Em busca de iconoclastas

Foto: Reprodução / André Cantini

 

 

Prof Denílson Rocha
06/08/2020 – 14h16
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Parece parte da cultura do brasileiro buscar figuras salvadoras ou responsáveis pelas soluções dos problemas. E quando estas figuras aparecem, são logo tratadas como seres especiais, fora da realidade e merecedoras de adoração eterna. Lembro de como minha família tinha esta devoção a figuras como Vargas (o “pai dos pobres”) ou, por razões mais próximas, JK.

O Atleticano também tem bastante disso. Está frequentemente buscando ídolos – dentro e fora do campo – e colocando-os como especiais. “Santo”, “mito”, “rei”, “maior da história”… Cada momento relevante na nossa história traz uma figura enaltecida como responsável por um milagre, por um feito extraordinário.

Em campo, os ídolos vão sendo criados em nossa memória. Para a geração atual, Ronaldinho. Para minha geração, Reinaldo. Para gerações anteriores, Dario, Guará, Ubaldo ou algum dos muitos que se tornaram verdadeiras lendas na história do Atlético. Os mais recentes contam com a preciosa colaboração da mídia e das redes sociais para que suas imagens sejam eternizadas. Os mais antigos têm seus feitos nas histórias contadas de pai para filho e nas lembranças de gerações que, aos poucos, vão desaparecendo.

Os ídolos do campo são verdadeiros guerreiros que marcam suas trajetórias por glórias ou grandes lutas – tanto que vários dos ídolos do Galo não tiveram a honra dos grandes títulos, mas deixaram seus nomes marcados pela importância para o Clube. Para estes, é importante ressaltar suas obras e trazer suas proezas para o conhecimento dos mais novos. Guará, Ubaldo, Mão-de-Onça, Kafunga, Dario, Reinaldo, Luizinho, Éder… precisam ser reconhecidos e ter seus nomes lembrados ao lado de Victor, Léo Silva, Ronaldinho e todos os que nos trouxeram as grandes conquistas recentes. Podemos valorizar os conquistadores da Libertadores ou da Copa do Brasil e, ao mesmo tempo dar o devido valor a quem conquistou a Conmebol, o Campeonato Brasileiro, o Campeão dos Campeões e, inclusive, os muitos campeonatos Mineiros (muito importantes até os anos 1980). É preciso valorizar até mesmo os Campeões do Gelo, que sequer foi um torneio com campeão.

O que impressiona é a criação de “mitos” fora do campo. Lendas que chegam a dividir a Massa entre os defensores deste ou daquele dirigente.

Até os anos 1970, era raro ter algum executivo ou gestor que fosse tratado como superstar. A função de gestão sempre foi de “bastidor”. Histórias como de um Ford ou Disney já eram conhecidas, mas não colocavam estes grandes gestores como acima do bem ou do mal. Eram pessoas com obras geniais – e com a mesma humanidade que nos leva a cometer erros. Porém, os gestores passaram a ser vistos como celebridades. Atualmente, é comum ver, ouvir e ler sobre os fundadores ou CEO das maiores empresas do mundo – e passam a ser lideranças inquestionáveis, infalíveis. E esta tendência veio para o futebol também. Não bastam as lideranças a beira do campo (e é fácil encontrar as muitas obras sobre os técnicos de destaque), mas também ganham destaque os gestores que a maioria de nós não faz a menor ideia de sua feição. E passam a ser idolatrados como grandes ídolos e passam a se colocar como grandes ídolos.

Em uma época tão midiática, os populistas se aproveitam para construir uma imagem de salvador, de grandeza. As redes sociais são usadas para criar a imagem de gestores à frente do próprio clube. E os mais recentes presidentes do Galo fizeram bastante disso, inclusive usando suas redes pessoais para anúncio de contratações, o que deveria ser feito pelos canais formais do Atlético. Além disso, buscaram construir imagens de grandeza, de heroísmo. Porém, é lamentável que o presidente Sette Câmara tenha falado, ainda no início de sua gestão, que a torcida ainda gritaria seu nome. Como gestor, seu maior objetivo deveria ser ouvir a torcida gritar “Galo” e, especialmente, “é campeão”. Assim como é lamentável tratar o ex-presidente Kalil como o “maior da história” – sejamos justos que não é uma fala do próprio Kalil. E Nelson Campos? Qual o tamanho da conquista do Campeonato Brasileiro em um momento em que Santos, Botafogo, São Paulo, Inter e Palmeiras tinham times espetaculares? E Walmir Pereira e Elias Kalil, que enfrentaram não só os demais clubes, mas também os muitos problemas com o regime militar? Especialmente, e Margival Mendes, nosso primeiro presidente, que fez o sonho do Clube Atlético Mineiro se tornar realidade? Porque algum tem que ser “o maior”? Por que precisam ter seus nomes gritados?

Cada um dos muitos gestores que estiveram ou estão à frente do Galo tem seu valor. Todos – mesmo os mais criticados – deixaram algo de bom ou algo a se tirar como aprendizado. Cada um dos gestores que estiveram ou estão à frente do Galo tem seu erro. Todos – mesmo os mais exaltados – cometeram equívocos que, eles mesmos, fariam diferente se tivessem a oportunidade. Todos eles contribuíram para a história do Atlético. Todos eles se beneficiaram por fazer parte da história do Atlético.

Nós, como simples torcedores, precisamos reconhecer e ter a gratidão a cada um que dedicou seu esforço, seu tempo e seu conhecimento ao Atlético. Precisamos valorizar quem se dispõem a assumir um Clube que exige bastante e cujas críticas são frequentes. Mas precisamos tratar a cada um deles como humanos, com suas virtudes e seus defeitos. Não estão acima do bem ou do mal. Não são infalíveis. Não são santos ou milagreiros. Não são maiores que o Atlético. Nós precisamos de iconoclastas, de pessoas dispostas a acabar com estas imagens intocáveis.

Para nós, da Massa, não há adoração a presidente A, B ou C. Nossa veneração é exclusiva ao Clube Atlético Mineiro.