Entrevista especial – Rodolfo Gropen saindo de cena

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Betinho Marques
Do Fala Galo, em Betim
31/08/2019 – 07h10

O Fala Galo entrevistou o presidente do conselho deliberativo do Clube Atlético Mineiro, Rodolfo Gropen, que se prepara para deixar o cargo após mais de uma década de dedicação ao clube. Entre as várias abordagens, conversamos sobre os processos de democratização do clube, as possibilidades de mudanças no estatuto, os legados desde a sua chegada, o distintivo gigante na nova coleção e o vínculo com a diretoria do ex-presidente Alexandre Kalil. As cobranças da torcida, o respeito aos poderes e hierarquias da instituição, o novo estádio do Galo, perspectivas para o futuro atleticano e até a possibilidade de ver Kalil presidente do Brasil também foram temas abordados.

Confira na íntegra toda a entrevista, que foi feita ao estilo Fala Galo: com seriedade, mas com a informalidade que torna o Galo bem mais aprazível e próximo do seu torcedor.

 

Legado e Alexandre Kalil

Fala Galo – Doutor, fale-nos um pouco do seu legado no Atlético e seu tempo de caminhada.


Rodolfo Gropen – Em meados de 2008 o Atlético vivenciava uma crise sem limites, com quatro folhas de salário atrasadas (incluindo, mas não se limitando, a funcionários que ganhavam um salário mínimo), penhoras de todo tipo, em função de dívidas trabalhistas (naquele momento em torno de 55 milhões de reais), e incontáveis débitos de natureza civil, sem contar o imenso estoque de dívidas tributárias. Havia mais de duzentos títulos protestados em cartório e estávamos absolutamente sem crédito na praça. Acrescem os adiantamentos anteriormente feitos de verbas de TV, material esportivo e diversas receitas futuras. A bem da verdade, o Atlético tinha um orçamento de 52 milhões para 2009, enquanto o time do Barro Preto, cito só para efeito de comparação, detinha um orçamento para o mesmo ano de cerca de 110 milhões. Este era o triste retrato do Atlético que o Alexandre Kalil assumiu. Resolvi descer da arquibancada e me apresentar a ele (eu o conheci apenas dois dias antes da bendita eleição dele para presidente). Fui seu diretor de gestão, em seu primeiro mandato, e diretor de planejamento, em seu segundo mandato. Remunerado pela paixão e seguindo sempre o seu firme comando, me tornei integrante da diretoria mais vitoriosa da história do Atlético, o que me honra a não mais poder. Fecho o meu ciclo de ajuda ao Atlético em outubro deste ano ao encerrar meu mandato como presidente do conselho deliberativo, cargo que também muito me orgulha, principalmente pela aprovação da construção do nosso estádio, a Arena MRV. Quanto ao legado, não gosto de falar de mim mesmo e jogar confete na própria cabeça, até porque tudo que alcancei com o Galo foi fruto da liderança e dos suprimentos do Kalil.

 

Fala Galo Quem é o Rodolfo? Um atleticano abnegado?

Rodolfo GropenSou um atleticano como todos os atleticanos. Em rigor intenso em tudo, com amor incondicional, uma paixão sem igual. Filho de pai e mãe que nasceram e se casaram no Rio de Janeiro, Carlos e Rosa, ele Flamengo e ela Vasco, que viraram atleticanos – como se tivessem nascidos – por encontrarem o que só o Galo tem. Lembrando a queridíssima Adriana Branco: “só quem é, sabe”. Outros nunca entenderão. Aliás, já me peguei inúmeras vezes me indagando por que que a gente é assim. Sou casado com a Ana Paula, tenho três filhos, Rodolfo, Rafael e Ana Luiza, e advogado há 31 anos militando na seara tributária. Meus pais não se formaram. Lutaram muito na vida para dar a melhor educação para os filhos. Todos se formaram na UFMG, até porque não tínhamos condições de pagar universidade particular. A título de exemplo, éramos quatro irmãos e no banheiro havia apenas duas toalhas de banho. Quem tomava banho primeiro pegava a tolha seca. A partir de 2012 faltou uma peça no quebra-cabeça da minha vida, meu pai se elevou.

“Afirmo isso porque ser liderado por ele [Kalil] é algo transformador. Posso dizer que quem já trabalhou com o Kalil não se surpreendeu de ele ser eleito o melhor prefeito do Brasil.”
Rodolfo Gropen (fundo) e Alexandre Kalil



Fala Galo Como foi participar da diretoria do Kalil?

Gropen – Igual ou melhor impossível. Não digo isso tão somente pelo êxito incomparável, a exemplo da Libertadores de 2013, a mais emocionante de todas segundo um diretor da Conmebol me confidenciou, e da melhor Copa do Brasil da história, em que abatemos nosso rival com facilidade, o que de certa forma nos frustrou; sem contar as viradas incríveis contra o Corinthians e “Flamengaço classificadaço”. Afirmo isso porque ser liderado por ele é algo transformador. Posso dizer que quem já trabalhou com o Kalil não se surpreendeu de ele ser eleito o melhor prefeito do Brasil.

 

Fala Galo Acredita que o Kalil queira chegar à presidência do país? Você o apoiaria? 

Gropen – Não considero que o Kalil almeje chegar à presidência do Brasil, muito menos ouvi ele dizer nada sobre isso ou sobre ser governador de Minas. Contudo, eu, que o conheço de perto e trabalhei diretamente com ele, gostaria que isso acontecesse para o bem de Minas e do Brasil.

 

Rachas da situação e cobranças da torcida

Sérgio Sette Câmara e Alexandre Kalil
“Como presidente do conselho não dou palpite na diretoria executiva, no futebol, etc. Talvez por ter desempenhado este papel na administração Kalil, muitos, que não conhecem o nosso estatuto, instigam e reclamam de suposta falta de atitude em relação a isto ou aquilo que julgam equívoco. Até parei de ler as mentions do Twitter, única rede social que participo, pois as críticas quando o Galo perde passam dos limites e inibem o diálogo. Uma pena, porque costumava responder a todos. “

 

Fala Galo Há um “racha” entre Alexandre Kalil e Sette Câmara?

Gropen – Racha? Não. O Kalil avisou ao diretor-presidente Sette Câmara, há mais de um ano, e eu sou testemunha disto, que ele se afastaria por completo do Atlético para se dedicar à Belo Horizonte. Este é o fato. As versões ficam por conta de quem curte factoides.

 

Fala Galo Há alguma confusão na atribuição dos poderes? Você é cobrado por ser hoje presidente do conselho deliberativo e não da diretoria executiva de forma exagerada?

GropenSim, há. Ocorre ponderar que sempre respeitei as minhas competências. Como presidente do conselho não dou palpite na diretoria executiva, no futebol, etc. Talvez por ter desempenhado este papel na administração Kalil, muitos, que não conhecem o nosso estatuto, instigam e reclamam de suposta falta de atitude em relação a isto ou aquilo que julgam equívoco. Até parei de ler as mentions do Twitter, única rede social que participo, pois as críticas quando o Galo perde passam dos limites e inibem o diálogo. Uma pena, porque costumava responder a todos

 

Mudança do estatuto e por que sair de cena

Reunião do Conselho


Fala Galo Por que sair de cena? Frustração? 


GropenEntrei no Atlético, como disse há pouco, no crepúsculo de 2008. Estamos em 2019. Embora eu detivesse a possibilidade de ser reeleito presidente do conselho, decidi encerrar este ciclo por três motivos: primeiro para acompanhar mais de perto o desenvolvimento dos meus filhos – a vida passa rápido demais e não tem rascunho. O segundo é para me dedicar ainda mais ao meu escritório de direito tributário, que inclusive teve a honra de defender o Atlético, igualmente remunerado pela paixão. E, em terceiro lugar, é preciso renovar. Há inúmeros atleticanos competentes



Fala Galo O estatuto remodelado foi abortado ou ainda é um desejo seu de fazê-lo mudar?

GropenO meu desejo de reforma do estatuto vive. Hoje está em pleno funcionamento uma Comissão de Reforma do Estatuto no Conselho Deliberativo, coordenado por mim, e com membros muito qualificados, a exemplo de Castellar Guimarães, José Murilo Procópio de Carvalho, Fernanda Charbel, Milton Nassau, Guilherme Poggiali, Geraldo Moura Tavares, Leonardo Mascarenhas, desembargador Irmar e Sérgio Matos, que se reúnem sempre buscando aperfeiçoar e modernizar o nosso estatuto. Não é simples a tarefa, pelo contrário. Basta imaginar que o quórum para alterar o estatuto é o mesmo da aprovação do estádio. Só que não é uma votação de aplicar um sim ou um não. O estatuto vigente data de 2008, quando o Atlético tinha um orçamento de um sexto do atual. Na minha visão, há que alocar regras de “compliance”, repensando e alargando mecanismos de controle interno, aumentando cada vez mais os procedimentos, a exemplo do sistema de gestão SAP implantado por Sette Câmara e Lásaro Cunha, diminuindo os riscos de práticas indesejáveis no futuro, otimizando a governança, coagindo a todos os próximos administradores do Atlético a seguir um comportamento fundamentado em regras e padrões éticos. Esta Comissão deve entregar aos conselheiros um esboço em outubro.

 

Abertura dos clubes e os bons exemplos de marketing social

Clube Labareda

“Não vejo o Atlético fechado. Fácil explicar. Há cerca de 7.000 sócios do Galo, entre Vila Olímpica e Labareda, aptos a votarem e também a serem votados. São sete mil! Contudo, para participar tem que montar a chapa, que de fato dá trabalho, ainda mais para quem gosta de reclamar sentado e atrás de um telefone ou de um computador.”
 

Fala Galo O Atlético é fechado? Muitos sócios dizem não ter chance alguma em montar outra chapa para concorrer. Como enxerga este novo momento de abertura dos clubes? Sócio GNV poderia participar?

GropenNão vejo o Atlético fechado. Fácil explicar. Há cerca de 7.000 sócios do Galo, entre Vila Olímpica e Labareda, aptos a votarem e também a serem votados. São sete mil! Contudo, para participar tem que montar a chapa, que de fato dá trabalho, ainda mais para quem gosta de reclamar sentado e atrás de um telefone ou de um computador. Colho a oportunidade para exortar a quem não é sócio do Atlético a integrar os quadros da Vila Olímpica e do Labareda e participar das próximas eleições. Quanto ao sócio GNV, eu reflito com cuidado, pois alguém com muito dinheiro poderia desvirtuar o processo de eleição e tomar o Atlético. E o Atlético é dos Atleticanos.

Fala Galo O Bahia tem feito um trabalho de marketing social atingindo todos os públicos e preços. Este é o caminho? Um Galo com produtos para todos é possível? 

GropenVejo uma evolução muito grande na comunicação e no marketing do Atlético. Vejo as lojas do Galo com produtos para todas as faixas. No entanto, considero sempre que podemos aperfeiçoar. Disto não ultrapasso, por respeito à independência da diretoria-executiva.

 

Estádio do Galo, distintivo grande na nova coleção e Coleção Pai e Filho

Arena MRV

“Sou de carne, ossos, emoções e sentimentos, como qualquer dos meus semelhantes. Mas sigo aprendendo e um dia, se der tempo, chego lá.”



Fala Galo O Estádio vai começar e você não foi ao programa do Fala Galo, bora? 

Gropen – Em outubro eu irei. Deste ano…rs



Fala Galo Como se sente ao fazer parte do processo de ajuda para fazer este sonho sair do papel?

GropenSem palavras para descrever. Tudo começou no segundo mandato do presidente Kalil. Passou pela administração do Daniel Nepomuceno, que trabalhou duro, culminou naquela histórica Assembleia do Conselho Deliberativo, que tive a honra de presidir, e continua a passos largos na administração do Sette Câmara. É preciso mencionar o apoio da família Menin, Rubens e Rafael, da MRV, que foram fundamentais. Não posso me esquecer da contribuição singular do Dr. José Salvador… Há muitos, mas paro por aqui para não cometer injustiças. Está pertinho do papel se transformar em tijolo. Tudo foi feito obedecendo as regras municipais e estaduais. A burocracia administrativa para um equipamento deste tamanho é complexa. Demorou mais do que queríamos, mas não houve “atropelos”. Não vejo a hora de realizar o nosso sonho da casa própria. E será o melhor estádio da América do Sul. Podem apostar.



Fala Galo O Fala Galo lançou de forma independente a Coleção Pai e Filho com um depoimento seu. O que é resgatar a memória? Sem clichês, isso é balela ou só precisamos do hoje?

GropenResgatar e louvar a nossa memória é um dever de atleticanidade e de atleticanismo. E a Coleção Pai e Filho é um exemplo desse exercício. Zé do Monte foi uma lenda. Tenho que dar os meus parabéns. Li outro dia que o Atlético detém a maior quantidade de livros lançados a seu respeito, em tema de clubes de futebol. Um orgulho. Digo sempre e repito aqui, nós não somos apenas do Clube Atlético Mineiro, como preconiza nosso hino, nós somos o Clube Atlético Mineiro.


 
Fala Galo Soube que o símbolo da Le Coq, maior, além da tarja de capitão com o distintivo foram ideias suas. O Galo tem que pensar gigante em tudo? É verdade este “bilete”?

Gropen O nosso escudo é a radiografia da nossa alma. 

Atlético e Le Coq, parceria de sucesso


Fala Galo Um recado livre do seu coração ao coração atleticano – você abdicou ser presidente certa vez, agora sai do conselho. E aí? Parou ou vai se preparar para ser presidente de um clube com estádio novo?


GropenSou de carne, ossos, emoções e sentimentos, como qualquer dos meus semelhantes. Mas sigo aprendendo e um dia, se der tempo, chego lá.

 

Galo, som, sol e sal é fundamental!

 

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Edição: Ruth Martins
Edição de imagem: André Cantini

Angel Baldo

Mineiro de nascença, mas Paulista de criação. 30 anos, Administrador e Engenheiro Mecânico. Atualmente residindo na cidade de Uberlândia.

6 comentários em “Entrevista especial – Rodolfo Gropen saindo de cena

  • 31 de agosto de 2019 em 09:12
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    Sensacional reportagem!
    Gropen é um cara humilde!

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  • 31 de agosto de 2019 em 19:43
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    Poucos saem de um cargo público maiores do que quando entraram. Parabéns pela entrevista!

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  • 31 de agosto de 2019 em 20:20
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    Parabéns Fala Galo pela bela entrevista. E meu reconhecimento ao Dr. Rodolfo Gropen pelo belo trabalho que vem desenvolvendo ao longo de todos estes anos junto ao nosso Galo. Tenho certeza que em breve colheremos os frutos deste trabalho. E quem sabe poderemos acompanhar sua trajetória na presidência do Galão. Sds e sucesso. Renato Moreira, Itabira/MG

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  • 1 de setembro de 2019 em 06:10
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    Confesso que quando leio essas matérias sobre o nosso clube fico muito emocionado. E como o clube estava no passado, como está hoje isso tudo só se explica para quem é. O resto não entende. Aliás, se o Galo fosse um clube vencedor cheio de títulos não haveria graça. Me pego muitas vezes vendo vídeos antigos como por exemplo daquele jogo contra o Milan em 97, na despedida de Cerezo. Um empate, mas conseguido na raça, no última minuto, bem do jeito do Galo com a torcida gritando, empurrando o time para frente. Como dizem quem gosta de título é cartório, quem gosta de vitória é o estado do Espírito Santo, a massa do Galo gosta é de festa.

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