Admirável mundo novo do futebol: entre o feio e o bonito, uma encruzilhada no caminho do Atlético e do futebol brasileiro

Foto: Reprodução Twitter

 

Por Max Pereira (@pretono46871088 @MaxGuaramax2012)

Tal e qual o livro “Admirável Mundo Novo” (Brave New World na versão original em língua inglesa), romance escrito por Aldous Huxley e publicado em 1932, cuja história se passa em Londres no ano 2540 (632 DF – “Depois de Ford” – no livro), antecipa desenvolvimentos em tecnologia reprodutiva, hipnopedia, manipulação psicológica e condicionamento clássico, que se combinam para mudar profundamente a sociedade, muitos comentaristas e pensadores vêm antevendo uma nova e não muito auspiciosa realidade para o futebol no mundo e no Brasil em particular.

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Uma questão tormentosa que vem desafiando a argúcia de muitos aficcionados do futebol. Dos pontos de vista tático e técnico está havendo uma revolução clara, gradativa e, a meu ver, bastante ruim. Este fenômeno já vem acontecendo há anos e, em razão disso, o futebol brasileiro que antes era lúdico e técnico por excelência, é hoje basicamente físico, tático e mental, reproduzindo acriticamente conceitos, valores e fórmulas do futebol europeu e engessando o que de mais criativo e revolucionário o futebol brasileiro possui e que já encantou, fascinou e assustou o mundo.

Ironicamente, o futebol europeu que hoje serve de modelo para o aculturado e desfigurado futebol do terceiro mundo, se metamorfoseou e buscou novos caminhos para enfrentar e derrotar o talento e magia dos jogadores brasileiros. Deslumbrados e se sentindo impotentes diante do futebol brasileiro que conquistou o mundo em 58, em 62 e também em 70 e, em especial, fascinados com as diabruras de Mané e a genialidade ímpar de Pelé, os europeus curiosamente buscavam desenvolver esquemas táticos de muita marcação e também com a exploração de seu biotipo, do jogo aéreo e da maximização do sprint físico, com o único objetivo de superar o futebol brasileiro.

O Brasil, traumatizado pelo Maracanazo de 1950, regurgitou em 58 e foi aos céus em 62 ao descobrir que o futebol arte brasileiro, cheio de ginga, prenhe de talento e de talentos, lúdico ao extremo, alegre e genial nos pés daqueles dois deuses nascidos brasileiros e gente do povo, Pelé e Garrincha, podia fazer o planeta curvar-se aos seus pés.

O futebol não havia se tornado a grande paixão nacional por acaso. É que o esporte bretão conseguia reunir vários e determinados fatores que levavam massas de torcedores ao fascínio, ao prazer incontido, ao exercício e ao experimento da paixão.

Catártico, o futebol desopilava fígados e vingava o torcedor de seus algozes do dia a dia: o desafeto que a vida trazia, o mau patrão, o chefe insuportável, a sogra pela saco, a companheira ou o companheiro geratriz de mágoas acumuladas, os maus políticos, os maus governantes, etc., etc., etc… O futebol conseguia, de certa maneira e até com certa eficiência, resgatar as frustrações acumuladas pelos fracassos, pelas derrotas da vida, pelas decepções, pelos insucessos do dia a dia.

Os estádios de futebol tornaram-se o espaço naturalmente mais democrático do país, onde o pobre e o rico, o branco, o negro e o índio, o analfabeto e o doutor, o crente e o ateu, o materialista e o espiritualista, o religioso e o agnóstico, o trabalhador e o capitalista, o patrão e o empregado, o chefe e o subordinado, o homem e a mulher, a criança e o adulto, o jovem e o velho e o hétero e o homossexual se misturavam e se igualavam na paixão, na alegria, na tristeza, na agonia e no êxtase, na frustração ou na redenção, na vitória e na derrota, no grito do gol ou no gozo de uma jogada genial.

As arquibancadas e as gerais eram lugares impares, um oásis no deserto da vida selvagem. O futebol visto por muitos com preconceito, sempre foi manancial riquíssimo para teses de sociologia e psicologia. O futebol tornou-se o circo moderno e, como tal, passou a ser romanceado e tratado, o que não impediu, entretanto, que a relação clube/torcedor, a exemplo do próprio futebol, também transformasse profundamente com o passar dos tempos.

Se as copas de 58 e de 62 vingaram o futebol brasileiro da tragédia de 50, o fiasco de 66 na Inglaterra deixou marcas que, a meu ver, estão na raiz das transformações que hoje chegaram a um patamar perigoso e, talvez, sem volta. De lá para cá, muitas perguntas, muitas dúvidas e também muitas respostas que geram continuamente outras tantas perguntas e respostas que se arrastam até hoje. E muitas teorias foram construídas.

O Brasil comemorou o tri em 70, mas, a partir daí, os conceitos, a filosofia e a forma de se ver e de se jogar futebol no Brasil nunca mais foram os mesmos vez que, passaram a ser introduzidos gradativamente no futebol brasileiro, além de técnicas estrangeiras de preparação física, principalmente conceitos de treinamentos e de padrões táticos que corromperam valores até então pétreos no esporte por aqui.

As teorias e métodos dos preparadores físicos da seleção de 70 merecem acurada reflexão e, não só porque mudaram para sempre os paradigmas do futebol brasileiro, como também porque o jogo feio resultante de suas práticas, potencializado pelas agruras financeiras e pela visão mercantilista do futebol cada vez mais presente, afetou, com o passar dos anos, a relação povo/seleção. E, com a evolução até certo ponto inevitável e natural, do mundo e do esporte bretão em particular, também a relação povo/futebol mudou para sempre.

Ao trazer e defender métodos estrangeiros, notadamente de preparação física e de tática do futebol europeu, para o Brasil, eles levaram o futebol brasileiro a trilhar um caminho tortuoso, renegando e sufocando o que ele tinha de melhor: a criatividade, a inventiva, a imprevisibilidade, o talento e a alegria. É por isso que muita gente se pergunta como seria o desempenho de Pelé e de Garrincha no futebol de hoje.

Na terra do complexo de vira-latas, e também do futebol, a teoria de que nós é que deveríamos copiar conceitos, métodos e filosofias alienígenas ganhou espaço e cada vez mais adeptos.

Nem tanto a terra, nem tanto ao mar, reconheço. Nada contra copiar e se espelhar no que é bom e profícuo. Nada contra conhecer o que é feito em outros países e buscar trazer e adaptar o que é bom, pode e deve ser agregado, mas, sempre com o cuidado de não corromper a nossa essência. O erro foi copiar sem juízo de valor. O que resta óbvio é que o futebol brasileiro foi se desfigurando, demarcado por sistemas táticos engessadores. E a conquista do tri em 70 fez muita gente acreditar que o futebol brasileiro havia retomado o caminho certo de vez. Ledo engano. A batalha entre o feio e o bonito estava só começando, mas já dava para antever quem seria o vencedor.

A técnica foi perdendo terreno e a criatividade, a inventiva e o improviso, antes tão naturais ao jogador brasileiro, tem sido, ao longo dos anos, sufocados por esquemas táticos cada vez mais rígidos e pela idiossincrasia dos treinadores que, em nome da manutenção de um poder autoritário, nada permitem aos seus comandados, além daquilo que eles determinam. Nem mesmo o insucesso em várias copas do mundo a partir de 1974 trouxe a percepção de que estes conceitos precisavam ser repensados. O Brasil ainda ganharia mais duas copas do mundo, o que não foi suficiente para resgatar a confiança e a alegria do brasileiro com o escrete canarinho. E, nem tampouco, a magia do futebol tupiniquim.

Ao contrário de desenvolver novos caminhos para o nosso futebol, explorando o talento e a ginga naturais do brasileiro, os nossos técnicos, treinadores, teóricos e dirigentes buscaram, pura e simplesmente, copiar e impor outros modelos sem o cuidado de respeitar a nossa cultura, os nossos valores e, principalmente, as características inatas dos nossos jogadores. E o futebol brasileiro aos poucos foi perdendo a sua identidade.

Seja pela necessidade de mostrar quem manda, seja pelo medo de perder o emprego, os treinadores de modo geral acabaram contribuindo para corromper de vez o que de bonito havia do futebol brasileiro. Paralelamente, outros fenômenos se conjugaram para que o futebol no Brasil se tornasse o que é hoje.

Com a especulação imobiliária, o crescimento e a expansão dos grandes centros urbanos o futebol de várzea murchou, os campos de terra e os terrenos baldios desmatados foram desaparecendo. As chamadas “peladas” de antigamente, tão alegres e renhidamente disputadas, eram um celeiro de craques que, no chão batido, sem amarras e com total liberdade, podiam criar à vontade, imaginar e materializar jogadas e dribles, brincar e desfilar sua magia. Com o surgimento das escolinhas e o precoce enquadramento tático de garotos em tenra idade nas categorias de base dos nossos clubes, a criatividade, a inventiva e o talento passaram para o último plano na escala de prioridades.

A globalização e o fascínio europeu, aliados à perspectiva de faturar em euro ou em dólar, lançaram a pá de cal derradeira na sepultura do futebol brasileiro. E não é só isso, os avanços tecnológicos, a Internet, o leque cada vez mais multifacetado de opções de lazer, de caminhos e oportunidades na vida, fizeram o futebol deixar para muitos de ser aquela fonte maior de prazer e para outros tantos a única forma de tirar o pé da lama. O Funk e o Rap hoje atraem e fascinam o jovem de periferia tanto quanto ou, em alguns casos, até mais que o futebol.

A tudo isso se somam a voracidade e as ações mercantilistas, muitas vezes excessivamente despudoradas, dos agentes que em muito têm contribuído para o estado quase falimentar e para o declínio técnico, moral e financeiro da grande maioria dos clubes brasileiros, quase sempre muito mal administrados por dirigentes ineptos. E é óbvio que as recorrentes crises econômicas que sacodem o país desde sempre também são fatores decisivos no debacle do futebol brasileiro.

Por sua vez, a maioria absoluta dos jovens que ainda se aventuram no sonho de uma carreira exitosa no futebol é inculta, de origem humilde, simplória e arrimo de família.

Desde cedo se tornam a esperança de suas famílias de terem uma vida diferente e sem as agruras de sempre. Tanto eles quanto os familiares se tornam presas fáceis de agentes, empresários e dirigentes inescrupulosos. Muitos, despreparados para o sucesso ou para enfrentar a vida no exterior, em culturas diferentes, sucumbem não suportando a imensa pressão a que são submetidos ou se deixam levar pelas seduções da vida, pelas fraquezas e pelos amigos de sua fama e de seu dinheiro.

Ainda garotos se submetem à vontade imperial de seus agentes que, por meio de contratos assinados pelos pais ou pelos responsáveis legais, assumem o controle total de suas carreiras. Normalmente obedecem cegamente aos seus agentes e, por isso, fazem todo o tipo de coisas, inclusive descumprir contratos firmados e determinações de seus próprios clubes. “Gigolados” pela própria família, pelos parentes, pelos amigos, pelas namoradas e seus familiares, pelos vizinhos, pelos agentes e pelos dirigentes, os jogadores ainda são cobrados, quase sempre com crueldade e muita injustiça, por torcedores apaixonados e irracionais.

Portanto, muito se fala da baixa qualidade do futebol que vem sendo jogado, inclusive por times cujos elencos são tidos e havidos como estelares. Como já exposto, vários são os fatores que justificam o futebol ruim e pouco vistoso que vêm sendo mostrado nos campos brasileiros. Cada vez mais físico e tático, o futebol vem exigindo dos atletas muito esforço mental.

Somam-se a isso um calendário perverso e o fato de o Brasil ser um país de dimensões continentais, o que obriga os times a se submeterem a viagens longas, extremamente cansativas e de difícil logística. Esse quadro se agrava com a intercalação de jogos pela Copa do Brasil, Sul-americana, Libertadores, Brasileirão, campeonatos regionais e este ano Copa América e Jogos Olímpicos. O desgaste, em consequência disso tudo é imenso. A técnica vem se tornando artigo de luxo e, jogadores diferenciados e acima da média, seres em extinção.

Um futebol com essas características dificilmente será belo, plástico, gostoso de se ver. E não podemos nos esquecer da imprensa que muitas vezes mais desinforma do que informa.

Mesmo feio, o futebol continua fascinante. A possibilidade de que o pequeno possa surpreender e vencer o grande, de que o imponderável se materialize e de que o craque possa tornar possível o impossível, fazem do futebol um esporte diferente e arrebatador.

O futebol brasileiro vive agora a batalha final entre o lúdico, o técnico, o plástico e o belo de um lado e o físico, o tático, o mental, o prático e o feio, de outro. Até então, o feio vem dando de goleada no belo. Em outros tempos falava-se muito de futebol arte versus futebol competição, futebol força. O segundo destronou o primeiro.

Mas, diriam muitos e, com alguma razão, que é absolutamente natural que, com o passar do tempo, o futebol sofra modificações dentro e fora das quatro linhas. Se estas mudanças irão agradar ou não, vai depender do gosto pessoal de cada um. Mas, se essas transformações serão ou não a redenção do esporte e o resgate do futebol brasileiro raiz, são outros quinhentos. E por que é assim?

Primeiro, porque o futebol se tornou um negócio multibilionário e, como tal, passou a impor sobre atletas e treinadores obrigações, deveres e comportamentos que, não só geraram novas concepções táticas e passaram a exigir dos jogadores desempenhos físico-atléticos diferenciados, como também determinaram novas concepções e métodos de gestão, introduziram novos agentes neste universo e estabeleceram relações de interdependência entre estes e os clubes, antes inexistentes. Segundo, porque, jogadores e treinadores tiveram que se reinventar para acompanhar e sobreviver no mercado.

E não é só o futebol que mudou. O mundo mudou. E o esporte bretão, antes naturalmente lúdico e catártico, hoje cumpre função social e política marcantemente diferentes. É induvidoso, portanto, que este cenário, profundamente complexo e hostil para quem milita no futebol, e especialmente perverso para a grande maioria dos atletas, demanda uma profunda reflexão e medidas radicais que renovem conceitos e métodos que resgatem o lúdico, a criatividade, o talento e também a boa governança e a credibilidade do futebol brasileiro.

O Atlético, particularmente, ao trazer R10, em um insight genial de Cuca, incorporado por Alexandre Kalil, acreditou na magia perdida pelo futebol brasileiro e concedeu a si (clube) e a sua torcida a fé do sucesso. E aí, nasceu a geração do “EU ACREDITO”. R10 se foi e sem ele a magia se desfez e o Atlético voltou à mesmice de sempre. É que a falta de criatividade e de talentos dentro das quatro linhas, historicamente também tem se verificado fora delas.

Pode parecer paradoxal, mas, o caminho do Atlético e do futebol brasileiro não é outro, senão o de continuar se reinventando. E se reinventar não significa apenas romper fora de campo com este sistema de governança mofado e ultrapassado, como o clube indica que vem fazendo.  É preciso que, dentro de campo, se resgate a alegria, a criatividade, o lúdico e a magia.

Assim, não é possível não se lembrar de Nelson Rodrigues, um dos mais importantes escritores e dramaturgos brasileiros. O também cronista esportivo e apaixonado pelo esporte bretão, responsável por criar a expressão “pátria de chuteiras”, que deu o nome a um de seus mais populares e marcantes best-sellers, cunhava frases que ficaram célebres e que encerram lições que os homens que conduzem o futebol de hoje deveriam aprender. Relembro algumas delas:

“Em futebol, como em tudo o mais, o craque é decisivo. Evidente que os onze são indispensáveis. A ninguém ocorria que o supercraque não precisa jogar bem. O perna de pau é que tem de se matar em campo. De mais a mais, o gênio pode ter as suas nostalgias da burrice. No dia em que desaparecerem os Pelés, os Garrinchas, as estrelas, enfim, será a morte do futebol brasileiro. E, além disso, no dia em que desaparecerem as dessemelhanças individuais, será a morte do próprio homem. ”

Por fim, vale repisar que nada será possível dentro das quatro linhas se não houver fora delas uma revolução de métodos e conceitos. E para fazer essa revolução é preciso remover definitivamente a pedra do atraso, da má governança, dos métodos e conceitos mofados. Só assim será possível sair dessa encruzilhada e devolver o belo ao futebol.