Se na vida é preciso planejar, no futebol planejar é preciso

 

 

Ruth Martins
27/02/2020 – 22h18
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Quando ainda era estudante do curso de Jornalismo, me lembro de escrever um texto a quatro mãos com meu colega de classe, Reginaldo Sá, que falava exatamente sobre a “dança das cadeiras” nos clubes brasileiros. À época, o Clube Atlético Mineiro já figurava na lista dos clubes que mais trocavam de treinador por temporada. Engraçado é que ao mesmo tempo em que começam os campeonatos pelo Brasil, inicia-se também a dança dos técnicos nos clubes.

E a criatividade dos dirigentes para demitir técnicos é tão grande, que dá para criar um manual de como fazê-la (ou não). Já houve casos e casos de profissionais demitidos no vestiário, durante uma viagem da equipe para jogar, no hotel, à beira do gramado, menos de 24 horas depois de o treinador ter obtido expressivo triunfo, e até mesmo por telefone.

Na noite da última quarta-feira (26) foi a vez do presidente do Atlético fazer o anúncio, no mínimo, de forma curiosa. Logo após a eliminação do clube para o modesto time do Afogados de Ingazeira, ainda na 2ª fase da Copa do Brasil, Rafael Dudamel concedeu entrevista coletiva à imprensa mineira e deixou a entender que a conversa com os dirigentes no vestiário não tinha ligação com a sua demissão, ou seja, parecia que o seu trabalho teria continuidade. Assim como fez o próprio presidente, Sérgio Sette Camara, após a eliminação para o Unión Santa Fé, logo na 1ª fase da Copa Sul-Americana uma semana antes. Meia hora depois o clube anunciou pelo Twitter que Dudamel, sua comissão, o diretor de futebol, Rui Costa, e o gerente de futebol, Marques Batista de Abreu, estavam fora dos planos para a temporada 2020.

Não estou aqui defendendo o treinador venezuelano, só estou expondo a falta de convicção da diretoria ao escolher (ou manter) um treinador e como essa posição é frágil, embora devesse ser a mais segura de todas no time. Os motivos pelos quais os treinadores não têm vida longa nos clubes brasileiros são vários. Vai desde uma cobrança excessiva (quando aflora o técnico que existe dentro de cada um de nós, torcedores), passa pela falta de uma legislação que determine um número máximo de técnicos/ano a cada time, pelo capricho de diretores, e termina no principal motivo: a total incompetência dos dirigentes no PLANEJAMENTO ANUAL DO CLUBE.

Mandatários de clubes brasileiros, com raras exceções, não conseguem planejar o que o clube precisa fazer para chegar ao objetivo principal, que é ser campeão. Gastando um valor maior do que a receita, contratam por atacado, muitas vezes, pela tal da “oportunidade”. Mas, quando o resultado não vem, e com jogadores como Franco Di Santo isso é certo, a ação mais cômoda (e, às vezes, covarde) é a demissão do treinador.

Somente em 2020, ao menos 5 dos 20 clubes da série A demitiram seus técnicos com os campeonatos já em andamento. Outros tantos já estão pressionados nos cargos. E ainda estamos em fevereiro. Curiosamente, alguns desses técnicos ficam desempregados na primeira crise e até mesmo com bom aproveitamento. Neste último caso, temos como exemplo recente o Cristóvão Borges no Atlético-GO, demitido após 7 jogos e apenas 1 derrota.

Essa “dança” é tão maluca, que há situações em que o técnico demitido fica sem clube apenas uma rodada. É o caso de Argel Fucks e Adilson Batista no final do Brasileirão de 2019. Um caiu no Ceará e imediatamente foi contratado pelo Cruzeiro, ao passo que o outro saiu do CSA e assumiu na rodada seguinte o Ceará. Detalhe, os quatro clubes estavam em uma disputa ingrata e acirrada naquele momento. Consequência ou não, os clubes que mais trocam de treinador geralmente ocupam posições pífias na tabela ou brigam para não cair para a 2ª divisão do futebol brasileiro.

Rafael Dudamel iniciou o trabalho no Atlético no dia 8 de janeiro. Caiu no dia 27 de fevereiro. Veio anunciado pelo diretor Rui Costa como parte de um projeto a longo prazo, que pelo visto não existia. É verdade que ele não conseguiu apresentar algo novo. Pelo contrário, analisando os 10 jogos em que esteve no comando do clube, em todos eles o time teve uma escalação diferente, um esquema tático diferente, uma filosofia diferente. Faltou-lhe convicção no próprio trabalho. Faltou ainda entender o futebol brasileiro na sua essência e, principalmente, faltou enxergar o jogo, fazer a leitura de jogo a cada situação adversa. Caiu abraçado ao que havia de pior no time desde outras épocas, o ataque defasado.

Ao Dudamel, cabe um pouco mais de estudo para assumir um clube, que tem outra dinâmica em relação à seleção venezuelana. Ao presidente Sérgio Sette Câmara, cabe repensar a forma de gerir o futebol, atividade fim do clube. Não dá para trocar de técnico (e escolher perfis totalmente diferentes) a cada três meses, assim como não é possível trocar de diretor de futebol todo ano e acreditar que vai colher bons frutos. Este mandato está acabando e não há o que tirar de bom da passagem dele pelo Clube Atlético Mineiro, somente a lição de que tudo na vida precisa ser planejado. Aliás, se na vida é preciso planejar, no futebol planejar é preciso.