Da tragédia azul ao risco anunciado em preto e branco! - FalaGalo

Da tragédia azul ao risco anunciado em preto e branco!

 

 

Max Pereira
Do Fala Galo
13/12/2019 – 06h
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“QUEDA X PACTO. DA TRAGÉDIA AZUL AO RISCO ANUNCIADO EM PRETO E BRANCO. A CONTA CHEGOU DO LADO DE LÁ E JÁ ESTÁ A CAMINHO DO LADO DE CÁ!”

Em 23 de maio desse ano publiquei aqui nessa coluna o artigo “FUTEBOL BRASILEIRO: UMA REALIDADE EM CONTÍNUA TRANSFORMAÇÃO OU DE COMO O ATLÉTICO, ATÉ AGORA, PERDEU PARA O SISTEMA”, onde analisei a complexa estrutura que rege o futebol brasileiro.

No ensaio “PROTAGONISTA OU UM ETERNO COADJUVANTE: CABE AO ATLETICANO CONDUZIR O CLUBE PARA O SEU LUGAR DE DIREITO”, publicado em 28 de outubro passado, também aqui no Fala Galo, aprofundei a análise sobre esse tema, não só mostrando as raízes da estruturação desse sistema, como também, discorri sobre as razões que levam os clubes brasileiros a se submeter a uma relação desigual e perversa com a empresa detentora dos direitos de transmissão televisiva.

A consolidação da queda do Cruzeiro para a segunda divisão levou os atleticanos a experimentarem explicável e natural alegria. A zoação é normal e faz parte. No entanto, o rebaixamento do rival deve ser encarado pelo Atlético e pelos atleticanos como um alerta e uma lição.

Se de um lado é visível que os cruzeirenses se ressentem mais pela vergonha que sentem e não porque conseguem perceber a real extensão do desastre, de outro, o atleticano apenas se embriaga na felicidade com o infausto de seu maior adversário, sem se dar conta que o seu próprio clube, se algo não for feito em termos de gestão e correção de rota, pode cair no mesmo abismo.

Com tentáculos cada vez mais poderosos, o sistema, em constante ebulição e transformação, vem metamorfoseado o futebol brasileiro e o redefinindo a seu caráter, se utilizando com maestria da incúria dos dirigentes.

Se essa frase pode resumir a tragédia azul, a queda cruzeirense merece ser esmiuçada, não para tripudiar, mas para aprender com os erros.

Assim, passada a euforia, vamos ao que interessa.

O Cruzeiro despenca para a série B com dívida acima dos 600 milhões de reais, quatro condenações na FIFA (perda compulsória de pontos na série B e proibição de contratar reforços para o time principal e para as divisões de base), diversos outros processos na justiça esportiva e na justiça comum, queda gigantesca da cota de televisão (10 vezes menor), terceira maior folha de salários entre os clubes brasileiros, só superada pelas folhas de Flamengo e Palmeiras.

Em seu canal, o jornalista Jorge Nicola, da ESPN, destrincha este quadro horroroso:

 

Mas, além de conhecer o real tamanho da crise do time da Toca, é preciso conhecer as raízes dessa queda brutal e assustadora.

Em seu artigo “Da administração ao campo: o conjunto de problemas que levou o Cruzeiro à Série B do Brasileiro”, que pode ser visualizado clicando aqui, Gabriel Duarte explica como uma conjunção de erros e escolhas equivocadas, tornaram extremamente frágil e vulnerável, um clube antes tido como inexpugnável e “incaível”, como vários de seus torcedores presunçosos alardeavam nas redes sociais provocando os rivais atleticanos.

Uma matéria veiculada no programa Fantástico, da Rede Globo, foi suficiente para fazer desmoronar o castelo azul, que se mostrou feito de areia.

Rodrigo Capelo, o mesmo jornalista da Globo que, ao lado de Gabriela Moreira, assinou a matéria do Fantástico, no artigo “Por antecipar receitas e cair para a Série B, Cruzeiro deverá perder mais de 80% da cota de televisão” traz mais informações sobre a aflitiva situação do time azul, corroborando e alicerçando tudo aquilo que Jorge Nicola informou em seu canal.

É preciso perceber que, além das perdas e consequências imediatas, outras certamente advirão como efeito colateral natural e previsível, acarretando mais prejuízos para o Cruzeiro.

Se do lado de lá, para soerguer o clube, terão um trabalho hercúleo de fazer inveja ao filho meio humano de Zeus, do lado preto e branco os cuidados deverão ser redobrados, vez que, a alegria pela desdita do rival, não pode e nem deve fazer dirigentes e torcedores se descuidarem da real situação do Atlético que, como é sabido e ressabido, é prenhe de problemas e um manancial de crises.

E, nunca é demais repetir, como nos alerta Guilherme Frossard, no artigo que você mesmo poderá ler clicando aqui, que o Atlético, além de fechar outro ano sem título, não pode se escorar na fase desastrosa do rival:

Da mesma forma que o Atlético requer um plano estratégico de gestão e trato do futebol de médio a longo prazo, o clube também precisa, dadas as condições hostis e delicadas com que chega ao fim desta temporada, de um plano de ações emergenciais para que possa enfrentar os desafios que certamente o ano de 2020 lhe imporá.

Muitas novidades se anunciam, como a figura do clube empresa, além das parcerias de clubes médios e pequenos com grupos empresariais transnacionais poderosos, como o caso Red Bull e Bragantino, fatores que certamente reconfigurarão o futebol brasileiro, e o Atlético não pode ser pego de surpresa.

E não é só isso. Recorro novamente a Jorge Nicola para agora mostrar como funciona a camisa de força imposta pela televisão aos clubes brasileiros. Todas aquelas agremiações que assinaram contrato de transmissão televisiva com o Esporte Interativo (leia-se Wagner/TNT) foram punidas pela Globo com a redução dos prêmios a que faziam jus em razão de suas classificações finais nesse Brasileirão recém findo, o que permitiu aos clubes fiéis ao sistema Globo, o Atlético entre eles, ascenderem no ranking das premiações.

Com essa brincadeira, coube ao Atlético, 13° na classificação geral, figurar no 10° lugar no ranking das premiações e auferir R$ 13,7 milhões de reais de prêmio. Se você quiser saber mais detalhes acesse esse link.

Ah! Avaí, Chapecoense, CSA e Cruzeiro, rebaixados, não receberão prêmio algum.

O prognóstico para 2020 não é bom. O país atravessa mais uma de suas crises econômicas e essa parece se agudizar dia após dia. Cada vez mais se vê imóveis colocados à venda, empresas de todos os tipos encerrando suas atividades e os rumores de fuga de capital de investidores estrangeiros para o exterior e de mais um estouro de bolha na economia mundial se avolumando, enquanto os sinais de bonança na economia são parcos, localizados e efêmeros.

Esse cenário, que afasta investidores e parceiros, corrói as receitas de bilheteria, sócio torcedor e aquelas derivadas das vendas de camisas e produtos licenciados, afeta também a renovação dos patrocínios master e as regras das cotas de transmissão televisiva, cada vez mais leoninas.

Por tudo isso, espera-se do comando atleticano criatividade e engenhosidade para driblar as adversidades que 2020 induvidosamente trará para os clubes brasileiros, com reflexos mais pesados para aquelas agremiações conturbadas e cronicamente mal geridas como o Atlético. Daí, por que renovo o alerta sobre a necessidade de se construir um plano estratégico de ações emergenciais.

Muito se fala nos bastidores que, tendo em vista um passivo que se avoluma constantemente e sufoca o clube, cresce dentro do Atlético a ideia de se desfazer dos 49, 9 % restantes do shopping, o que, em razão dos altos e baixos da economia, tende a ser uma solução muito ruim, efêmera, i.e., de braço curto. O Atlético precisa aprender a pensar grande e diversificado.

A tal austeridade, mal vendida e mal conduzida por Sette Câmara, e também criticada e odiada por grande parte da torcida, pode se constituir em uma solução emergencial interessante e sustentável para o clube.

O primeiro desafio é entender que pensar com responsabilidade, e com os pés no chão, não é o mesmo que pensar pequeno. Da mesma forma, é essencial não confundir investimento com despesa, com gasto comezinho. A linha tênue, porém clara e substantiva, entre estes conceitos sempre foi cruzada no Atlético com tremenda frequência, o que tem provocado ao clube prejuízos e reveses aos seus projetos.

O segundo desafio, é construir entre dirigentes e torcida um pacto pelo futuro que passa pelo compromisso dos primeiros por um trabalho austero, porém visionário, e pela compreensão dos segundos de que 2020 não será e nem poderá ser um ano para se esperar grandes conquistas e, sim, para começar, para valer, a construir um futuro de glórias e de conquistas.

Está mais do que provado que não vale tudo para se conquistar qualquer objetivo. A queda pode ser mortal.

Nesse espaço venho defendendo que o Atlético só se tornará um clube campeão e vencedor se, e somente se, for implementada no clube uma governança/gestão moderna, profissional, transparente, democrática, representativa e participativa.

Mas, para que o Galo atinja esse patamar é preciso que haja uma revolução na relação clube/torcida, de modo que, não só o torcedor se sinta efetivamente representado nos fóruns diretivos e consultivos do clube, como também que ele se perceba um agente transformador.

E o pacto proposto vai permitir ao clube caminhar passos seguros em direção desse futuro colimado por todos os atleticanos.

Sem caça às bruxas, como já reiterado inúmeras vezes nessa coluna, trata-se, portanto, de uma proposta que permite ao torcedor contribuir efetiva, racional e diligentemente com a construção desse Atlético mais forte e vingador que nunca, já que o aproxima do clube de forma pró-ativa e participativa.

E, trata-se também de uma proposta que permitirá a atual gestão dialogar, falar, ouvir e se aproximar da torcida, como nunca antes no quartel de Abrantes.

Ou seja, esse exercício que o pacto impõe é o primeiro passo para que o Atlético se renove e se revitalize de vez.

O Atlético que todos os atleticanos querem ver jamais surgirá de qualquer arroubo ou de um passe mágica. A passagem vitoriosa e extraordinária de R10 mostra isso. O astro se foi e, pouco tempo depois, o Atlético mergulhou na mesmice das crises, das dívidas escorchantes e crescentes, das escolhas erradas, das eliminações e derrotas doídas.

É preciso entender que este pacto é um projeto em construção e aprimoramento contínuo, assim como o é da construção de um Atlético campeão e vencedor.

Também é preciso compreender que o pacto proposto, além de não ser um processo simples, certamente enfrentará resistências dentro e fora do clube.

Curto e grosso: esse pacto não implica em passar um cheque em branco.

Por isso, cresce a importância de se buscar sensibilizar o presidente Sette Camara, sua diretoria e conselheiros, em relação à importância e à necessidade imperiosa de se investir em um leque de ações emergenciais para o clube, tendo em vista a grave crise financeira e problemas associados, que demandam cuidados e visão gerencial aguda e diligente. O PRIMEIRO PASSO, PRESIDENTE, É CAMINHAR DE CORAÇÃO ABERTO EM DIREÇÃO À SUA TORCIDA.

AH! Ações emergências não significam negócios temerários, fazer contratações baratas sem quaisquer outros critérios, limpa de elenco, jogar atletas no mercado a torto e a direito, como frequentemente vem acontecendo (Cazares que o diga), e nem, tampouco, aceitar a primeira oferta. Quem deve saber o valor de seu ativo e colocar preço nele é o próprio Atlético.

A montagem do time para 2020 tem tirado o sono de muitos atleticanos. Que o Atlético precisa de suprir as deficiências do elenco e montar um grupo equilibrado parece ser um consenso no seio da torcida. Mas, é preciso parcimônia, tirocínio e cuidados para minimizar as possibilidades sempre presentes de haver erro. O trabalho que está sendo sedimentado na base e a formação da equipe de transição podem e devem ser de vital importância para orientar futuras contratações pontuais.

Muito se diz, e eu mesmo já aludi a isso diversas vezes nesta coluna, que o modelo de gestão atual do Atlético é arcaico, feudal e ultrapassado.  É preciso que o comando atleticano entenda que essas críticas não são um movimento contra pessoas e, sim, um movimento a favor do Atlético que busca soluções e caminhos pacíficos, refutando qualquer tipo de confronto belicoso, inútil e desfocado dos objetivos que têm, no seu centro, a grandeza e a pujança do Atlético.

A ação do torcedor do Atlético, por sua vez, tem que ir muito além do simples sentimento de ser atleticano.

Quero dizer que, em caso similar ao desastre cruzeirense, aquela união da massa em torno do time e do clube que o levou de volta à elite do futebol brasileiro, seria, nos tempos atuais, absolutamente insuficiente para reconduzir o Atlético aos trilhos, vez que as condições objetivas de hoje são bastante diferentes e muito mais hostis que aquelas que se verificaram nos idos de 2005, quando o Galo caiu para a série B.

Não vai bastar gritar o “Eu Acredito”, não vai ser suficiente bater no peito e dizer “eu sou atleticano” e também não vai adiantar muito encher estádios. É PRECISO FAZER MUITO MAIS E ANTES QUE A TRAGÉDIA ACONTEÇA.

É preciso cultivar a esperança do verbo esperançar e não do verbo esperar. Esperançar significar agir para construir o sonho. Esperar significa aguardar que o milagre aconteça e que o objeto do desejo caia no colo de graça.

“Toda a arrogância será castigada”. “Vivi para ver o rival azul cair”, diria eu como torcedor sobre a queda do Cruzeiro.

Porém, como articulista, não posso me esquecer do binômio causa e efeito. Nada acontece por acaso. Um dia a conta pelos erros, e por tudo o que foi feito de heterodoxo durante décadas, iria chegar. Chegou do outro lado da lagoa muito antes do que eu imaginava.  Mas, chegou.

E algo precisa ser feito para que a conta atleticana não chegue ou para que, se não for impossível impedi-la de chegar, que, pelo menos, encontre um Atlético estruturado para sobreviver com dignidade e equilíbrio aos seus efeitos que, não tenham dúvidas, seriam avassaladores.

 

A CONTA CHEGOU DO LADO DE LÁ E JÁ ESTÁ A CAMINHO DO LADO DE CÁ.

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