O difícil equilíbrio preço x público

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Prof Denílson Rocha
Do Fala Galo, em Belo Horizonte
06/09/2019 – 10h

No esporte, especialmente no futebol, a quantidade de números tem nos deixado desnorteados. Aparecem as mais mirabolantes estatísticas e, ao final, é difícil interpretar o que os números apresentam – sem contar as muitas avaliações sem qualquer fundamento ou que não dizem nada. Pior ainda deve ser a posição de quem toma decisões no futebol, seja nas análises de desempenho técnico, seja nas gestões. É tanto número e tanta gente dando pitaco no que não conhece que pode atrapalhar mais que ajudar.

Mas o que nos interessa aqui é a presença do torcedor no estádio.

Há dezenas de fatores que influenciam a presença do público. Qualidade do time, atratividade do torneio, adversário, rivalidade, horário do jogo, dia da semana, sequência do clube até aquela partida, momento dentro do torneio (decisão ou fase classificatória, por exemplo), segurança, transporte, clima, preço do ingresso, acesso ao ingresso e muito mais a ser considerado. Então, não é uma conta simples. Ainda que alguns simplifiquem a solução sugerindo reduzir o valor do ingresso porque tem a “certeza” de que o estádio vai ficar lotado.

Quando se fala em taxa de ocupação dos estádios, todos têm como referência o Borussia Dortmund, da Alemanha, que chega a incríveis 99,8% de ocupação média, em um estádio com mais de 81 mil lugares – reduzido a 65,8 mil lugares em jogos internacionais. Mas essa taxa de ocupação é consequência de muitos diferentes fatores. O preço do ingresso é realmente baixo, quando considerada a renda da população alemã – e mesmo assim não é preço baixo no estádio inteiro, porque há setores populares e outros com ingressos a preços mais salgados. E tratar somente dos ingressos a preços mais acessíveis é uma bela enganação.

A torcida do Borussia é a segunda maior da Alemanha, estimada em quase 11 milhões de adeptos. Isso é quase 20 vezes o tamanho da população de Dortmund, cidade do clube, e estão concentrados em uma área 40% menor que o território de Minas Gerais, com segurança e transporte adequados, campeonatos organizados, um time forte e marketing muito bem feito. Ou seja, estamos falando de um grande clube, com um time competitivo, que participa de torneios bem organizados, que oferece excelentes condições para acesso ao espetáculo e, ainda, com preços razoáveis. É um conjunto que explica o estádio lotado. Mas mais que tudo isso, a Alemanha tem uma forte cultura ligada ao futebol. Estádios lotados são uma regra, não uma exceção.

Passando à realidade brasileira, nós, brasileiros, adotamos a crença de “país do futebol” e acreditamos que a presença do público nos estádios está relacionada apenas ao preço do ingresso. Mas a realidade é bem diferente disso. A ocupação nos estádios brasileiros é tradicionalmente baixa. A imagem dos estádios lotados é bastante restrita às fases decisivas dos campeonatos. No geral, o público médio do Campeonato Brasileiro nos anos 70 era de pouco mais de 15 mil pagantes; nos anos 80 era de 16 mil; e aproximadamente 12 mil nos anos 90. Os públicos que chegavam a mais de 100.000 pagantes eram exceção – e continuam sendo.

Os destaques atuais são Flamengo, com público médio de aproximadamente 50 mil pagantes, e Palmeiras, com ingresso médio a R$ 58. Ambos têm taxas de ocupação dos estádios superiores a 75%. Ou seja, conseguiram realizar o que é somente sonho para a grande maioria: estádios cheios e arrecadações gigantescas.

Se avaliar os clubes com maior taxa de ocupação nos estádios e os que têm maiores tickets médios, todos são do eixo Rio-SP. A explicação que logo surge é de serem centros metropolitanos com renda média superior ao que se encontra no restante do país. Contudo, não é bem assim… a renda média da população de São Paulo e Rio de Janeiro é pouco maior que a de Belo Horizonte, mas a quantidade da população é substancialmente maior. Não é só por ter um pouco mais de renda média. É porque SP e o RJ tem MUITO MAIS PESSOAS, e parte delas com mais dinheiro.

Outro fator óbvio para explicar o que ocorre com estes clubes está na qualidade dos times, especialmente de Flamengo, Palmeiras e São Paulo, que fizeram investimentos em “estrelas”. Um bom time, que disputa títulos, atrai torcedores, leva gente aos estádios e permite, inclusive, ter ingressos com valores mais elevados. Não por acaso, os quatro clubes com maior média de público estão entre os cinco primeiros colocados na classificação – a exceção é o Santos, cujo estádio é pequeno e a ocupação é de 59%.

E ingresso barato é sinal de estádio cheio? Em princípio, não!

O ticket médio mais baixo no Brasileirão é do Fortaleza, com ingressos a R$ 13 e 45% de ocupação do estádio. Mas o Ceará, na mesma cidade, tem ingressos a R$ 22 e 41% de ocupação. No final, a quantidade de torcedores é bastante próxima, mas as receitas do Ceará são bem maiores. Dois times, da mesma cidade, no mesmo torneio. Se o preço do ingresso fosse suficiente para explicar o público, o esperado seria o Ceará ter bem menos público pagante que o rival. E acrescente que o retorno do Fortaleza à Série A permitiria imaginar que o torcedor teria maior empolgação e presença.

O segundo ticket com valor mais baixo é o do nosso rival local, com média de R$ 15. Ainda assim, o clube tinha, até pouco tempo, a segunda pior média de ocupação de estádios no Brasileirão. Só melhorou porque baixou os preços absurdamente (e a média ainda continua baixa). Baixo preço e pouca presença do torcedor nem dá para pagar as contas.

Se o preço é tão baixo, por que a torcida não vai? Simplesmente porque o torcedor não vai pelo clube ou pelo time, vai porque quer títulos. E quando os títulos ficam distantes, o torcedor se distancia também. E isso não é apenas com nosso rival local. É muito comum no torcedor brasileiro.

Enquanto o alemão vai ao estádio pelo espetáculo e pelo time, o brasileiro vai pela vitória. Essa cultura muda tudo. Qual a importância, qual o valor cada um dá ao jogo e ao próprio clube?

Falando do Galo, a grande polêmica quanto ao preço dos ingressos apareceu no último clássico, com muitos torcedores reclamando dos valores mínimos de R$40, para sócios, e R$100, para não sócios. Barato não é! Mas não dá para pensar em um clássico com ingressos a R$10. É um clássico!!!! Se o valor é tratado como alto para o jogo de maior rivalidade, quanto deveria ser para um jogo do Campeonato Mineiro? Com todas as reclamações e críticas, foram mais de 13 mil presentes, mesmo em um horário ingrato (19h de domingo) e com transmissão para Belo Horizonte em TV aberta. Ah… sim, a transmissão de jogos em TV aberta (mesmo que não seja do próprio clube) também reduz a quantidade de torcedores presentes nos estádios.

A discussão relativa ao preço do ingresso precisa ter foco no futuro do Galo. Em breve, teremos a Arena MRV, cujo planejamento prevê 61% de ocupação, com ticket médio a R$43,16. Considerando os números atuais, o Atlético precisará dobrar a média de público pagante, aumentar em 10% a taxa de ocupação e elevar em 60% (!) o preço médio dos ingressos. A novidade da Arena será um atrativo no início e, possivelmente, garantirá públicos maiores. Mas, para os números serem sustentáveis em longo prazo, é preciso mais. Para isso, duas questões são fundamentais:

– O que o Atlético fará para atrair a torcida ao estádio? Se não consegue lotar um estádio para pouco mais de 20 mil pessoas, como fará em um com quase 50 mil lugares? Reduzir a torcida a um pequeno estádio (e acreditar que é o estádio, não o time, que ganha jogos) está tirando o hábito de muitas pessoas irem ao campo. Como gerar, novamente, esse hábito em quem está deixando de ir ao estádio?

– A torcida Atleticana vai continuar esperando ingressos a R$4 ou vai compreender que não se faz futebol de alto nível com preços tão baixos? O ex-presidente Kalil afirmou, por diversas vezes, que futebol é caro e que estádio é para quem tem dinheiro. Podemos discordar desta afirmação porque estádio é para todos e deve ser setorizado para abrigar a todos. Mas, torcedor, se o clube e o jogo são realmente importantes, a gente faz um sacrifício, abre mão de uma cervejinha e consegue pagar um preço justo pelo ingresso. Vamos continuar reclamando nas redes sociais ou vamos entender que ingresso de R$10 é inviável para manter o clube?

Em comparação com clubes do mesmo porte, as receitas do Galo com ingressos e sócio torcedor são irrisórias. Muito pequenas para um clube tão grande. Há algo errado e que precisa de soluções urgentes. É responsabilidade do clube que não está sabendo se relacionar com o torcedor. É responsabilidade do clube que não consegue compreender que a “austeridade” excessiva, a redução de investimentos no time, reduz receitas. No entanto, é responsabilidade do torcedor entender que qualidade tem preço. É responsabilidade do torcedor saber que futebol vencedor tem preço. E é preciso que cada um faça uma avaliação das próprias responsabilidades e busque soluções que permitam que a torcida esteja ao lado do clube e, ao mesmo tempo, que o clube seja sustentável. Porque, se a Arena MRV ficar pronta em dois anos, o problema público x preço é imediato… e já estamos atrasados.

 

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Edição: Ruth Martins
Edição de imagem: André Cantini

Angel Baldo

Mineiro de nascença, mas Paulista de criação. 30 anos, Administrador e Engenheiro Mecânico. Atualmente residindo na cidade de Uberlândia.

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