A alma Atleticana e o estigma do masoquismo

 

 

Max Pereira
Do Fala Galo, em Belo Horizonte
04/11/2019 – 06h

“A ALMA ATLETICANA E O ESTIGMA DO MASOQUISMO. AFINAL, SE NÃO FOR SOFRIDO NÃO É ATLÉTICO, NÃO É MESMO? MAS, ATÉ QUANDO?”

Imagem: Internet

Quando o Atlético me foi apresentado há quase seis décadas conheci e me apaixonei por um tal Galo Forte Vingador. Um time de raça, vencedor e que praticava um futebol misto de arte e força, potência e alegria, determinação e técnica.

Passados mais de cinquenta e alguns anos, os dois gols de Tomazinho, o craque da camisa 10, marcados em uma noite de quarta-feira no antigo e de muitas histórias Estádio Antônio Carlos, onde hoje funciona o Shopping Diamond Mall de tantas polêmicas, contra um adversário qualquer, ainda estão bem vivos na minha memória e são parte fundamental de minha formação alvinegra.

Foram os primeiros gols que vi ao em minha vida em um estádio de futebol. Sentado nos ombros do meu velho e saudoso pai, com os olhos arregalados e o coração em disparada, vi, por duas vezes, as redes do goleiro adversário balançarem estufadas por dois tirambaços (era assim que se dizia na época) disparados, de fora da área, pelo meia ponta de lança atleticano, um goiano que veio brilhar nas Gerais com o manto sagrado.

Com o passar do tempo vi também aquele mesmo Galo que, como diz o hino de Vicente Mota, jogava com raça e amor, honrava o nome de Minas no cenário esportivo mundial, era o orgulho do esporte nacional e vingava os co-irmãos da terra batendo os seus algozes (daí o codinome Galo Forte Vingador), colher fracassos, vivenciar crises recorrentes e intermináveis, acumular dívidas faraônicas e ser, quase sempre, conduzido de forma temerária e irresponsável.

E vi mais. Vi aquele torcedor que cantava a plenos pulmões que era do Clube Atlético Mineiro, que o nosso time era imortal e que era Galo até morrer, também se transformar ao longo dos tempos.

Não, não foi uma transformação natural, evolutiva, normal. Foi uma transformação sofrida com requintes de masoquismo e autofagia emocional, onde o ser atleticano e o sentimento de atleticanidade estão sendo cada vez mais colocados em xeque.

No horóscopo do atleticano está marcado que ele nasceu sob o signo do sofrimento? Afinal, se não for sofrido não é Atlético, não é mesmo? Tenho certeza que não. Melhor, tenho certeza que podia ter sido e ainda pode ser muito diferente.

Durante anos, com o objetivo, para muitos verdadeiramente inconsciente, de subliminar esse sofrimento, o torcedor do Atlético vendeu a si mesmo que lhe bastava ser atleticano e que, ao Atlético, diferentemente de outros clubes e, principalmente, do rival do outro lado da lagoa, os títulos não eram necessários. “O Atlético não precisa de títulos”, frase maldita passada de pai para filho.

Não , não somos torcedores de um time de futebol, somos atleticanos, cunhou um nobre galista. E daí, o que ganhamos com tudo isso? Recalque e apenas inflamos o nosso já rançoso e irritante complexo de vira-latas.

Reconheço que esse tema é delicado e polêmico. Para o atleticano a grama do vizinho é sempre mais verde, a galinha é sempre mais gorda e a mulher é sempre mais gostosa.

Por isso, renovo a tese que venho sustentando de que o atleticano, se quiser transformar o Atlético no clube campeão e vencedor dos seus sonhos, tem que transformar-se a si mesmo primeiro.

A uma, porque Atleticano precisa parar de esperar e aprender a esperançar. Não custa repetir que a esperança de que falo é aquela do verbo esperançar e não do verbo esperar. Esperar significa ficar aguardando placidamente que algo de diferente aconteça, que caia de graça no colo.

Esperançar significa buscar realizar essa esperança, i.e., concretiza-la ou torná-la realidade por meio da ação e da atitude. É preciso fazer por onde, é preciso buscar o que se quer, é preciso fazer acontecer.

A duas, porque o atleticano precisa reaprender a ver em si a beleza em preto e branco, ou melhor, precisa entender a diferença entre indignação e ódio, entre inconformismo produtivo e intolerância. Indignação gera força motriz de reação. Ódio e intolerância geram mais ódio e intolerância e levam à ações desconstrutivas e desmobilizadoras e até própria destruição do bem que deveria ser preservado. E, tão grave quanto, ao imobilismo e à autodestruição de quem cultiva este tipo de sentimento.

A três, porque o atleticano precisa aprender a inflar sua autoestima, a recuperar seu orgulho de torcer pelo e para o Atlético, evitando continuar a se corroer patologicamente com comparações sempre desfavoráveis ao clube, fruto de um sentimento crescente e misto de inferioridade, frustração, derrotismo, fracasso, infelicidade e sofrimento que morbidamente vem cultivando dentro de si.

De outra forma, o atleticano precisa a prender a exorcizar de si este sentimento alienígena resultante de uma narrativa perversa que sempre cantou em verso e prosa as conquistas do rival azul e, ao mesmo tempo, fez gerações de galistas crescerem sendo catequizados por uma espécie de marketing anti-alvinegro.

O estrago causado nos recônditos mais profundos do inconsciente e da alma de cada torcedor atleticano são imensos e muito doloridos. Não sem razão, o Atlético quase nunca inspira confiança no seu torcedor, mesmo quando vem bem nas competições e ocupa posição de relevo nas tábuas de classificação. Rigorosamente, nenhum atleticano consegue passar impune diante de tal “carma”. Um carma fabricado.

É de se reconhecer que o jejum alvinegro que já dura 48 anos em relação ao campeonato brasileiro, em contraste com os títulos do rival azul, sempre rememoradas com gáudio e supervalorização pela mídia, estão na raiz dessa baixa autoestima do atleticano.

A exemplo do ensaio anterior sobre esse tema, reafirmo o entendimento de que a análise da forma sofrida e passional de torcer do atleticano e, de sua consequente influência no dia a dia do clube, é fundamental para a discussão de ações e de caminhos para ajudar o Glorioso a resgatar de vez a sua tradição de time vencedor e campeão.

E vale repetir um alerta: “muita gente escuta, lê e vê mídias sem o filtro necessário e, por isso, acaba formando juízos de valor equivocado. Há que se tomar muito cuidado com o que é dito, lido e escrito tanto quanto com aquilo que fica nas entrelinhas, i.e, com aquilo que não foi dito, não foi escrito e não foi lido, mas ficou subentendido”.

Insisto no seguinte: o aspecto cultural que dita o comportamento da torcida e, em consequência, sua relação com o clube e com o time, tem quer ser considerado e debatido sim.

E, antes que venham dizer que eu estou jogando a responsabilidade de tudo de ruim que está acontecendo com o clube nas costas da torcida, já vou deixando claro que estou, na verdade, chamando a atenção do atleticano para a responsabilidade que já é dele naturalmente.

Quem, senão o atleticano, se disponibilizaria e lutaria pelo clube? Se o Atlético não puder contar com o seu torcedor, vai contar com quem? Se o atleticano se furtar a essa missão, aí sim estaria jogando a responsabilidade e a tarefa nas costas de outrem.

Um dos calcanhares de Aquiles do Atlético ao longo dos anos e que tanto incomoda o seu torcedor é que o Galo é um time sempre em eterna ebulição, que busca consolidar uma forma de jogar e que, de temporada em temporada, se descura de algo que vital a qualquer organização ou entidade, em qualquer área de atuação: o planejamento.

Sonho com o dia que não verei mais o torcedor galista perder tempo e energia com críticas e cobranças virulentas e desfocadas do que de fato é importante e vital para o sucesso do clube.

Para um clube ganhar um título de uma competição de tiro longo, como o campeonato brasileiro de pontos corridos, é essencial planejar-se para tal. Uma campanha vitoriosa em competições desse tipo requer regularidade, equilíbrio, comando, estruturas física, administrativa e financeira, capitalização política, marketing, cuidados com a marca da entidade, profissionalismo e métodos e concepções de gestão esportiva eficientes. Ou seja, quase tudo o que o Atlético não tem condições de prover.

O Atlético de hoje tem apenas estrutura física excelente, a Cidade do Galo, e torcida. A primeira é mal e porcamente utilizada e a segunda, vocacionada para purgar o próprio sofrimento, se viciou em desestimular-se a si própria e a acreditar que, não só os títulos não são possíveis, como construir o Atlético dos sonhos também é impossível.

É verdade que a busca do equilíbrio, sempre invocada pelos treinadores, jovens e veteranos, e tão necessário e essencial ao êxito de qualquer time, decorre de planejamento, estruturação e trabalho, sem os quais não há como focar nenhum objetivo e nem manter a regularidade desejável.

Mas, um bom ambiente de trabalho, de respeito, tolerância, cumplicidade e de gostar de estar e de jogar junto deve ser trabalhado e preservado. Cabe ao torcedor contribuir com isso e, não, jogar gasolina no fogo como costumeiramente acontece.

Aqui, entro no cerne da tese que defendo sobre a influencia da relação clube/torcedor no dia a dia do Atlético, quase sempre nociva e inadequada.

Não me refiro apenas a ataques verborrágicos, agressões, bravatas, exploração covarde de fakenews, repercussão de piadas de mau gosto, seja demonizando este ou aquele jogador, seja fazendo caças às bruxas, inconsequentes ou injustificadas, práticas reiteradas que, inegavelmente, contribuem decisivamente para corroer ambientes e desestabilizar o grupo.

Quero destacar, também, a crônica omissão de muitos em relação aos problemas centrais do clube, a aversão renitente de outros tantos às questões de fora das quatro linhas, que os faz sempre desprezar os problemas que, de fato, são a razão dessa trajetória historicamente conturbada do Glorioso. Os maus dirigentes e os inimigos do clube agradecem e se servem desse tipo de torcedor, inconsciente e verborrágico.

Ainda são parcos e embrionários os sinais de um despertar consciente e proficiente do torcedor atleticano. O que já se detecta, aqui e ali, é uma gradual e lenta conscientização de gente atleticana que clama, ora por um Galo atitude, ora por projeto Galo Forte e, mais consistentemente, por um grito de renova Galo.

Na verdade e, não poderia ser diferente, é um processo de avanços e recaídas, mas que fazem a muitos como eu, acreditar que é possível à massa sair desse coma de anos, não obstante os amigos do apocalipse continuarem a vender por aí que o Atlético não tem solução e que a única e feliz saída é abandonar o barco, é sufocar a sua atleticanidade, é se libertar dessa “doença” que é torcer por um time derrotado na sua gênese e que já nasceu condenado ao fracasso.

Muitos atleticanos parecem sucumbir a essa ode à impotência, a essa aceitação do fracasso, da derrota e do sofrer como carma inevitável. E a muitos galistas é dado a acreditar que, por terem nascido atleticanos, são portadores de uma espécie de pecado original e que, culpados por descendência alvinegra, estão inexoravelmente condenados ao fogo do inferno futebolístico.

Inferno futebolístico é uma metáfora que descreve com perfeição o momento atual, que aflige e desespera de forma igual a todos os atleticanos, independentemente de geração, etnia, nível social, religião, instrução formal, sexo, orientação sexual, origem e cor da pele diferentes.

Sou teimoso por natureza. Até mesmo porque, se desistir, estarei morto em vida. Ainda acredito que aquela torcida que muitas vezes se levantou nos momentos mais difíceis e gritou que “o Galo é o time do amor, é o time da virada”, possa dar uma virada em si mesmo.

E quem acredita na virada, acredita que o impossível pode ser possível. Afinal, não nos orgulhamos de dizer que derrotamos o vento?

Há que se refletir também e muito seriamente em relação à posição atual do time na tabela do Brasileirão. O Galo ruma célere em direção ao precipício. Uma queda à segunda divisão nas condições atuais de total desmonte administrativo e financeiro poderá ser uma queda sem volta previsível.

Desde a sua criação, tenho insistido que essa coluna, PRETO NO BRANCO, tem como objetivo provocar cada atleticano a buscar as respostas para estas questões e a se questionar sobre o que ele pode e deve fazer a respeito.

Sei que tem torcedor que acha impossível o clube mudar a sua história por causa dele (torcedor). Eu, mesmo reconhecendo ser difícil, penoso, quero mostrar que isso é factível.

Ou seja, mais do que possa imaginar a vã filosofia do sofrido torcedor galista, é possível canalizar essa paixão irrefreável, absurda, imensurável e, também atormentada, em prol da construção de um Galo vencedor e campeão.

E, para que, cada torcedor possa identificar o seu papel nesse processo de construção do clube que todos nós sonhamos, é preciso que ele entenda que a transformação tem que começar nele próprio, com ele próprio e a partir dele próprio.

Mais uma vez fica o convite e a provocação a quem, tenho certeza, pode derrotar o vento novamente.

 

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Edição: Jéssica Silva
Edição de imagem: André Cantini