O futebol exige profissionalismo: por um novo Galo

Foto: Reprodução WhatsApp

 

Por: Denílson Rocha / @denilsonrocha

O esporte faz parte da nossa vida desde muito cedo, especialmente o futebol. A bola é um dos primeiros presentes e vai nos acompanhar por quase toda infância, adolescência e, para muitos, até a vida adulta. As brincadeiras com outras crianças nos auxiliaram no desenvolvimento motor e, mais importante, nos trouxeram amigos. As “peladas” continuam servindo para encontrar os amigos e conhecer novas pessoas – mais que o jogo, é uma ótima desculpa para o churrasco e a cerveja. Mas esse ambiente lúdico é nosso, do torcedor, do fã de futebol, do amador. Quem tem o futebol como foco do trabalho, não apenas o atleta, precisa entender que profissão é outra coisa.

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Em 2007, a Revista Piauí publica um texto que já trazia bastante das mudanças que aconteciam no futebol – e que o Brasil ainda está se habituando a parte delas (leia aqui). Entender a origem e a história do futebol é essencial para compreender que o esporte atual é bastante distinto do que existia até anos atrás. O amadorismo da primeira metade do século passado deu lugar a um negócio bilionário, que transforma o menino de origem pobre em um ídolo mundial. O jogador com quem nenhum pai deixaria a filha namorar virou o objeto de admiração. O jogador que sequer tinha salário se transformou na celebridade multimilionária. O mundo relativamente recente retratado no seriado/documentário “Doutor Castor” causa espanto frente às modernas arenas, centros de treinamento, luxo e riqueza do “futebol moderno”.

Ao se inserir no mundo dos negócios, do entretenimento, o futebol deixou de ser apenas uma brincadeira. O jogador boleiro cuja habilidade era suficiente para brilhar não é mais tão valorizado. Garrincha, com suas pernas tortas e comportamento extracampo bastante questionável, teria dificuldades no futebol atual. A exigência física e o rigor tático mudaram completamente o jogo e a característica do jogador. Mais importante, a exposição não termina com o apito do juiz – o jogo termina no campo e se inicia nas redes sociais e nos programas de esporte. A imagem é tão ou mais importante que o desempenho esportivo. O profissional do esporte agora é outro.

Mas o que é profissional? De origem no Latim, PROFITERI, “declarar em público”, formada por PRO-, “à frente (dos outros)”, + FATERI, “reconhecer, confessar”, expressa o reconhecimento público, ou seja, a pessoa que tem conhecimento reconhecido para realizar algo, o que lhe dá legitimidade (direito de fazer). Simplificando, profissional é aquele que tem habilidades, conhecimentos e capacidades reconhecidas para realizar alguma tarefa. Associe a isso o conceito de meritocracia originário na teoria burocrática weberiana, que prega que os cargos devem ser ocupados pelas pessoas que mostram maior capacidade para exercer as funções. Daí, temos a imagem que usamos para o profissional atual, em todas as áreas, incluindo o futebol: é a pessoa com reconhecida competência para determinada função.

Falar, então, em profissionalismo nos clubes de futebol no Brasil é quase uma piada. Afinal, a maior parte dos clubes ainda tem presidentes e muitos componentes amadores, que não tem a menor competência para estar naqueles cargos. Façamos um exercício bastante simples: que presidente de clube brasileiro seria contratado para conduzir uma empresa que fature centenas de milhões de reais anualmente? Se realizar um processo seletivo sério, baseado em competências para o cargo, que presidente seria aprovado?

Recentemente, o CEO do Botafogo foi contratado com a participação de uma consultoria especializada em processos seletivos de executivos. Mesmo o Atlético anunciou parceria com uma plataforma de gestão de pessoas que passa a ser utilizada no processo de contratação dos novos integrantes do Clube. Outros clubes também vêm adotando tais posturas, buscando a profissionalização de seus quadros. Porém, ainda são iniciativas pontuais em clubes cujo histórico é marcado por sócios e conselheiros sem qualquer qualificação ou conhecimento dando seus pitacos no dia-a-dia da instituição. Ainda encontramos no camarote ou no centro de treinamento o dirigente engravatado eleito por um conselho deliberativo pouco representativo.

Os discursos em relação ao Atlético indicam uma profunda transformação no Clube e a fala mais usual é de busca da profissionalização. Se o apoio de empresários de indiscutível sucesso dá credibilidade às ações tomadas, o retorno de um CEO que esteve no Clube por longo período de amadorismo gera dúvida. Ao mesmo tempo, as iniciativas já colocadas em prática no marketing mostram evolução e uma perspectiva de um Clube efetivamente conduzido por profissionais do ramo.

O tão falado “projeto” que está sendo implementado no Atlético ainda é um segredo cujos reais objetivos são conhecidos por poucos, mas sempre leva a entender a busca da profissionalização no Clube. Em princípio, considerando que projeto acaba (é um conceito que não é meu), a esperança é do profissionalismo não ter prazo para acabar e se torne parte da cultura instalada. Parece que este é o objetivo: implementar uma cultura profissional, com o uso permanente de ferramentas de gestão adequadas às necessidades de uma instituição tão grande como o Atlético. A recente entrevista do presidente Sérgio Coelho ao site Superesportes nos permite essa interpretação quando fala em planejamento estratégico para cinco anos. Associado a isso, ouvimos falar de equilíbrio financeiro, de redução de despesas, de foco no core business, que é o futebol… Mensagens de esperança.

Existindo a real busca de profissionalização no Atlético, não se pode ficar nas mãos de iniciativas individuais. As mudanças atuais são fruto da liderança dos 4R’s e do envolvimento de diversas outras pessoas que aparecem pouco, mas que contribuem bastante para o momento do Clube. Porém, as pessoas passam e o Galo permanece. O profissionalismo não pode depender de indivíduos abnegados ou lideranças momentâneas. Precisa ser uma regra, uma lei, cláusula pétrea no estatuto do Atlético. É preciso garantir que o profissionalismo seja permanente no Clube.

Uma das iniciativas em andamento no Atlético é a revisão e modernização do Estatuto. Pouco se sabe do como está sendo realizado ou de quais os caminhos estão sendo adotados. Nada foi publicado para indicar o que se pretende. Entretanto, de todas as ações para mudança do Galo, está é a mais relevante. O estatuto, como uma “constituição” do Clube, que dará a blindagem necessária para que as atuais ações para profissionalização não sejam passageiras. E o que deveríamos esperar nessa modernização do estatuto?

Inicialmente, o estatuto deve preservar a história, o patrimônio e a cultura que gera a identificação e dão sentido a ser atleticano. As cores, os símbolos, o hino e diversos outros elementos que nos fazem entender que somos o Clube Atlético Mineiro. É preciso garantir o que nos dá sentido, para que não sejamos afetados por modismos ou oportunismo.

Além disso, o processo para composição do Conselho Deliberativo precisa ser bastante alterado. A estruturação de chapas minuciosamente selecionadas e a indicação de conselheiros beneméritos sem critérios claros têm levado à formação de um conselho pouco crítico e nada participativo na rotina do Clube, especialmente quanto a controlar as ações da Diretoria Executiva. O papel do Conselheiro, como o nome diz, é dar conselhos e apoiar as decisões da Diretoria; falar o que precisa ser dito e não apenas o que querem que seja dito; buscar esclarecimentos, cobrar. O estatuto precisa garantir a independência do Conselho Deliberativo tanto na escolha de seus membros quanto no exercício de suas funções. A profissionalização precisa começar pelo órgão maior do Clube.

Dando sequência, a profissionalização requer que todos os cargos sejam selecionados com base em competências, remunerados e que exijam de seus ocupantes a dedicação necessária para que realizem suas funções. Do presidente ao cargo mais simples na estrutura do Galo, todos deveriam selecionados considerando suas qualificações para o cargo a ser ocupado e deveriam ser remunerados (salário e benefícios) conforme padrões de mercado. Também deveriam ter clareza quanto a suas funções e objetivos e serem devidamente cobrados para que cumpram com suas obrigações. O estatuto precisa ser modernizado para que, o mais breve possível, possamos ter um presidente com dedicação em tempo integral, que receba para ocupar o cargo. Não dá para ter um Clube profissional enquanto o presidente precisa dividir suas atenções com outras tarefas.

Um ponto essencial a ser incluído no estatuto diz respeito às práticas de gestão. É preciso garantir que determinados procedimentos sejam colocados em pratica regularmente. Princípios básicos de gestão – planejamento, organização e controle – devem ser realizados como uma obrigação definida por “lei”. Planejamento para longo e curto prazos devem ser uma obrigação. Mais que isso, qualquer presidente deveria ter, no mínimo, o planejamento para seu período de mandato. E planejamento requer definição clara de objetivos, metas, planos (ou projetos) de ação que permitam que os objetivos sejam realizados, orçamento com origem e destinação dos recursos financeiros, dentre outros pontos. Atuar de forma planejada, antecipando decisões é, também, uma forma de demonstrar profissionalismo. Monitorar desempenho, controlar resultados e prestar contas regularmente (com balancetes, balanços e relatórios de gestão) são formas de garantir o profissionalismo. A profissionalização no Atlético precisa estar além das pessoas e ser constatada nas práticas de gestão.

A profissionalização no futebol deveria ultrapassar os limites dos clubes e mesmo nós, torcedores, precisamos mudar a forma de avaliar de forma profissional quem trabalha no Atlético. É muito bom ver nossos ídolos no Clube. Mas estão qualificados para ocuparem cargos em uma estrutura profissional? Assim como já tratamos anteriormente quanto ao presidente, se não tivessem a história no Galo, estes ídolos teriam espaço para o mesmo trabalho em outro lugar? Em sentido contrário, também deveremos aprender a avaliar os profissionais independente de suas preferências clubísticas (inclusive os que têm o péssimo histórico de torcer para o rival). Quem deve estar na estrutura do clube é o profissional. O torcedor existe nos estádios, na conversa no bar, na frente da TV. No clube, deve estar o profissional que dá resultados.

Nada do que foi dito aqui é fórmula mágica. Não existem receitas prontas quando se fala em gestão. Não há panaceias. Mais importante do que o “faça isso” ou “faça aquilo” é ter a consciência de que é preciso mudar porque o que tivemos até aqui deixou o Atlético em situação pré-falimentar, endividado, com o futuro comprometido. Mudar é questão de sobrevivência. Mudar culturas ultrapassadas, pessoas sem qualificação, práticas inúteis. Buscar se adaptar a este novo mundo do futebol, onde as conquistas dependem não só da bola na casinha. Que as mudanças criem um novo Atlético, gigante como sempre.