Admirável mundo novo… Professor Denilson Rocha

Admirável mundo novo…

Em todos os segmentos da vida tudo muda, tudo evolui. A gente até resiste a algumas dessas mudanças, aceita mais facilmente outras, mas no final, as coisas não são mais como antigamente – mesmo que a gente adore falar do “nosso tempo”.
No futebol não seria diferente. Do esporte amador ao negócio bilionário, há muita diferença e no “país do futebol” não vai dar para sobreviver só na base do “jeitinho”, da “ginga” e da “habilidade nata”.

Dentro de campo, o boleiro deu lugar ao atleta. O que era apenas habilidade passou a exigir cuidados com o físico. Não parou por aí. Vieram as exigências táticas e o jogador passou a ser exigido quanto à inteligência e à leitura do jogo. E mais, o profissional do futebol é agora exigido inclusive fora de campo, como influenciador, celebridade e até mesmo como uma marca. As exigências foram se acumulando: habilidade, físico, tática e marketing, muitos habilidosos não entenderam essas mudanças e ficaram pelo caminho.

Na beira do campo as coisas também mudaram. Os técnicos “boleirões” também ficaram pra trás. A estatística, a medicina desportiva e o tatiquês marcaram presença. Não eliminaram a gestão de pessoas, de grupo, “de vestiário”. Daí, enquanto os novos professores ainda se perdem por não gerir pessoas, os mais experientes vão mantendo seu espaço – mas é simples observar como o futebol brasileiro ficou defasado em relação aos europeus e inclusive a vários vizinhos sul-americanos. Nesse quesito, enquanto europeus e demais sul-americanos valorizam o estudo e a dedicação – há anos exigem a formação dos treinadores –, aqui continuamos ironizando a busca do conhecimento. Enquanto dezenas de técnicos (muitos consagrados) estavam em uma sala de aula para troca de experiências (esse é o principal motivo de um curso presencial), Renato Gaúcho valorizava sua praia e seus apoiadores questionavam palestra com Micale, como se o curso se resumisse a isso.

A arquibancada também mudou, ou melhor, nem há mais arquibancada. Geral, então… Nem pensar!
É inquestionável que o clima era outro. Comecei a frequentar estádios nos anos 70 e eram comuns cantos como “empurra as bic…”, havia o tropeiro, a cerveja, a festa. Também eram comuns as confusões para comprar ingresso (só na bilheteria), o xixi nos copos (que depois seriam devidamente arremessados) e uma superlotação que às vezes até nos impedia de ver o jogo.
Isso acabou e quer se aceite ou não, não vai voltar.
O futebol virou espetáculo, um entretenimento caro. As arenas oferecem conforto, organização, segurança… Mas tiraram a magia, o clima do jogo. Coisas da modernidade.

Por fim, a gestão dos clubes precisa ser profissionalizada. Não estamos falando da constituição legal, tanto faz se tem donos, sociedade anônima, sociedade desportiva ou as atuais associações sem finalidade econômica. O “clube/empresa” é a consequência de uma gestão profissional, não causa. Primeiro, é necessário ser profissional. Depois, ser um clube empresa. Ser empresa sem ser profissional fará as portas se fecharem rapidamente.
O que importa é que o espaço para os aventureiros, amadores, picaretas e seres que mal sabem falar o português vai ficando cada vez mais reduzido. Podem ser até bem-intencionados (e isso existe), mas exige dedicação, tempo, esforço… não se pode ser dirigente só nas horas de folga. Planejamento, organização, participação, transparência, compliance e outros termos do mundo dos negócios serão rotina. E exigem profissionais da área, remunerados e 100% dedicados ao clube.
Por muito tempo o Atlhetico Paranaense foi visto como exemplo de clube bem gerido. Agora, os resultados começam a aparecer em campo com a conquista da Copa Sulamericana e a frequência com que estão na Copa Libertadores. Isso não é por acaso.
Outras boas iniciativas são as de Bahia e Paysandu, que vêm adotando práticas modernas, seja na revisão do estatuto, na relação com o torcedor, ou na gestão administrativo-financeira. E o que mais chama a atenção: o Grêmio conseguiu unir resultados em campo com a melhor gestão esportiva no Brasil. Contas em ordem (terminará 2019 sem dívidas bancárias), equilíbrio financeiro (o orçamento 2020 não precisará da venda de atletas), transparência (reuniões para prestação de contas a cada 3 meses), proximidade com o torcedor (sócio-torcedor participativo e que gerará 74 milhões anualmente), categorias de base que revelam e geram negócios e um time profissional vencedor. Foram citados somente clubes de fora do “eixo” para ficar claro que há muita coisa boa acontecendo além do Rio e de São Paulo.

O Galo vem buscando se adequar aos novos tempos. Aos poucos vai colocando a casa em ordem, especialmente com o pagamento de dívidas antigas e recuperação da credibilidade no mercado. A TV Galo melhorou bastante. As categorias de base passam por mudanças e os resultados ainda precisarão de tempo para serem melhor observados. Não se faz mais loucuras por medalhões no time profissional (mas ainda acontecem equívocos em contratações que nada trazem de resultado). Falta muito ainda e mais que qualquer outra coisa, é necessário modernizar o estatuto e adotar práticas para maior transparência. Ao menos temos visto mudanças enquanto outros ainda continuam acreditando que dá para ficar no passado.

A diretoria do Atlético precisa olhar a sua volta, aprender e copiar as boas práticas e ter a coragem para implementá-las. Pouco adiantará o melhor centro de treinamento do Brasil e um estádio moderno se as práticas de gestão forem ultrapassadas.
É preciso mudar para um futuro melhor.

Por: Professor Denilson Rocha (@denilsonrocha)

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