crises no clube, bradaram muitos atleticanos indignados com a notícia. É fato que imprensa mineira não tem sido legal com o Atlético há décadas. Mas, com ou sem exploração tendenciosa e midiática, não dá para não reprovar a atitude do grupo atleticano. E pior, o clube apenas se eximiu de responsabilidade dizendo que os jogadores foram liberados para comemorar.

E um problemão já está surgindo no horizonte atleticano. As convocações de vários jogadores para as seleções principal e olímpica de seus países. Um desfalque considerável, tanto pelo número de atletas convocados, como pelo tempo que ficarão longe do clube que, no mesmo período em que eles estarão servindo aos seus selecionados, continuará disputando três competições simultâneas, o campeonato brasileiro, a Copa do Brasil e a Libertadores.

Diferentemente dos clubes europeus que agem fortemente nos bastidores e não se permitem fragilizar e nem disputar jogos importantes e decisivos sem os seus principais jogadores e, por isso, brecam as suas convocações sempre que isso for do seu interesse, em particular para as seleções olímpicas e de base, o Atlético sempre comemorou as convocações de seus atletas sob o argumento de que eles estariam se valorizando. Ironicamente, o clube angariou, não sem razão, a fama de pior vendedor do futebol brasileiro, tantos foram os péssimos negócios que realizou permitindo quase sempre que seus jogadores e suas joias da base saíssem do clube a preço de banana.

Há indicações de que o Atlético está discutindo e analisando este imbróglio. Particularmente, espero que o clube, a exemplo do Flamengo que já obteve tratamento diferenciado junto à CBF, já esteja, se movimentando para que também tenha algumas datas de seus jogos modificadas. E podem ter certeza que outros clubes já estão se movimentando nesta direção.

E tem mais: as saídas de jogadores na próxima janela que certamente ocorrerão se dependerem da vontade do clube que, premido pela sua delicada situação financeira, já deu inúmeros recados nessa direção. Chegadas e partidas, com tudo o que estes movimentos implicam, estão no radar do clube. Tudo isso vai requerer de Cuca, da diretoria e dos gestores do clube extrema sabedoria, habilidade e tirocínio.

Desde sempre ouço que o Atlético não precisa de inimigos. Muitas vezes o Atlético, mais do que se transformar em um cruel e terrível adversário de si mesmo, se converte em um inimigo impiedoso e implacável de si próprio. O Atlético é, e sempre foi, uma fábrica de crises intermináveis.

Se o Atlético é um poço de paradoxos, a sua torcida também não é diferente. Apaixonada, frenética e bipolar.

E eu, cada vez mais inquieto e reflexivo, continuo me provocando e perguntando a mim mesmo por que o Atlético não me inspira confiança? Por que continuo duvidando tanto da sua capacidade competitiva nas fases mais agudas e decisivas das competições? Por que continuo atormentado por tantas dúvidas e incertezas?