No caminho do Atlético e do futebol brasileiro ainda tem uma pedra. Tem uma pedra no caminho!

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Max Pereira
Do Fala Galo, em Belo Horizonte
30/09/2019 – 4H

Uma questão tormentosa vem desafiando a argúcia de comentaristas e pensadores quando o assunto é o futebol brasileiro.

É que, aqui nessas terras tupiniquins, o futebol vem há anos sofrendo, dos pontos de vista tático e técnico, uma revolução clara, gradativa e bastante ruim ao meu ver.

O futebol que antes era lúdico e técnico por excelência é hoje basicamente físico, tático e mental.

Muitos observadores tentam definir o marco inicial desta transformação. Vou dar os meus pitacos:

Depois das conquistas dos mundiais de 58 e 62, quando o futebol brasileiro impactou o mundo que se encantou e se curvou diante da genialidade de Pelé e Garrincha, o mundial de 66 era, para muitos torcedores e jornalistas, favas contadas.

O Brasil, traumatizado pelo Macaranazo de 1950, regurgitou em 58 e em 62 ao descobrir que o futebol arte brasileiro, cheio de ginga, prenhe de talento e de talentos, lúdico ao extremo, alegre e genial nos pés daqueles dois deuses nascidos brasileiros e gente do povo, podia fazer o planeta curvar-se aos seus pés.

O futebol não havia se tornado a grande paixão nacional por acaso. É que o esporte bretão conseguia reunir vários e determinados fatores que levavam massas de torcedores ao fascínio, ao prazer incontido, ao exercício e ao experimento da paixão.

Catártico, o futebol desopilava fígados e vingava o torcedor de seus algozes do dia a dia: o desafeto que a vida trazia, o mau patrão, o chefe insuportável, a sogra pela saco, a companheira ou o companheiro geratriz de mágoas acumuladas, os maus políticos, os maus governantes, etc., etc., etc..

O futebol conseguia, de certa maneira e até com certa eficiência, resgatar as frustrações acumuladas pelos fracassos, pelas derrotas da vida, pelas decepções, pelos insucessos do dia a dia.

Os estádios de futebol tornaram-se o espaço naturalmente mais democrático do país, onde o pobre e o rico, o branco, o negro e o índio, o analfabeto e o doutor, o crente e o ateu, o materialista e o espiritualista, o religioso e o agnóstico, o trabalhador e o capitalista, o patrão e o empregado, e até o hétero e o homossexual se misturavam e se igualavam na paixão, na alegria, na tristeza, na agonia e no êxtase, na frustração ou na redenção, na vitória e na derrota, no grito do gol ou no gozo de uma jogada genial.

As arquibancadas e as gerais eram lugares impares, um oásis no deserto da vida selvagem. O futebol, visto por muitos com preconceito. sempre foi manancial riquíssimo para teses de sociologia e psicologia.

Ademais, na trilha da lição de um notório imperador de Roma, ao povo deve ser garantido pão e circo. O futebol tornou-se o circo moderno e, como tal, passou a ser romanceado e tratado, o que não impediu, entretanto, que a relação clube/torcedor, a exemplo do próprio futebol, também mudasse profundamente com o passar dos tempos.

O mundial de 66, primeiro na égide do regime militar, frustrou o país.

Auto confiança em excesso, rivalidade e disputa de poder na seleção entre os dois maiores centros do futebol brasileiro, Rio e São Paulo, vaidades incontroladas, o caso do futebol de Garrincha, contusão de Pelé, afastamento precoce de Amarildo lesionado, desconvocações e não convocações inexplicáveis e/ou injustificáveis, dentre outros fatores, levaram o Brasil ao fracasso.

Desestabilizada, sem liga e sem poder contar com Pelé e Garrincha em sua plenitude, a seleção brasileira parou na primeira fase. Pelé voltou para casa sem trono e sem coroa.

Para muitos observadores, o excepcional Eusébio que comandou a melhor seleção portuguesa de todos os tempos, teria, a partir daquela Copa, se tornado o novo rei do futebol.

Novo trauma? Síndrome de 1950? Culpa de quem e do que? Sem Pelé e sem Garrincha o futebol brasileiro não tinha futuro?

Perguntas, dúvidas e muitas respostas. Varias delas se arrastam até hoje e muitas teorias foram construídas.

Governo e povo exigiam soluções rápidas e eficazes. Vencer a próxima Copa era questão de honra e de afirmação do país.

Ironia a parte, o precursor da nova redenção do futebol brasileiro, que aconteceria no México em 70, foi um treinador progressista e extremamente personalista, João Saldanha.

Com as suas “feras”, um relicário de talentos, Saldanha desafiou teólogos do futebol ao escalar um zagueiro clássico como D. Dias ao lado do excelente Joel Camargo do Santos.

Mas, a grande revolução foi mostrar que Pelé e Tostão podiam jogar juntos. Com uma campanha irretocável nas eliminatórias o Brasil garantiu o seu passaporte para a terra de Cantinflas.

Paralelamente, um grupo de teóricos ascendia no comando da preparação física da seleção brasileira e, a partir daí, mudaria para sempre conceitos, filosofia e a forma de se ver e de se jogar futebol no Brasil.

Parreira, Paulo Amaral, Aquiles Chirol, Capitão Claudio Coutinho e outros começaram a introduzir técnicas estrangeiras de preparação física e, gradativamente, a subverter conceitos de treinamentos e de padrões táticos até então pétreos no futebol brasileiro.

Mas, Saldanha, com sua independência, com sua verve afiada, com suas tiradas e declarações contundentes, incomodava bastante a gregos e troianos.

Sua queda, dia após dia, tornava-se cada vez mais iminente. Surge, então, uma pedra no caminho do gaúcho de ferro. Uma pedra mineira que mudou os destinos do treinador e da própria seleção.

E como dizia o poeta maior, no meio do caminho de SALDANHA tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho do João Coragem: o Atlético Mineiro, do Homão Yustrich, de Dadá Maravilha, o peito de aço e da Massa mais massa do Brasil.

Uma contundente e épica vitória atleticana no Mineirão por 2 X 1, um apelo popular e, como reza a lenda, uma propalada exigência do então presidente Médici para a convocação de Dario e uma recusa atrevida de Saldanha em chamar o peito de aço, teriam precipitado a queda do treinador.

Zagalo o substituiu. Os homens da preparação física remanesceram intocáveis. E com eles suas idéias, conceitos e métodos.

Zagalo, por sua vez, rendeu-se ao clima instaurado e convocou Dadá.

No primeiro coletivo do peito de aço, escalado no time reserva, em um Maracanã lotado e com transmissão ao vivo pela TV para todo o Brasil, bastaram 45 minutos para Dadá convulsionar o pais marcando 4 gols.

Um estonteante 4×0 imposto ao time titular que tinha, dentre outros, Pelé, Gerson, Jairzinho, Carlos Alberto, Piazza, Brito e o excelente Rogerio do Botafogo que, pouco tempo depois, sofreria uma grave contusão que mudaria sua carreira para sempre.

Para a segunda etapa do treinamento Zagalo sacou Rogério do time titular, puxou Jairzinho para a direita e colocou Dadá no comando, ao lado do Rei.

Dario não recebeu um passe sequer, um lançamento sequer e, por óbvio, não balançou as redes.

Na única vez que uma bola foi alçada na área toda a defesa reserva foi para cima do peito de aço e, Jairzinho, livre de marcação, cabeceou para as redes fazendo o único gol daquela etapa e do time titular.

A partir dai, Dario seguiu treinando sempre no time reserva e, mesmo sendo artilheiro absoluto de toda a fase de treinamentos e de preparação para a Copa, jamais teve outra chance no time titular.

Roberto Miranda, do Botafogo, era sempre o preferido de Zagalo para substituir Tostão sempre que necessário.

AH! Com a contusão de Rogério, Zagalo finalmente abriu espaço para Tostão e recuperou a vitoriosa experiência de Saldanha. Durante a Copa Dario ficou no banco uma única vez e jamais entrou em campo.

Embora reconheça a excelência do futebol de Tostão, considero muito estranho este isolamento do peito de aço. Dadá era, de fato, a antítese do futebol arte defendido por Saldanha. Mas, por que Zagalo, que o convocou, o defenestrou dentro da seleção? Muitas são as teorias a respeito, mas elas fogem ao tema deste artigo.

Dadá Maravilha, marcando o gol contra o Botafogo, em 71 / Foto: O Curioso do Futebol

As teorias e métodos dos preparadores físicos da seleção de 70, entretanto, merecem, ao meu ver, acurada reflexão e, não só porque mudaram para sempre os paradigmas do futebol brasileiro, como também porque o jogo feio resultante de suas práticas, associado às agruras financeiras e à visão mercantilista do futebol cada vez mais presente, afetou, com o passar dos anos, a relação povo/seleção.

Ao trazer e defender métodos estrangeiros, notadamente de preparação física e de tática do futebol europeu, para o Brasil, eles levaram o futebol brasileiro a trilhar um caminho tortuoso, renegando e sufocando o que ele tinha de melhor: a criatividade, a inventiva, a imprevisibilidade, o talento e a alegria. É por isso que muita gente se pergunta como seria o desempenho de Pelé e de Garrincha no futebol de hoje.

Enquanto isso, e na contramão deste movimento, os técnicos e os dirigentes europeus, deslumbrados e se sentindo impotentes diante do futebol brasileiro que conquistou o mundo em 58, em 62 e também em 70 e, em especial, fascinados com as diabruras de Garrincha e a genialidade sem par de Pelé, curiosamente buscavam desenvolver esquemas táticos de muita marcação e também com a exploração do biotipo europeu, do jogo aéreo e da maximização do sprint físico.

O objetivo dos pensadores e gestores do futebol europeu era buscar evoluir, superar e derrotar o futebol brasileiro.

Na terra do complexo de vira-latas, também no futebol a teoria de que nós é que deveríamos copiar conceitos, métodos e filosofias alienígenas ganhou espaço e cada vez mais adeptos.

Nem tanto a terra, nem tanto ao mar, reconheço. Nada contra copiar e se espelhar no que é bom e profícuo. O erro foi copiar sem juízo de valor. O que resta óbvio é que o futebol brasileiro foi se desfigurando, demarcado por sistemas táticos engessadores.
E a conquista do tri em 70 fez muita gente acreditar que o futebol brasileiro havia retomado o caminho certo de vez. Ledo engano.

A técnica foi perdendo terreno e a criatividade, a inventiva e o improviso, antes tão naturais ao jogador brasileiro, tem sido, ao longo dos anos, sufocados por esquemas táticos cada vez mais rígidos e pela idiossincrasia dos treinadores que, em nome da manutenção de um poder autoritário, nada permitem aos seus comandados, além daquilo que eles determinam.

Nem mesmo o insucesso em várias copas do mundo a partir de 1974 trouxe a percepção de que estes conceitos precisavam ser repensados. O Brasil ainda ganharia mais duas copas do mundo, o que não foi suficiente para resgatar a confiança e a alegria do brasileiro com o escrete canarinho.

Ao contrário de desenvolver novos caminhos para o nosso futebol, explorando o talento e a ginga naturais do brasileiro, os nossos técnicos, treinadores, teóricos e dirigentes buscaram, pura e simplesmente, copiar e impor outros modelos sem o cuidado de respeitar a nossa cultura, os nossos valores e, principalmente, as características inatas dos nossos jogadores.

Seja pela necessidade de mostrar quem manda, seja pelo medo de perder o emprego, os treinadores de modo geral acabam corrompendo as características, os talentos e a criatividade dos atletas sob o seu comando.

Com a especulação imobiliária, o crescimento e a expansão dos grandes centros urbanos o futebol de várzea murchou, os campos de terra e os terrenos baldios desmatados foram desaparecendo.

As chamadas “peladas” de antigamente, tão alegres e renhidamente disputadas, eram um celeiro de craques que, no chão batido, sem amarras e com total liberdade, podiam criar à vontade, imaginar e materializar jogadas e dribles, brincar e desfilar sua magia.

Com o surgimento das escolinhas e o precoce enquadramento tático de garotos em tenra idade nas categorias de base dos nossos clubes, a criatividade, a inventiva e o talento passaram para o último plano na escala de prioridades.

A globalização e o fascínio europeu, aliados à perspectiva de faturar em euro ou em dólar, lançaram a pá de cal derradeira na sepultura do futebol brasileiro.

A tudo isso somam-se a voracidade e as ações mercantilistas excessivamente despudoradas dos agentes que em muito tem contribuído para o estado quase falimentar e para o declínio técnico, moral e financeiro da grande maioria dos clubes brasileiros, quase sempre muito mal administrados por dirigentes ineptos.

É óbvio que as recorrentes crises econômicas que sacodem o pais desde sempre também são também fatores decisivos no debacle do futebol brasileiro.

Por sua vez, a maioria absoluta dos jovens que se aventuram no sonho de uma carreira exitosa no futebol é inculta, de origem humilde, simplória e arrimo de família.

Desde cedo se tornam a esperança de suas famílias de tirarem o pé da lama. Tanto eles quanto os familiares se tornam presas fáceis de agentes, empresários e dirigentes inescrupulosos.

Muitos, despreparados para o sucesso ou para enfrentar a vida no exterior, em culturas diferentes, sucumbem não suportando a imensa pressão a que são submetidos ou se deixam levar pelas seduções da vida, pelas fraquezas e pelos amigos de sua fama e de seu dinheiro.

Ainda garotos se submetem à vontade imperial de seus agentes que, por meio de contratos assinados pelos pais ou pelos responsáveis legais, assumem o controle total de suas carreiras.

Normalmente obedecem cegamente aos seus agentes e, por isso, fazem todo o tipo de coisas, inclusive descumprir contratos firmados e determinações de seus próprios clubes.

“Gigolados” pela própria família, pelos parentes, pelos amigos, pelas namoradas e seus familiares, pelos vizinhos, pelos agentes e pelos dirigentes, os jogadores ainda são cobrados, quase sempre com crueldade e muita injustiça, por torcedores apaixonados e irracionais.

Não podemos nos esquecer da imprensa que muitas vezes mais desinforma do que informa.

É induvidoso, portanto, que este cenário, profundamente complexo e hostil para quem milita no futebol, e especialmente perverso para a grande maioria dos atletas, demanda uma profunda reflexão e medidas radicais que renovem conceitos e métodos que resgatem o lúdico, a criatividade, o talento e também a boa governança e a credibilidade do futebol brasileiro.

O Atlético, particularmente, ao trazer R10, em um insight genial de Cuca, incorporado por Alexandre Kalil, acreditou na magia perdida pelo futebol brasileiro e concedeu a si (clube) e a sua torcida a fé do sucesso. E, aí, nasceu a geração do “EU ACREDITO”.

Ronaldinho, sacada de mestre do técnico Cuca

Curioso o futebol. Curiosa a vida. Tinha uma pedra gaúcha no meio do caminho dos adversários do Atlético. No meio do caminho dos adversários do Atlético tinha uma pedra mágica, tinha Ronaldinho Gaúcho. E o time da massa resgatou a arte e ganhou o mundo.

R10 se foi e sem ele a magia se desfez. R10 se foi e o Atlético voltou à mesmice de sempre.

É que a falta de criatividade e de talentos dentro das quatro linhas também se verifica fora delas.

O caminho do Atlético e do futebol brasileiro não é outro, senão o de se reinventar. E se reinventar significa romper fora de campo com este sistema de governança mofado e ultrapassado e, dentro de campo, resgatar a alegria, a criatividade, o lúdico e a magia.

Mas, atenção, nada será possível dentro das quatro linhas se não houver fora delas uma revolução de métodos e conceitos.

E para fazer essa revolução é preciso remover a pedra do atraso, da má governança, dos métodos e conceitos mofados.

No meio do caminho do Atlético e do futebol brasileiro ainda tem uma pedra, tem uma pedra no meio do caminho.

 

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Edição: Ruth Martins
Edição de imagem: André Cantini 

 

 

Angel Baldo

Mineiro de nascença, mas Paulista de criação. 30 anos, Administrador e Engenheiro Mecânico. Atualmente residindo na cidade de Uberlândia.

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