Da agonia ao êxtase. Das incertezas ao caos. Das promessas às frustrações. Rebaixamento a vista? - FalaGalo

Da agonia ao êxtase. Das incertezas ao caos. Das promessas às frustrações. Rebaixamento a vista?

Imagem: Fred Ribeiro (GE)

 

 

Por: Max Pereira 
28/04/2020 – 13h23
Clique e siga nosso Instagram
Clique e siga nosso Twitter
Clique e siga nosso YouTube

Clique e siga nosso Facebook

PRÓLOGO:

Não vou contar a história de vida de 112 anos do Atlético, mas o título deste artigo resume bem a trajetória atribulada e cheia de altos e baixos de um gigante que nasceu de um sonho de um grupo de garotos que se reuniram no velho coreto do Parque Municipal, no já longínquo 25 de março de 1908, há, portanto, 112 anos.

No artigo “A história do Atlético pode ser diferente! Um Atlético vencedor e campeão é possível”, escrevi que acredito piamente que a história do Galo pode ser bem diferente, sem tanto sofrimento, sem tantas crises, sem tantas trovoadas.

Mas, deixei claro, também, que a mudança não vai acontecer da noite para o dia e, tampouco, em um passe de mágica. Vai ser um processo longo, doloroso, de idas e vindas, de altos e baixos.

Com o advento do novo coronavírus, a construção desse novo Atlético, forte e campeão, vai depender, a partir de agora, de como o clube vai se planejar e agir diante das demandas que a grave crise já impõe, das quedas sucessivas de receita e das dívidas vencidas e por vencer que certamente se acumularão e poderão, se tudo isso for mal administrado, colapsar o clube.

E não custa repetir, mesmo porque mais atual impossível, que o “grande desafio do Galo mais famoso do mundo será conciliar a urgência com que a sua imensa e explosiva torcida exige que as coisas deem certo e os bons resultados apareçam, com a responsabilidade de planejar, construir, experimentar com tirocínio o novo e o ousado e transformar, conceitual, filosófica e metodologicamente, a gestão do clube e do futebol, única forma de romper com esse carma”.

O Galo nasceu gigante, ainda que não o soubessem disso os seus fundadores. E, conforme já escrevi “o desafio do gigante é continuar sendo gigante”.

E neste artigo busquei falar do papel fundamental da massa na construção de um Atlético campeão e vencedor, ressaltando que cobrar, criticar, protestar, reivindicar, se manifestar é, além de um direito inalienável de cada um de nós, um salutar exercício de cidadania e, por excelência, um exercício político fundamental.

Vale a pena lembrar que a política é a arma ideal por natureza para a resolução de conflitos, divergências e diferenças. Política vem do grego “polis” que significa povo e, portanto, comporta todas as contradições e diferenças inerentes a este.
E no futebol não é e nem poderia ser diferente.

Recuperar esses conceitos torna-se essencial nesse momento em razão dos problemas do clube que, do mesmo modo que uma fratura exposta, já se escancaram sem disfarce algum e deixam à mostra as debilidades da instituição, a tal ponto que uma intervenção a qualquer momento não pode ser descartada por nenhum atleticano minimamente consciente da gravidade da situação.

Nesse ensaio, vou me ater a duas questões que, dentre outras, serão requerendo reflexão e ação.

 

Cazares:

Um dos problemas recorrentes, e cada vez mais danosos ao Atlético, nos dias atuais é a pérfida e covarde exploração do ódio e da intolerância dirigidos a alguns jogadores em especial por parte significativa da torcida do Atlético. Cazares é hoje a maior vítima dessa violência.

Lembro que naqueles dias em que o craque equatoriano Cazares chegou às terras atleticanas escrevi em outro espaço o seguinte:e:

“Acho importantes as críticas, quando construtivas. Cazares parece ser diferenciado, e o Galo venceu a batalha contra o enfurecido Banfield. O craque equatoriano é um jogador de muito potencial. Está treinando muito bem e doido para jogar. Aliás, ele, Robinho e Luan estão mostrando muito entrosamento nos treinos e fora do campo. O ambiente é ótimo. A disputa por posições é sadia e honesta”.

Essas observações bem que traduzem com perfeição o Atlético dos primeiros momentos da gestão Daniel Nepomuceno, quando o dirigente, mesmo aprendendo, ousava e mostrava a si mesmo e a futuros dirigentes do clube que valia a pena sair da zona de conforto e que o Galo só tinha a ganhar com isso.

Além de Cazares, manteve Pratto, apesar das investidas, e trouxe Clayton, na época joia do Figueirense, vencendo uma grande concorrência, inclusive a ingerência do rival que meteu a sua colher de pau apenas para atrapalhar e encarecer a transação. Erazo e Hyuri vieram sem delongas. Urso chegou na calada da noite e em breve tornou-se titular e caiu no agrado da massa.

O tempo passou, algumas contratações frustraram a torcida, a gestão do clube capengou, as dívidas cresceram, técnicos chegaram e saíram e, não obstante, ter desfilado o seu talento e deixado claro para os amantes do esporte bretão que é um craque diferenciado, graças à sua maneira de ser, onde mistura ingenuidade, simplicidade e absoluta falta de discrição com a sua vida particular, Cazares colecionou ódio e intolerância em parcela significativa da massa.

Nunca foi suficiente para muitos torcedores o fato do craque ter se tornado o maior artilheiro estrangeiro do clube, superando o bom Lucas Pratto e, tampouco, de nada valeu para os escravos do ódio, o fato de que Cazares é desde que aqui chegou o rei das assistências do futebol brasileiro, número que seria incrivelmente mais significativo e extraordinário se os atacantes atleticanos, colocados por ele na cara do gol, não tivessem desperdiçado tantas oportunidades.

A companheira do Fala Galo, Cris Bastos, postou, com conhecimento de causa, o seguinte em seu Twitter: “Ninguém é 100% ruim ou 100% bom. Todo mundo erra e acerta. E esse cara tem seus erros sempre explorados. @juanicazares Precisa também ser elogiado pq é do bem demais.“

Cazares é matéria prima perfeita para este tipo de “notícia” porque marcou sua passagem pelo Atlético com um comportamento libertário, algumas manifestações e outras incursões nas redes sociais extremamente pueris, às vezes de uma ingenuidade absurda, o que evidencia falta de orientação e estrutura.

No momento que surgem notícias sobre as agruras financeiras do Galo, com dívidas e ações trabalhistas pipocando, atrasos no pagamento dos salários, redução de receitas e cortes de patrocínios, sai, de um lado, a informação de que o clube recebeu uma proposta por Rabelo. Será coincidência? Ou seria um recado? Jogada de empresário?

E de outro, os ataques a Cazares vão se intensificando. Surge agora a notícia de que o equatoriano teria manifestado interesse e simpatia em jogar no Corinthians. E, por incrível que possa parecer, quem é habitué em divulgar e explorar esse tipo de “bomba”, assim como outras “notícias” afins, são os canais atleticanos. O Galo não precisa de inimigos.

A entrevista com Cazares, realizada por um veículo equatoriano, parece ter a clara intenção de criar uma notícia, gerar audiência e polêmica e, talvez, enviar um recado (Do agente?) para Corinthians, Flamengo e, porque não, para qualquer outro clube. Cazares que é extremamente simplório, caiu na armadilha. O Atlético enrola a renovação do craque e favorece isso.

Quem fala muito dá bom dia a cavalo, já diziam os antigos. Cazares, apesar de mostrar receio com uma possível repercussão negativa de sua entrevista no seio da massa, ainda assim não se precaveu. Mal orientado e desprotegido pelo clube que não cumpre minimamente a sua função, mais uma vez deu munição aos inimigos.

Cazares deve ser blindado e orientado, porque é alvo fácil das más línguas e dos caçadores de cliques e de audiência. Também é fundamental desestimular essas listas de dispensa ou de saída, porque isso, além de tumultuar o ambiente, desvaloriza os atletas citados e traz prejuízos ao clube, cujo elenco perde valor de mercado.

Ah! Cuidado com essas “notícias”. Mattos, em recente Live do Canal do Nicola, não cravou ora nenhuma que o equatoriano está fincando posição contrária à renovação do seu contrato. Como sempre foi evasivo e deixou todas as possibilidades em aberto.

Cazares precisa de paz e respeito. Já foi exposto a muito ódio e muita intolerância. Se alguém dentro do clube quer ele fora do Atlético que venha a público e se explique. Ou melhor, que saia do clube. Esse papo já encheu.

Como corolário desses ataques e dessa insidiosa exploração por parte de segmentos da mídia convencional e das redes sociais, está cada vez mais frequente a edição de lives que apenas alimentam fakes e especulações prejudiciais ao Atlético, vez que colocam os jogadores citados em uma vitrine indigesta, além de, recorrentemente, demonizar e desvalorizar Cazares. O Galo, nesse momento de crise, precisa de paz e ajuda proficiente.

 

Dívidas, FIFA e o fantasma da série B

Parcimônia e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. Nesse momento em que os credores irão bombardear o clube, que as dívidas estão explodindo e os prazos para a sua quitação vão se exaurindo, as receitas se reduzindo, impõe-se a Sette Câmara e a seus pares seu maior desafio.

Um alerta: as soluções de afogadilho, do tipo vender o almoço para pagar o jantar, normalmente geram prejuízos irrecuperáveis a médio e longo prazos. O Atlético em sua história praticou por vezes a política do cobertor curto e isso já se mostrou extremamente danoso para o clube.

Mais do que nunca a criatividade e a diligência se fazem fundamentais à condução dos interesses do clube. Falar menos, articular mais, são as armas do bom negociador. Diferente disso é tentar apagar incêndio com gasolina. E todo o cuidado com as soluções açodadas.

As recentes notícias de Atlético e do rival mostram algumas semelhanças entre os clubes. Cada qual, proporcionalmente às más conduções a que foram submetidos, ano após ano, e de acordo com as suas situações particulares, está se afundando em dívidas e em ações trabalhistas e redução de receitas.

Se Atlético e o rival se assemelham nas dificuldades e na falta de perspectivas seguras, suas situações particulares ainda têm diferenças marcantes a desfavor do time azul, o que não autoriza o comando atleticano desprezar os riscos reais de uma tragédia de proporções incalculáveis.

Neste último domingo explodiu a notícia de que, segundo o presidente Sette Câmara, o Atlético não tem dinheiro suficiente para pagar dívida por Maicosuel na FIFA e admite risco de perder pontos no Brasileiro e até o rebaixamento. Inicio do fim? Declaração imprudente que pode afastar potenciais parceiros, fundamentais nesse momento.

Essa notícia é mais do que preocupante. Seria um pedido de socorro? Mais cedo ou mais tarde a desastrada política do cobertor curto e a incúria que tem marcado às gestões no Atlético ao longo dos tempos, levariam o clube a esta situação extremamente delicada.

Esse momento, por suas características ímpares, requer dos dirigentes criatividade, credibilidade, ousadia e parcimônia. Ainda que se reconheça que a crise, sem precedentes nesse mundo globalizado, traz problemas financeiros muito graves para qualquer instituição, exige-se de Sette Câmara a sobriedade que ele está demonstrando não ter.

Pode parecer ingênuo, mas acredito que cabe aos parceiros, que só falam em estádio, prometem reforços e que claramente interferiram nos destinos do clube e nas decisões da diretoria nessa temporada, exige-se, dentro de suas possibilidades, comprometimento em relação à saúde financeira do clube e evitar que o mesmo seja exposto dessa maneira.

Esses parceiros que projetaram um Atlético forte, se imiscuíram nas coisas do clube, mudando a face de suas contratações e se envolveram umbilicalmente na construção do estádio, têm, por isso obrigação de somar esforços para que o clube não mergulhe de vez nesse abismo e na vergonha. Ou será que não houve ingerência alguma?

Se o Atlético mergulhar de vez nesse buraco e for para a série B, todo o projeto, inclusive, o estádio e o que foi gasto até agora com Sampaoli e os reforços contratados nesta temporada, será jogado irremediavelmente no lixo. E isso não deve interessar aos parceiros. Ou não?

Essa desastrosa declaração do presidente já está produzindo frutos podres para o clube. Em seu prestigiado canal, o jornalista Jorge Nicola já “vende” um Atlético quebrado, falido, e já anuncia que este e aquele jogador já desperta o interesses deste ou daquele clube, certamente já antevendo a possibilidade de tirar o atleta do Atlético sem gastar muito, já que o Galo estaria com o pires na mão.

Por uma questão de justiça, não se pode responsabilizar o presidente sem considerar a história de dívidas e de desastres administrativos do clube, sem pontuar o caquético fim de mandato de Nepomuceno e o significado da era Alexandre Kalil com todas as suas implicações positivas e negativas. Diferente disso é injusto, leviano e irresponsável.

Se Sette Câmara realmente se mostrar incompetente, como ele próprio está indicando, para resolver esse problema, que a sua gestão claramente contribuiu para aprofundar, não só o seu projeto de reeleição vai virar fumaça, como será caso de intervenção no clube. Resta saber quem teria coragem de assumir nesse caos.

Por tudo isso, não há como não qualificar a sua gestão como temerária e, como dito acima, a intervenção passa a ser uma possibilidade que todo atleticano sério e responsável deve ter como possibilidade factível e urgentemente necessária, dependendo do que tiver acontecido nessa última segunda-feira, prazo fatal estipulado pela FIFA para o clube quitar está dívida em particular. É preciso lembrar que esta não é a única dívida que está sendo discutida na International Board.

 

Epílogo:

Embora tenha nascido gigante, é verdade que o Atlético passou por períodos em que se apequenou, foi ridicularizado e fez a sua torcida sofrer, a ponto de subliminar a tristeza e ela própria criar “verdades” para se iludir, como títulos só são importantes para o time do outro lado da lagoa.

Dirigentes argentinos chegaram a dizer que o Atlético não era um clube sério.

O Atlético precisa cuidar de sua imagem sob o risco de não fazer mais bons contratos de patrocínio e nem bons negócios, seja vendendo, seja contratando jogadores. Nenhum investidor de bom senso concordaria em unir a sua marca a uma marca desvalorizada e que não inspire respeito e credibilidade.

Um clube onde se entra funcionário e sai torcedor, como atestou o técnico Cuca não pode continuar a ser tão maltratado assim.

E, nesse momento em especial, mais do que nunca o clube precisa de uma revolução. Não há mais espaço para gestões temerárias.

O maior desafio do gigante é continuar gigante. Intervenção à vista?

PS: Notícia de última hora: informa o Fala Galo que os parceiros do Atlético complementarão os recursos do clube e, assim, o Atlético irá quitar integralmente e, dentro do prazo estabelecido pela FIFA, a dívida relativa à contratação do meia atacante Maicosuel.

Por que, então, Sette Câmara deu essa declaração tão desastrada, comprometendo a imagem do clube há tão arranhada ao longo dos anos?

Qual seria o verdadeiro motivo para ir à imprensa de firma tão inapropriada para um dirigente comprometido com a boa governança?

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *