Democracia dissimulada e o silêncio dos excluídos

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Por Silas Gouveia e Prof Denílson Rocha 

Em um momento em que o radicalismo e a polaridade ideológica dominam o debate político, não pretendemos discutir a democracia e a estrutura político-partidária no País. Futebol e política sempre tiveram laços; Reinaldo já desafiou o status quo com a comemoração estilo Panteras Negras – e pagou um preço elevado por sua rebeldia; mas há muita gente competente (e algumas nem tanto) para conduzir este debate em espaços mais adequados que este. Aqui, vamos nos concentrar a discutir a presença (ou ausência) da democracia no Clube Atlético Mineiro.

Nesta semana, o Atlético realiza eleição para escolha de 150 (cento e cinquenta) conselheiros e 75 suplentes. O pleito segue as regras definidas no Estatuto do Clube, que, ao realizar eleições, cumpre com o mínimo que se espera de uma Instituição centenária marcada por sua tradição democrática e por, efetivamente, ser um clube do povo.

Reunião do Conselho onde contas de 2019 foram aprovadas com unanimidade

Entretanto, o Estatuto, antiquado e pessimamente redigido, não permite que a democracia seja exercida no Atlético em sua plenitude.

Para começar, o Estatuto determina, em seu artigo 25, que “A Assembleia Geral reunir-se-á, ordinariamente, a cada período de três anos, na primeira quinzena do mês de agosto, para eleger os membros do Conselho Deliberativo, sendo estes 150 (cento e cinquenta) efetivos e 75 (setenta e cinco) suplentes, e extraordinariamente, quando necessário, para deliberar sobre outros assuntos de interesse social” (grifo nosso). Observem que o texto utiliza de um artigo definido: “eleger OS MEMBROS do Conselho Deliberativo”. Ou seja, não fala em alguns membros ou apenas certos membros, sem quantidade definida. Ao tratar como “os membros do Conselho Deliberativo”, TODOS deveriam ser eleitos democraticamente.

 

Aí começa a ruir a democracia atleticana… Porque o artigo 30 aponta que o Conselho Deliberativo é constituído de conselheiros grande-beneméritos, beneméritos, natos, natos e eleitos. Mas os membros do Conselho Deliberativo não deveriam ser eleitos?

Pior! Que democracia é esta que tem mais membros indicados para cargos vitalícios (e sem critérios claros) que os eleitos de maneira democrática? Afinal de contas, o artigo 31 estabelece que há 200 (duzentos) Conselheiros Beneméritos e sequer há definição da quantidade de Conselheiros Natos ou Grande-Beneméritos. Só por curiosidade, alguém sabe qual foi a contribuição que cada um dos Conselheiros Beneméritos ou Grande-Beneméritos deu ao Atlético? Ou, ao menos, alguém sabe o que é considerado “serviço de alta relevância” ou engrandecer o nome do Atlético para que seja indicado ao cargo vitalício?

Para se ter ideia do quanto o Estatuto do Atlético é precário, o mesmo artigo 31 aponta que são “150 (cento e cinquenta) Conselheiros Efetivos”, mas não existe a figura de conselheiro efetivo. São conselheiros ELEITOS. Ou os demais não são efetivos?

O artigo 30 ainda traz a grande constatação do quanto não se valoriza a democracia no Atlético. O texto diz que “O Conselho Deliberativo é o órgão soberano do Clube”. Segundo o dicionário, soberano é quem tem o poder supremo, o domínio. E em um regime democrático, o poder emana do povo! O órgão soberano de um clube democrático é a Assembleia Geral, composta por TODOS os sócios. Então, o Atlético tem, conforme seu Estatuto, uma oligarquia autoproclamada – em outras palavras, um grupo que se colocou como dono do poder.

Mas a grande estratégia de manutenção de poder está nas cláusulas 40 e 42 do atual Estatuto do Galo. Para concorrer ao cargo de conselheiro eleito, o candidato precisa ser incluído em uma chapa com, no mínimo, 50 (cinquenta) participantes. E é ser incluído mesmo! Não esperem que associar-se ao Clube e cumprir com as obrigações como sócio seja suficiente para buscar uma vaga no Conselho. Para fazer parte de alguma chapa, é necessário ser convidado por algum dos barões que comandam o Galo – para ter certeza disso, basta assistir às entrevistas que o FalaGalo fez com conselheiros do Clube e ambos afirmam que foram convidados a integrar chapas na eleição ao Conselho. Que democracia é esta que só podem ser candidatos aqueles escolhidos pelo dono do poder?

O incrível na composição da chapa única inscrita para eleição ao Conselho Deliberativo do Atlético é que há, somente, 19 (dezenove) novos nomes. São os mesmos de sempre, convidados e submissos ao jogo de poder, que ficam eternamente em um Conselho que não tem qualquer representatividade de quem realmente faz o Atlético: a Massa. Em geral, é fácil ver um grupo de omissos, que se calam nas reuniões do Conselho, que não questionam, não propõem, não fazem nada que não seja autorizado por quem os colocou naquele lugar. O único Conselheiro que ousou questionar (e nem vamos avaliar a fundamentação de suas críticas) foi “supreendentemente” excluído do pleito eleitoral. Enquanto isso, um candidato a suplente afirmou que nem sabia que estava inscrito na chapa – e posteriormente mudou sua declaração pois, obviamente, entendeu a gravidade da fala. O controle na constituição das chapas é tão rigoroso que impede até mesmo que apareça qualquer oposição – o que pode ser constatado com a chapa única no atual pleito. Até quando vamos ter a necessidade de composição de chapas fechadas para concorrer ao cargo de Conselheiro do Atlético? Até quando iremos precisar das bênçãos dos poderosos para se candidatar a um cargo não remunerado, mas de enorme valor no peso das decisões desta instituição centenária? Até quando vamos viver e assistir nosso clube do coração, ser armado e administrado por um bando de amigos, cujos interesses sempre se sobressaem aos do clube?

Esta estrutura oligárquica é utilizada, prioritariamente, para manutenção das próprias condições. As poucas famílias escolhem quem concorre nas eleições. Os eleitos só têm seus cargos se mantiverem sua submissão a quem os escolheu. Como participantes do Conselho, são os mesmos que vão aprovar a escolha dos grande-beneméritos e beneméritos, que poderão se perpetuar no Clube em seu cargo vitalício. E assim o Conselho Deliberativo – “órgão soberano” – continua exclusivamente nas mãos de poucas famílias, que novamente vão escolher os integrantes das chapas às eleições e a círculo vicioso continua indefinidamente. São todos, “farinha do mesmo saco”! Quem elege e quem é eleito. Há uma aura de supremo nestas escolhas e nas eleições de Conselheiros do Atlético. E não ousemos nos manifestar e muito menos questionar, pois seremos tratados como a escória da sociedade, inimigos do clube e até mesmo de torcedores do clube rival. Já sentimos isto na pele, quando abrimos espaço para que Conselheiros se manifestassem em nossas Lives. Sofremos algumas represálias por nossa “audaciosa” maneira de nos posicionar, mesmo tendo sido aberto espaço para todo e qualquer Conselheiro ali se manifestar.

 

É ilegal? Acho que não. Mas tenho a certeza de que É IMORAL. Assim como é imoral que pessoas ou instituições vinculadas a membros do Conselho sejam credoras do Clube – quem empresta ao Atlético é o mesmo que aprova o orçamento, a prestação de contas e o balanço. Alguém imagina que haverá coragem para questionar se as taxas praticadas são abusivas ou não? Ou mesmo se os empréstimos foram necessários? Alguém imagina coragem para uma auditoria profunda nas contas do Clube?

Não se surpreendam se a “renovação” do Conselho – com incríveis 19 (dezenove) novos integrantes – levar à aprovação da venda do patrimônio do Clube. Não se surpreendam se este “novo” Conselho decidir pela venda do que o Atlético ainda possui do Diamond Mall. E mais, não se surpreendam se os compradores tiverem vínculos com alguma (s) da (s) família (s) que dominam o Conselho. Aliás, há mesmo uma corrente que afirma ser este o único e real objetivo desta eleição de cartas marcadas. Conseguir o apoio necessário para a tal “Mudança no Estatuto” do clube. Mas estas mudanças passarão longe de propor algo que indique uma abertura, uma democratização, ou mesmo uma profissionalização na gestão do clube. Segundo algumas pessoas disseram, a mudança no Estatuto teria como objetivo principal somente duas questões: Remunerar diretores e Presidente e abrir espaço para a venda do restante do shopping, com o discurso de que não há outra forma de sanear as finanças do clube. Dizem até, que uma consultoria foi contratada para fazer um estudo de viabilidade econômica do clube, onde se apontariam as saídas do buraco financeiro encontrado. Acontece que esta Consultoria parece ter sido impedida de fazer qualquer proposição de aumento de receitas. Ora! Se não há possibilidade de propor que novas receitas possam advir de outras fontes, restam de fato poucas ou nenhuma outra alternativa que não seja a venda de um patrimônio do clube, para pagar dívidas que nunca foram explicadas e muito menos auditadas, para se saber sua origem, necessidade e viabilidade ao clube.

Novamente: é ilegal? Acho que não. Mas é, certamente, IMORAL.

E a Massa continua silenciada e silenciosa. A Torcida continua quieta, esperando que “alguém” se apresente para mudar as coisas. Continuamos (e estou me incluindo) gritando nas redes sociais, reclamando de Diretorias pouco ou nada competentes, da “austeridade”, dos jogadores medianos, das dívidas… e esperamos um salvador, um herói que venha nos representar e mudar a situação. Alguns entendem que as torcidas organizadas devem assumir esse papel de questionar. Mas acredito que isto é apenas mais uma forma que temos, para transferir e repassar nossas responsabilidades. Cobramos das organizadas, aquilo que cada um teria como obrigação de ao menos buscar formas de fazer. E continuamos quietos, inertes e passivos.

Alguns clubes brasileiros iniciam um movimento para verdadeiramente envolver o torcedor em suas rotinas, entendem que sócio torcedor é sócio e, assim, pode votar e ser votado. Alguns clubes começam a entender e praticar a democracia. Enquanto isso, nas Minas Gerais, assistimos passivamente à apropriação de nossas instituições centenárias por grupos de interesse cujas práticas são, no mínimo, questionáveis. Mas não são estes que devem ser questionados ou temidos. Como afirmou Martin Luther King, “o que me preocupa não é o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética… O que me preocupa é o silêncio dos bons”.

Acorda Massa!

 

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Angel Baldo

Mineiro de nascença, mas Paulista de criação. 30 anos, Administrador e Engenheiro Mecânico. Atualmente residindo na cidade de Uberlândia.

9 comentários em “Democracia dissimulada e o silêncio dos excluídos

  • 8 de agosto de 2019 em 09:33
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    Bom dia, excelente artigo…dura realidade de um clube dominado por poucas pessoas. O clube hj é um brinquedo de meia dúzia, e um brinquedo com orçamento de mais de 250 milhões/ano. E quem rende esse orçamento ao clube?..a torcida. Pior, essas pessoas que dominam o clube acham que a gente só tem que torcer mesmo, da arquibancada pra fora…Quando isso vai mudar?? quando o clube estiver no osso, na pior e nem esses dominantes quiserem mais, o fundo do poço, mas ai teremos fôlego para reerguer o clube?? Difícil situação que nos encontramos hj e com um futuro nada promissor. Já tive esse sócio torcedor de futebol, não tenho mais, não trás benefícios nenhum…Ser sócio apenas da arquibancada pra fora não dá. A torcida quer participar ativamente do dia a dia do clube…Saudações

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  • 8 de agosto de 2019 em 10:00
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    Perfeito o texto. A torcida ainda não percebeu q o buraco é mais embaixo. Não adianta criticar jogador, diretor, treinador. O problema no Galo é a estrutura viciada. Temos Um estatuto medieval e antidemocrático. Um conselho omisso e subserviente ao feudo q comanda o clube há tempos.
    Precisamos de um estatuto novo, totalmente remodelado, com direito a voto direto dos sócios para presidente e membro do conselho. Presidente e diretores remunerados e com dedicação exclusiva. Transparência e gestão de excelência são as palavras chave. O problema é q isso só acontecerá se a torcida fizer pressão. Ou alguém acha q o feudo q comanda o clube há tempos vai largar o osso e democratizar o clube por vontade própria? claro q não.
    Infelizmente, vejo uma torcida passiva nesse ponto. Enquanto a estrutura do clube continuar dessa forma, vamos continuar nos contentando com pouco em termos de resultado.
    Como o blogueiro disse, já existem clubes q se modernizaram dessa forma. Exemplo clássico é o Bahia. Lá existe um Estatuto moderno e transparente. Todos os sócios votam diretamente. Como consequencia dessa modernização, a cada ano, as receitas aumentam e a dívida diminui. O resultado em campo já começou a aparecer. A receita já está pronta. É só o Galo copiar.
    Bora encampar essa ideia, nobre blogueiro. Só assim pra tirar nosso Galo das trevas, antes que seja tarde demais.

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  • 8 de agosto de 2019 em 10:03
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    Brilhante texto. Pena que não há horizonte de mudança dentro do Clube.

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  • 8 de agosto de 2019 em 10:07
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    Faltou mencionar no texto que o Gropen enfiou dentro da chapa um garoto de 18 ou 19 anos, imagino que seu filho.
    O Márcio Cadar foi retirado pra botar um molecote de 18 anos pra ser vaquinha de presépio!
    Gropen COVARDE IMUNDO!

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  • 8 de agosto de 2019 em 11:25
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    O Conselho do nosso amado CAM é provinciano, arcaico, de poucos donos e quem for contra se ferra de preto e branco… democracia passa longe e assim continuará por anos e anos a frente… uma triste realidade para um clube de torcida loucamente apaixonada e que nunca teve direito algum a não ser torcer e carregar o time nas costas!!!!!!!!!!!!

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  • 8 de agosto de 2019 em 13:16
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    Desta panela reinante vai se esperar o quê? Que os direitos societários e de governança sejam respeitados ou ainda, que haja uma modernização e atualização de um Estatuto arcaico( CAM hoje tem receitas superiores a 300 milhões de reais/mês) em que nos seus 111 de existência foram feitos apenas TRÊS ajustes,sendo dois deles para encher linguiça? Não! A ”’mesmice”’ proposta e continuada não passa de um acinte
    não somente aos sócios do Clube,como também à toda a sua torcida. Panelinha privilegiada que chama! SAN
    #RenovaGalo

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  • 9 de agosto de 2019 em 11:21
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    Excelente artigo! Pena que é pouco divulgado. Eu mesmo não sabia disso. Acho que o primeiro passo para a necesária mudança é que os atleticanos compreendam a situação.
    Parabéns!!

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  • 9 de agosto de 2019 em 17:58
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    Por isso é um clube centenário com poucas alternativas! Poucas vezes vi um artigo tão bem escrito e retratando a realidade ridícula e a verdadeira causa da desgraça da torcida que é esse conselho com famílias misteriosas que ninguém sabe nem mesmo quem são ou o que fazem com o clube a anos ! Eu tenho certeza que essa gente que domina o Atlético ha muitos anos e faz os torcedores de idiotas vivem as custas da “massa” e vivem muito bem ! São poucas famílias,mas famílias com bom status vivendo aqui ou até mesmo fora do Brasil! Essa gente me enoja ! Quem dera a maioria da torcida acordasse e se levantasse contra essa gente. Essa turma cheira mal ! muito mal!

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  • 18 de setembro de 2019 em 17:17
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    Como sempre, esse mimimi cansativo e idiota.

    Depois procurem saber se os antigos gregos, criadores da democracia, preferiam aristocracia ou democracia. Spoiler: não era a democracia.

    Eu já vi time cair pra segunda divisão, já vi perder mundial no Marrocos, já vi tomar de 6 a 1 e nunca desisti do Galo. Mas no dia que me falarem que a torcida vai votar igual vocês querem eu desapareço e vou morar no meio do mato pra nem ouvir falar mais. Era o que faltava.

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