A Pandemia mundial e os cenários do futebol no Brasil - FalaGalo

A Pandemia mundial e os cenários do futebol no Brasil

Foto: FMF

 

Prof Denílson Rocha e Silas Gouveia
12/04/2020 – 06h
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Quando falamos de Coronavírus e a pandemia mundial, raramente nos vêm à mente o futebol. A não ser quando se trata da saudade que todos nós, torcedores, estamos vivendo com o jejum de jogos de nossos clubes. Inimaginável para nós, fanáticos torcedores, passar mais de um mês sem ver nosso time jogar. Já bastam as férias de final de ano. Mais que isto, é tortura sem fim. Afinal, nós brasileiros somos os mais apaixonados pelo futebol. Mas existem os demais que também tem suas paixões (talvez nunca como a nossa).

Acontece que, por tudo o que estamos acompanhando mundo afora e mais detidamente no Brasil, nada deverá ser como antes no futebol. Dirigentes, diretores e mesmo atletas, podem se apressar em dizer que está tudo sendo analisado e o planejamento segue seu curso, talvez com certas adequações ou correções de rumo. Entretanto, ao analisar o cenário estampado em inúmeras reportagens e avaliações econômicas em todo mundo, podemos dizer – com pequena chance de errar –, que todos os clubes terão sérias dificuldades em se manter durante este ano e, muito provavelmente, ainda durante os anos seguintes. E todos os clubes terão de se adequar a uma nova realidade, por um tempo ainda não possível de ser estimado.

 

AS DESVALORIZAÇÕES DE CLUBES E ATLETAS

O site alemão Transfermarkt fez publicação recente sobre a projeção das perdas de valor de atletas que atuam nas principais Ligas Europeias. Nesta avaliação, as estimativas de desvalorização média do valor dos atletas gira em torno de 19%, dependendo, obviamente, da importância mundial da Liga e do nome do atleta. Não dá para fazer um raciocínio linear assim para todos, mas já traça um cenário de perda iminente de valores de seus ativos mais preciosos, que são os atletas. E em outras publicações mais especializadas sobre finanças do futebol, as informações sobre desvalorização de alguns clubes assustam. Gigantes mundiais acumulam perdas astronômicas em seus valores nas bolsas (obviamente, os que já estão listados na bolsa). Alguns com perdas irrecuperáveis a curto e médio prazo. Certamente, para estes clubes (empresas), a realidade que se vislumbra ao término deste período de pandemia deverá ser de enormes perdas financeiras e uma readequação de seu modelo de participação no mercado da bola. Não será surpresa alguma se o modelo adotado pelo Sette Câmara, do escambo, for usado numa escala mundial de transações de atletas.

Imagem: Transfermarkt

INVESTIMENTOS DE RISCO

Aqui no Brasil, em especial no Galo, o cenário assusta bastante, assim como também assusta um certo descolamento entre os discursos dos dirigentes e de alguns investidores de primeira hora do clube, com a dura perspectiva de receitas dos clubes. E, sendo realista, há de se rever determinados investimentos, seja na contratação de jogadores, seja, até mesmo, na construção do estádio.

Como exemplo, a construção do estádio precisará de uma reavaliação no cronograma de investimentos já aceitando um atraso no início das obras. Afinal, mesmo que os modernos métodos de engenharia precisem de uma quantidade menor de pessoas, seria inviável qualquer tentativa de recrutamento de operários em meio a uma pandemia e escassez de materiais de proteção, além dos necessários exames médicos e aplicação de medidas profiláticas como teste de positividade para Corvíd-19 e vacinação contra Gripe de todos os operários a serem contratados. Um cenário impensável, logisticamente falando, de ser implementado a curto prazo no Brasil.

Mesmo para uma Arena planejada para ser construída em condições técnicas e de implantação ultra rápida, ainda assim é difícil imaginar a não contratação de contingente expressivo de assalariados em espaços de tempo controlados. Hoje não haveria recursos e matérias para a realização de exames médicos e laboratoriais imprescindíveis para se garantir a saúde dos funcionários e de toda cadeia envolvida.

 

RECURSOS FINANCEIROS ESCASSOS OU INDISPONÍVEIS

Também é certo que nem todos os recursos financeiros necessários à esta construção estão de fato garantidos e reservados em alguma conta, aplicados em fundos que garantam ao menos uma proteção quanto à desvalorização monetária. É preciso lembrar também, que parte do valor para construção da Arena MRV viria da venda de cadeiras para própria torcida. E quantos de nós estavam planejando esta compra e até mesmo guardando uns trocados para quando este momento chegasse. Agora, quantos já estão reavaliando este investimento, preocupados se terão seus empregos e renda para manter as próprias famílias, enquanto o sonho da cadeira no estádio deixa de ser prioridade.

Além disso, qualquer obra passa por ajustes durante sua execução. E, caso haja a necessidade de uma readequação de custos, quais seriam as possíveis fontes de recursos que poderiam garantir a continuidade e execução da obra? Com a economia em crise, poucos recursos disponíveis, vai entregar “meia boca”, comprometendo a qualidade, ou vão apelar a empréstimos para sua continuidade ou finalização.

 

MAS NÃO É SÓ A CONSTRUÇÃO DO ESTÁDIO

Todos os clubes passarão por sérios problemas de caixa. Alguns temem pela próxima sobrevivência. Muitos, maioria talvez, precisarão se endividar para poder cumprir os compromissos já assumidos para 2020. A queda na arrecadação deverá ser mais fortemente sentida pelos clubes que tem poucos torneios a disputar nesta temporada, obviamente. Mas esta queda de arrecadação deverá ser tão ou ainda mais sentida pelos clubes que tem elevados custos de manutenção de seu negócio. Sendo assim, o atual campeão brasileiro, com o time mais badalado e com receitas previstas bastante superiores aos demais concorrentes, também é o clube que mais gasta mensalmente para manter o negócio futebol funcionando e gerando resultados. Em matéria publicada recentemente, o Flamengo tem gasto mensal com o futebol, na casa dos R$ 50 milhões. Ou seja, a cada mês o clube precisa de conseguir receita líquida de R$ 50 milhões. Não interessa o quanto irá arrecadar com contas de TV, ou premiações, ou de patrocínio. Se, ao final do mês não tiver sobrado, livre de impostos e tudo mais, pelo menos R$ 50 milhões, o Flamengo se endividará. E seu fornecedor de material esportivo já comunicou atrasos nos repasses e, até a busca de revisão dos contratos.

O futebol é um grande negócio, parte do mundo do entretenimento, e deve ser comparado a grandes empreendimentos, de retornos financeiros consideráveis e de mobilização de uma cadeia de eventos secundários. Se assemelha a setores que são responsáveis por enormes movimentações de vários seguimentos, assim como no caso da construção civil, cuja cadeia produtiva longa gera efeitos capazes de produzir empregos nos mais variados segmentos envolvidos direta e indiretamente. A na construção civil emprega diretamente operários, engenheiros e pessoal administrativo e indiretamente promove o emprego de pessoas como nas siderúrgicas, cimenteiras, ferramentaria, máquinas e equipamentos, logística, serviços imobiliários, móveis, decoração e mais uma infinidade de setores relacionados. O futebol emprega, além dos atletas e funcionários dos clubes, também os funcionários dos estádios, das federações, da imprensa e até mesmo dos ambulantes do entorno dos estádios. Ainda podem ser incluídos todos os envolvidos para transmissão dos jogos, segurança, alimentação, fabricação e venda de uniformes, calçados, equipamentos, organização dos eventos e por aí vai. Pensar futebol requer uma visão muito ampla de toda extensa cadeia produtiva e suas implicações econômicas e sociais. E saber atuar nestas cadeias é essencial, especialmente em momentos de crise. Saber mexer na peça certa nesse complicado jogo de xadrez pode estimular a vários outros setores econômicos.

 

AÇÕES DE GOVERNO E DAS ENTIDADES DO FUTEBOL

Por estes motivos, é de se imaginar que os governos e entidades federativas ligadas ao negócio futebol já estejam se movimentando em busca de algumas salvaguardas e ajudas que busquem minimizar os impactos mais negativos desta pandemia e estimular a retomada dos negócios. Entidades como FIFA e CBF começam a se organizar para fazer frente às perdas financeiras dos clubes e dos atletas. A CBF já divulgou medidas para auxílio aos clubes da série C e D, os mais vulneráveis, quando se trata de receitas e manutenção de atletas e também são os que empregam a maior parte dos atletas profissionais do Brasil e que recebem salários próximos aos valores de operários da construção civil. Em publicação de 2016, a própria CBF traça um quadro de salários de jogadores de futebol no Brasil e alerta que cerca de 82% destes atletas recebem menos de R$ 1 mil mensais e que em torno de 95% recebem menos de R$ 5 mil. Este seria apenas mais um comparativo possível de se fazer entre o futebol e a construção civil no Brasil.

Em um cenário bastante otimista, imaginando-se um retorno precoce do futebol no Brasil e mesmo no mundo, os controles sanitários deverão prevalecer por um período ainda difícil de ser previsto, uma vez que em epidemias virais as contaminações podem sofrer uma recidiva grave e, em geral, todas as epidemias virais possuem o que no meio científico de chama de uma “segunda onda”. Ou seja, mesmo depois de um certo controle, os casos de retorno das contaminações e transmissões voltam a acontecer. Um possível retorno aos gramados deve ser feito com um acordo sobre limitação de espaços e de presença de pessoas dos grupos de riscos. Em alguns casos já se fala em jogos com portões fechados até o final de 2020. Se houver o retorno dos torcedores, é óbvio também pensar que o valor dos ingressos deverá ser reduzido, uma vez que a população terá outras despesas mais importantes que justifiquem seus gastos.

 

CENÁRIOS PÓS-PANDEMIA

Estudos recentes projetam perdas significativas em todos os setores da economia, tendo alguns com perdas mais expressivas e imediatas, como no caso dos setores como turismo e hotelaria. Mas, de forma geral, todos os setores deverão ter perdas significativas e previsão de recuperação somente a partir do ano de 2021, dependendo muito de medidas de incentivo à produção e ao consumo ditadas pelos governos. No futebol não será diferente.

Imagem: Deloitte

 

Qualquer que seja o cenário futuro para o futebol, há de se levar em consideração uma queda entre 30 a 50% do faturamento com bilheteria e, talvez, um percentual um pouco menor (entre 20 a 40%) das receitas de transmissão e mesmo as receitas de patrocinadores podem sofrer redução em torno de 50% do projetado. Como já citado, até gigante Adidas, fornecedora de material esportivo e patrocinadora de alguns clubes, indicou que deverá fazer uma repactuação de valores com estes clubes e prevê uma redução de até 50% dos valores contratados. E tudo isto, é claro, ainda irá depender do formato encontrado para a continuidade do futebol em 2020.

 

MUDANÇA DE FORMATO DAS COMPETIÇÕES

Por todas estas condicionantes, a proposta de execução do torneio brasileiro de 2020 em sistema de eliminatório, o “mata-mata”, é fortemente rechaçada pelos clubes pois a eliminação nas primeiras fases deste tipo de competição significaria praticamente a sua falência, em especial aos que não tiverem outros torneios a serem disputados no ano. Os patrocinadores fogem pois não tem visibilidade. A torcida deixa de comprar produtos e se associar aos programas de sócio. As quotas de TV desaparecem. E inclusive para a TV também não seria a melhor opção, visto que seus contratos com anunciantes foram projetados para exibição das marcas em um número previsto antecipadamente de rodadas, independente do time que se sagre campeão ou daqueles que acabem rebaixados.

Para nós torcedores, que primamos pelo imediatismo no futebol, esta crise gerada pelo Coronavírus poderá nos fazer ao menos refletir sobre o que devemos exigir de nossos dirigentes. Poderemos estar diante de um dilema crucial, tão ou mais assustador que o isolamento social nos impôs. Podemos ter de decidir entre sermos coadjuvantes de um espetáculo, ou o artista de circo que arrisca sua vida num salto acrobático nunca antes tentado e sem redes de proteção. A escolha tem de ser feita com muita cautela e responsabilidade.

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